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Rio de Janeiro, Brasil — Está sendo realizada, entre os dias 02 e 06 de abril de 2007, em Bruxelas, a Oitava Sessão Plenária do Grupo de Trabalho II do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas – IPCC, na qual delegados e cientistas de mais de cem países darão continuidade aos trabalhos divulgados em fevereiro deste ano. Ao final da semana, será divulgada a segunda parte do quarto relatório de avaliação do IPCC, que trata sobre os impactos das mudanças climáticas e é denominado “Impactos, Adaptação e Vulnerabilidade”.

Na primeira parte do seu relatório, divulgada em fevereiro, o IPCC utilizou a expressão “inequívoca” para definir, com 90% de certeza, a participação efetiva da ação humana no fenômeno da mudança do clima. Isso significa que, desde a Revolução Industrial, o homem tem responsabilidade pelo rápido aquecimento do planeta.

Na ocasião, o IPCC alertou que o nível do mar poderá subir entre 18 e 59 centímetros até o final deste século, o que tornaria as populações costeiras mais vulneráveis a enchentes e tempestades. As áreas ameaçadas hoje abrigam cerca de 2% da superfície terrestre e aproximadamente 10% da população.

No mundo

Um estudo científico do Instituto Internacional para o Ambiente e o Desenvolvimento, de Londres, publicado no jornal "Environment and Urbanization" identifica, pela primeira vez, as áreas costeiras baixas como vulneráveis à elevação do nível do mar provocada pelo aquecimento .

No total, 634 milhões de pessoas moram em zonas de risco - regiões com menos de 10 metros de altitude - e esse número está crescendo, diz o estudo. Dos mais de 180 países com população vivendo em regiões costeiras de baixa altitude, cerca de 70% possuem áreas urbanas com mais de 5 milhões de pessoas, incluindo Tokyo, Nova York, Mumbai (Índia), Xangai (China), Jacarta (Indonésia) e Dacca (Bangladesh).

A Ásia é particularmente vulnerável e, em geral, as nações mais pobres correm maior perigo. Entre 1994 e 2004, cerca de um terço dos 1.562 desastres com enchentes ocorreram na Ásia. Das 120 mil pessoas que morreram nesse tipo de tragédia, cerca de metade vivia na região.

De acordo com o estudo publicado no site “Sciencexpress”, pelo Potsdam Institute for Climate Impact Research, da Alemanha, existe uma relação direta entre a elevação do nível do mar e o aumento médio global de temperatura. O estudo demonstra uma aproximação entre temperatura e as mudanças do nível do mar, durante o século 20, de 3,4mm/ano/°C. Quando aplicados os cenários de aquecimento futuros do IPCC, resultam em um aumento do nível do mar, no ano de 2100, de 0,5 metros a 1,4 metros acima dos níveis de 1990.

No Brasil

No Brasil, quarto maior emissor de gases de efeito estufa do planeta, os cenários climáticos mais quentes podem fazer da costa do Rio Grande do Sul até o Sul do Rio de Janeiro, entre 2071 e 2100, uma região de condições favoráveis para o desenvolvimento de ciclones extratropicais. Se as mudanças climáticas trouxerem os furacões do Atlantico Sul, haverá necessidade de mudanças nos códigos de edificações, prevendo construções resistentes aos ciclones, além de adaptação de órgãos como a Defesa Civil.

O aparecimento de furacões não é o único risco da elevação do nível do mar. Nas cidades litorâneas brasileiras, cerca de 42 milhões de pessoas (25% da população) que vivem na zona costeira, serão possíveis vítimas da elevação do nível do mar. Nas cinco principais metrópoles à beira-mar – Fortaleza, Recife, Salvador, Rio de Janeiro e Belém – residem mais de 22 milhões de indivíduos.

O nível médio do mar pode aumentar entre 30 cm e 80 cm nos próximos 50 a 80 anos. Nos últimos 50 anos foi observada uma tendência na costa brasileira de um aumento do nível relativo do mar da ordem de 40 cm/século, ou 4mm/ano.

No Rio de Janeiro

Variações do nível relativo do mar podem ocorrer também por causa da expansão térmica, provocada pelo aquecimento global, e pelas marés meteorológicas, ocasionadas pelo aumento da intensidade dos ventos. Ambas podem provocar um “empilhamento” de até 20 cm de água na costa do Rio de Janeiro e calçadões, casas e bares construídos à beira mar poderão ser destruídos pelas ondas ou pelo aumento de até quase meio metro do nível médio do mar.

Na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, maior concentração urbana costeira do país, as previsões mais pessimistas indicam que, até 2100, o aumento do nível do mar, que sobe 4 milímetros por ano, engolirá calçadões da orla, ameaçando casas e prédios à beira-mar.

Além disso, tempestades e ressacas no litoral fluminense serão mais freqüentes e fortes, com conseqüências mais graves daqui a 100 anos, quando o mar poderá estar 50 centímetros mais alto e o aumento da temperatura poderá chegar aos 4°C. Áreas populosas e de baixa renda como a Baixada Fluminense poderão ser atingidas por enchentes mais intensas.

De acordo com a Coordenação dos Programas de Pós-Graduação em Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro – COPPE / UFRJ, a elevação do nível do mar em 50 centímetros no Rio poderá:

- Acarretar o recuo das linhas de orla em regiões de baixadas de lagoas costeiras e baías;

- Causar problemas de macrodrenagem em águas interiores (alagamentos);

- Aumentar a profundidade média de lagoas costeiras e baías.

Na faixa de areia de cerca de 3,5 km de extensão nas praias de Ipanema e Leblon, zona sul do Rio, seria necessário aumentar a quantidade de areia em mais 1 milhão de metros cúbicos, para dissipar a energia da ressaca. Essa é a estimativa de perda de areia das últimas décadas, com as sucessivas dragagens do canal do Jardim de Alah, que divide as duas praias.

A Baixada Fluminense, área mais populosa, pobre e potencialmente mais vulnerável da cidade, deverá ser mais afetada que a orla do que a zona costeira. Atualmente, quando a maré sobe, a água salgada invade até 15 quilômetros do rio Sarapuí. Em dias de chuva, o quadro piora, já que o volume de água é maior

Com a elevação do nível do mar, consequentemente a situação da Baixada deverá se agravar, já que as enchentes poderão ser mais freqüentes e atingir mais casas.

— Jorge Cordeiro