Greenblog

Notas sobre o meio ambiente em tempo real.

  • Brasileiros querem gerar a própria energia

    Postado por rgerhard - 4 - jan - 2017 às 14:30 2 comentários

    Pesquisa Datafolha mostra que, a despeito da resistência das distribuidoras elétricas, estamos mais conscientes dos benefícios da autogeração de energia; próximo passo é facilitar o acesso

     

    Instalação de placas solares em escola de Uberlândia Foto: Otávio Almeida/Greenpeace

     

    Num país que fechou o segundo ano em recessão e iniciou 2017 com 12 milhões de desempregados, todo mundo quer e precisa economizar. Pode ser no supermercado, no transporte e, porque não, na conta de luz.

    A energia elétrica teve papel protagonista em várias manchetes em 2015: praticamente todo mês um aumento novo era anunciado, totalizando mais de 50% na média nacional e 80% em algumas regiões. Ela perdeu um pouco o brilho em 2016, e parece cedo para dizer o que será deste ano, apesar de já estarmos em janeiro.

    É por isso que, quando recebemos o resultado da pesquisa sobre micro e minigeração de energia encomendada ao Datafolha, não nos surpreendeu o dado de que para 48% da população economizar na conta de luz é a principal motivação para gerar sua própria energia, por meio de placas solares, por exemplo.

    O segundo lugar, no entanto, foi sim surpreendente: 17% das pessoas se veem mais motivadas pela possibilidade de se tornarem independentes das distribuidoras de energia. No resultado regional, esse número sobe para 25% no Norte e Centro-Oeste.

    Verdade seja dita, a independência da distribuidora de energia é, na maioria das vezes, simbólica, mas ainda assim poderosa. O consumidor pode escolher acoplar baterias ao seu sistema - que podem, de forma prática, torná-lo completamente independente da distribuidora de energia -, ou não, caso em que precisará utilizar a própria rede elétrica como bateria, consumindo dela à noite, por exemplo.

    A curiosidade fica em saber se há um efeito de ação-reação nessa resposta ou não. Será que esses 17% sabem que algumas dessas distribuidoras estão, hoje, entre as mais resistentes à autogeração de energia? Essa oposição vem das mais diversas formas: ao querer impor aos clientes uma nova forma de tarifa pela qual é cobrado, separadamente, tanto a eletricidade consumida como a utilização da rede de distribuição; no recorrente descumprimento dos prazos e na exigência muitas vezes abusiva de documentações para que haja a conexão das placas solares ou das torres eólicas à rede elétrica.

    Se a oposição é forte, maior é o potencial de crescimento da micro e minigeração. Hoje são mais de 6.000 sistemas conectados à rede elétrica, um crescimento de mais de 300% se comparado ao mesmo período do ano passado. E a Agência Nacional de Energia Elétrica já deu a letra: até 2024 o Brasil pode ter mais de 1,2 milhão de sistemas. Com 80% da população já sabendo da possibilidade de gerar sua própria energia, só falta mesmo facilitar seu acesso, afinal 72% disseram que fariam a aquisição do sistema de autogeração se houvessem linhas de crédito com juros baixos e 50% estaria disposta a usar seu FGTS.

    Em qualquer das hipóteses, contudo, gerar sua própria energia é um ato de independência e empoderamento. Representa fortalecer os pequenos e médios negócios e devolver ao cidadão o poder de escolher de onde ele quer que sua eletricidade venha, deixando claro que não é de grandes empreendimentos que muitas vezes ferem direitos humanos e princípios éticos que tanto precisamos ver fortalecidos. Leia mais >

    Voluntários do Greenpeace Brasil promovem a energia solar em São Paulo Foto: Marina Yamaoka/Greenpeace

     
  • Conheça nossas vitórias em 2016

    Postado por fesouza - 21 - dez - 2016 às 16:20

     Em 2016 o Greenpeace lutou por diversas causas. Nossas conquistas só são possíveis graças a milhões de pessoas, como você, que fazem a diferença para mudarmos o nosso mundo para melhor.Conheça algumas das nossas vitórias abaixo.

    Começamos o ano com sucesso na campanha Carne ao Molho Madeira, em que três grandes redes de supermercado do Brasil se comprometeram a não comprar carne contaminada com o desmatamento da Amazônia.

    Conseguimos cancelar o projeto da hidrelétrica de São Luiz de Tapajós, no coração da Amazônia, que ameaça a biodiversidade e o modo de vida dos povos tradicionais que vivem na região. Lançamos ainda o relatório [Revolução Energética], que mostra que é possível o Brasil ter 100% de energia renovável até 2050, aproveitando o sol e o vento na geração de energia limpa. Por isso, continuamos incentivando a adoção de energia fotovoltaica por todo o País.

