Rio de Janeiro, Brasil —
Ativistas se acorrentaram às grades das portas do prédio e cimentaram uma placa de metal na calçada, lembrando as vítimas do acidente do césio-137, ocorrido há 20 anos em Goiânia. Manifestação critica também a retomada do programa nuclear brasileiro e a possível construção de Angra 3.
Cerca de 20 ativistas bloquearam na manhã desta quinta-feira as entradas da sede da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), no Rio de Janeiro, se acorrentando às grades das portas do prédio. O protesto do Greenpeace contra os 20 anos de descaso em relação às vítimas do acidente do césio-137, ocorrido em Goiânia, também critica a retomada do programa nuclear brasileiro e a possível construção da usina Angra 3.
O protesto exige o fim do programa nuclear brasileiro e a indenização para as famílias vítimas do Césio-137.
Na calçada em frente ao prédio foi cimentada uma placa de metal representando um memorial em homenagem aos 60 mortos e às 6 mil pessoas contaminadas no maior acidente radioativo em área urbana do mundo.
A ação começou pouco antes das 10 horas da manhã. Os ativistas chegaram rapidamente à rua da sede da CNEN, em Botafogo (zona sul do Rio de Janeiro) e bloquearam as três entradas do prédio, usando correntes, algemas e canos. Não houve confronto. Em seguida, o memorial de metal foi cimentado à calçada. Uma faixa da rua General Severiano foi bloqueada com cones.
Confira abaixo o vídeo da ação:
Uma carta assinada por Marcelo Furtado, diretor de campanhas do Greenpeace, e Rebeca Lerer, coordenadora da campanha de Energia, foi enviada ao presidente da CNEN, Odair Dias Gonçalves, com cópia para os ministros Marina Silva (Meio Ambiente) e Sérgio Rezende (Ciência e Tecnologia); o secretário estadual de Meio Ambiente do Rio de Janeiro, Carlos Minc; e presidente do Ibama, Bazileu Alves Margarido Neto, explicando os motivos do protesto desta quinta-feira em frente à sede da CNEN e reafirmando a posição do Greenpeace contra a retomada do programa nuclear brasileiro. O arquivo PDF da carta pode ser acessado no link ao final deste texto.
Manifestações foram realizadas ao longo da semana em Salvador e São Paulo, com ativistas vestidos de preto deitando no chão numa simulação de morte coletiva, em lembrança da tragédia ocorrida em Goiânia em 1987. Leia aqui sobre os outros atos. Confira também a galeria de fotos dos eventos realizados em Salvador, São Paulo e Rio de Janeiro:
“Com a tragédia do césio -137, o Brasil sentiu na pele os efeitos devastadores de um acidente nuclear. Passados 20 anos, pouca coisa mudou: o Estado não reconhece nem ampara todas as vítimas, não tem capacidade estrutural de lidar com as instalações nucleares já existentes e não resolveu definitivamente a questão do lixo radioativo”, afirma Rebeca Lerer, da campanha anti-nuclear do Greenpeace. “Ainda assim, o governo do presidente Lula quer investir bilhões de reais de dinheiro público na construção da usina nuclear Angra 3 e no ciclo de enriquecimento de urânio, o que deve agravar os problemas de segurança já existentes. É simplesmente inaceitável. A sociedade brasileira deve se mobilizar para dar uma resposta à altura: não queremos a ameaça nuclear”.
Ocorrido em setembro de 1987, até hoje o caso do césio-137 é considerado o pior acidente radiológico em área urbana do mundo. De acordo com a Associação das Vítimas do Césio-137, 60 pessoas morreram e mais de 6 mil foram expostas à radiação. Tudo começou quando dois catadores encontraram uma peça de metal no prédio abandonado do Instituto Goiano de Radioterapia, na capital do estado de Goiás. Vendida a um ferro-velho, a peça continha uma cápsula de césio- 137, um elemento altamente radioativo. A cápsula foi rompida a céu aberto e acabou contaminando os moradores do local.
