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Manaus (AM), Brasil — Vencedor de dois prêmios World Press Photo em 2006 e 2007, o mais prestigiado concurso de fotojornalismo do mundo, Beltrá acaba de conquistar o prêmio Global Vision do Pictures Of the Year International (POYi), um dos mais importantes para fotógrafos profissionais de natureza. A cerimônia de entrega dos prêmios acontecerá no Auditório Grosvenor, na sede da National Geographic, em Washington, nos dias 17 e 18 de abril.

Era para ele ser um biólogo, mas o destino não quis assim: com uma câmera na mão e um olhar privilegiado sobre meio ambiente, Daniel Beltrá se transformou em um dos fotógrafos de natureza mais conceituados do mundo. Natural de Madri, na Espanha, Beltrá vive em Seattle, nos Estados Unidos, mas passa mais da metade do ano viajando captando imagens do planeta.

A seguir, leia entrevista realizada com Daniel Beltrá, que desde 2001 já realizou diversos trabalhos com o Greenpeace na Amazônia.

Em 2006, você foi agraciado com o primeiro World Press Photo, por sua foto de um barco encalhado na Amazônia por conta da seca que assolou a região no final de 2005. Em 2007, você foi novamente premiado por uma imagem de um campo de soja, também na Amazônia. E acaba de receber um terceiro prêmio. Fale um pouco sobre ele.
O Pictures Of the Year International (POYi) é um prêmio dado a um conjunto de trabalho fotográfico sobre questões ambientais, de natureza ou de ciência. É concedido pela Universidade de Missouri, que possui o curso de jornalismo maior reputação nos Estados Unidos. O painel de júri é composto por editores de revistas extremamente conceituadas, como GEO e Magnum, renomados professores e fotógrafos. O processo de julgamento é muito interessante, pois é aberto ao público – jornalistas, estudantes e público em geral podem observar as discussões, embora não possam participar. Como vencedor de um dos quatro principais prêmios e por ser a primeira vez que o prêmio Global Vision é concedido, fui convidado para fazer uma apresentação do meu trabalho na Amazônia na cerimônia de entrega da premiação. Estou muito feliz!

Conte um pouco de seu interesse por temas ambientais. Quando começou? Quais suas principais preocupações?
Desde quando eu era criança, eu sempre me interessei por natureza. Fotografia era minha segunda paixão – ganhei minha primeira máquina fotográfica aos 12 anos de idade. Quando estava estudando biologia pela Universidade de Madri, eu consegui um emprego como fotógrafo na EFE – agência espanhola de notícias. Uma coisa levou à outra e, logo, eu estava documentando problemas ambientais.

Desde quando e como você se envolveu com a Amazônia?
Minha primeira viagem ao Brasil aconteceu em 2001 e, desde então, sempre volto para realizar trabalhos pela campanha da Amazônia, do Greenpeace. Eu me sinto muito sortudo de poder fazer parte de um time de pessoas dedicadas, que trabalham para proteger a maior floresta tropical do planeta. É uma campanha muito querida para mim e acredito que pode ser crucial para nosso futuro. Já perdemos mais de 17% da floresta. É tempo de agir.

Como um prêmio como esse pode ajudar na campanha pela preservação da Amazônia?
A fotografia é uma ferramenta extremamente poderosa para expor os crimes ambientais. A floresta Amazônica representa mais da metade das florestas tropicais remanescentes no planeta e abriga a maior biodiversidade do planeta. Cerca de um quinto da água doce disponível no mundo também está aí. O delicado equilíbrio climático que a floresta ajuda a sustentar está começando a ser estudado agora pelos cientistas. Mais de 17% da floresta Amazônica já foi destruída por madeireiros, grileiros e fazendeiros ilegais. As queimadas continuam lançando enormes quantidades de dióxido de carbono na atmosfera. O Brasil é o quarto maior emissor de gases do efeito estufa do mundo, sendo que aproximadamente 75% vêm da queima e desmatamentos na Amazônia, agravando o aquecimento global.

Qual é o sentimento que você tem ao tirar uma foto de um crime ambiental como esses registrados na Amazônia? A fotografia é uma boa ferramenta para mudar o estado das coisas?
Tem um ditado que diz: “ver para crer”. As pessoas se dão conta do problema quando o visualizam. A imagem fotográfica fica retida na memória por muito mais tempo do que as imagens em movimento. Eu acredito que as imagens certas podem motivar as pessoas a agirem. Quando eu testemunho uma agressão ao meio ambiente, primeiro eu me sinto frustrado, mas tento reverter essa energia negativa em algo positivo. Eu quero dar o melhor de mim para tentar proteger essa floresta maravilhosa. Sou um otimista por natureza e acredito que ainda há tempo  para agir e reverter esse processo de destruição.

Muitas de suas fotos são tomadas aéreas. É a melhor forma de mostrar o que acontece?
Ao fazer tomadas aéreas tem-se uma perspectiva mais dramática do problema. Além disso, a Amazônia é enorme, do tamanho da Europa. Durante a seca que assolou a região em 2005, muitos rios ficaram com a navegação comprometida e voar era a única alternativa.

Qual a foto da floresta que você ainda não fez – e gostaria de fazer?
Eu adoraria fotografar uma linda área de floresta primária, cuja legenda se leria:  “O governo brasileiro concorda e implementa o plano para zerar o desmatamento na Amazônia”.