Também nesta quinta-feira, em Goiânia (GO), o Greenpeace está participando do ato promovido pela Associação das Vítimas do Césio 137 na Câmara Municipal de Vereadores, que incluiu uma série de debates sobre a atual situação dos radioacidentados e problemas de segurança nuclear no país. Está programada para o final do dia de hoje uma marcha com cerca de 250 pessoas segurando velas acesas até a Rua 57, local onde moravam os catadores que encontraram a cápsula de césio -137.
Para saber um pouco mais sobre a história do acidente e participar da
cyberação contra a retomada do programa nuclear brasileiro (e a
conseqüente construção da usina de Angra 3), cliqueaqui.
ATUALIZAÇÃO 10h20
A polícia chegou ao local da ação com apenas um veículo. Um policial retirou os cones da rua e outro conversa neste momento com um negociador do Greenpeace, pedindo a saída dos ativistas.
Uma mensagem SMS (torpedo) foi enviada por telefone celular para os colaboradores do Rio de Janeiro, convidando-os a ir ao local da ação para prestar homenagem às vítimas do césio-137.
ATUALIZAÇÃO 10h45
Policiais tentam retirar o bloqueio às portas de entrada do prédio da CNEN. Cortaram um cadeado colocado em um dos portões e cortaram uma das correntes que prende o memorial de metal a outro portão. A placa ainda está cimentada ao chão.
ATUALIZAÇÃO 10h55
Os dois ativistas que estavam acorrentados à placa do memorial foram retirados e receberam voz de prisão - mas não foram levados pelos policiais. Outro ativista que estava acorrentado a um dos portões foi também retirado. Policial ameaçou usar gás de pimenta mas desistiu.
ATUALIZAÇÃO 11h10
O memorial às vítimas do césio-137 foi derrubado pelos policiais. Todas as correntes que prendiam os ativistas aos portões também foram cortadas. Alguns ativistas receberam voz de prisão, mas não foram levados pelos policiais. O diretor de campanhas do Greenpeace, Marcelo Furtado, conversou no local com Isaac Abadia, diretor de pesquisas e desenvolvimento da CNEN.
ATUALIZAÇÃO 11h40
Policiais jogaram gás de pimenta no rosto de quatro ativistas que se recusaram a levantar da frente de um dos portões. Eles foram arrastados para longe do portão e estão deitados no chão. Seus rostos foram lavados com água com a ajuda de outros ativistas. Os quatro receberam voz de prisão.
ATUALIZAÇÃO 11h56
Colaboradores do Greenpeace, alertados sobre a ação por torpedos
enviados pelo celular, começam a chegar ao local para prestar
solidariedade. Simone Conforto, de 40 anos, é um deles. "Acho muito
importante poder participar de um ato como esse. Temos que resistir o
quanto for possível a desmandos como a possível construção de Angra 3", disse ela.
ATUALIZAÇÃO 15h45
Depois de muito empurra-empurra, gás de pimenta no rosto de ativistas e ameaças de prisão, o clima está mais calmo em frente à sede da CNEN. Os ativistas continuam sentados na calçada e os policiais se afastaram - alguns saíram para almoçar. O memorial que havia sido derrubado acabou de ser reerguido, mas não em frente ao portão, onde estava inicialmente.
ATUALIZAÇÃO 18h00
Após mais de oito horas de protesto, os ativistas deixaram a sede da CNEN, no Rio. A decisão foi tomada para garantir a segurança física dos ativistas. "A CNEN não ofereceu resposta alguma às demandas da sociedade civil e mandou a PM carioca para lidar com uma situação que é de sua responsabilidade. Nosso confronto é com o governo federal e seu programa nuclear, não com os soldados da PM", afirmou Marcelo Furtado, diretor de campanhas do Greenpeace Brasil que esteve no local.O fim do protesto coincidiu com o encerramento das atividades promovidas pela Associação das Vítimas do Césio-137, em Goiânia, no dia em que o acidente completa 20 anos.