    Outro sucesso deste ano foi a criação da campanha de Agricultura e Alimentação, para questionar o modelo agrícola praticado no Brasil: as sementes transgênicas, os agrotóxicos, a expansão da agropecuária sobre a Amazônia e os impactos climáticos da nossa produção. Com isso, alcançamos a aprovação da Lei 6670/2016, que visa diminuir a quantidade de agrotóxicos nos nossos alimentos.

    Foi em 2016 também que dissemos NÃO ao uso do carvão e conseguimos o veto ao artigo 20 da Medida Provisória 735, que ofereceria US$5 bilhões em novos subsídios à geração de energia com carvão mineral.

    Para relembrar um ano do maior desastre ambiental do país, em que muito pouco foi feito para reparar os danos da lama de rejeitos da Samarco em toda a bacia do Rio Doce, escrevemos "Justiça" em letras de oito metros de altura nos destroços do povoado de Bento Rodrigues. Também buscamos proteger 51 espécies de baleias e golfinhos da caça comercial, ao defender a criação de Santuário das Baleias do Atlântico Sul, que contou com uma petição de quase um milhão de assinaturas de vários países. A iniciativa não foi aceita, mas continuaremos insistindo.

    Alcançamos mais de 5 milhões de pessoas em nossas redes sociais, e conseguimos formar mais dois grupos de voluntários, um no Maranhão e outro no Rio Grande do Sul.

    Neste ano bastante intenso, jamais esqueceremos do quão importante foi a sua ajuda para nós. Por isso queremos agradecer a todos que estiveram ao nosso lado fazendo tudo isso acontecer. Seja um doador do Greenpeace e colabore para um 2017 cheio de novas conquistas! Leia mais >

    Junte-se a nós

  • Economia que faz o bem

    Postado por rgerhard - 14 - dez - 2016 às 16:20

    Duas entidades beneficentes receberam placas solares e, com o dinheiro economizado na conta de luz, poderão ajudar mais quem precisa de cuidados

    Foto: Daniel Kfouri/Greenpeace

     

    Na mão marcada pelo tempo de uma vida, passado, presente e futuro se encontram. Na foto acima, um dos velhinhos da Casa Santa Gemma, que abriga moradores de rua em Uberlândia (MG), segura pela primeira vez uma célula fotovoltaica. A instituição foi uma das que recebeu sete placas solares com o apoio do Greenpeace Brasil. A outra foi o Abrigo Paulo de Tarso, em Nazaré, no interior da Bahia, onde foram instaladas mais 20 placas.

    Este é o resultado inicial da campanha de financiamento coletivo que lançamos em março, “Traga o Sol a quem precisa”, para que as duas sedes de acolhimento pudessem se beneficiar da energia elétrica solar. “Com a participação de 608 pessoas, foi possível arrecadar cerca de R$ 40 mil, que ajudaram o projeto a se tornar realidade”, pontua Bárbara Rubim, da Campanha de Clima e Energia do Greenpeace.

    A instalação das placas foi feita no final de outubro, na Casa Santa Gemma e, em meados de novembro, no Abrigo Paulo de Tarso, por uma empresa especializada contratada pelo Greenpeace.

    A projeção é de que a redução no consumo de energia elétrica da concessionária local seja de 70% para a casa de atendimento aos moradores de rua mineira enquanto o abrigo para idosos baiano deverá cortar pela metade a sua conta de luz, graças às placas solares.

    “Com a economia obtida na conta de luz, as duas entidades poderão tanto cobrir parte de suas despesas fixas, como medicamentos, como investir na ampliação dos seus sistemas fotovoltaicos no futuro, alcançando, assim, autonomia total na geração de energia elétrica. Nosso objetivo é continuar dando-lhes apoio neste processo até a sua conclusão”, conta Bárbara.

    Menos risco no futuro

    Mais que economizar recursos, ao instalar as placas solares as entidades beneficentes dão sua contribuição para amenizar os problemas socioambientais que poderão vir com o aquecimento global e suas consequências, como mostramos nesse estudo. Aliás, os mais vulneráveis também são os mais afetados.

    Como a mudança do clima tem afetado bastante o regime de chuvas, o Brasil deve se preocupar seriamente em diversificar suas fontes de geração de energia elétrica para não ficar dependente apenas da água, pois os reservatórios têm registrados níveis baixos. E conforme as hidrelétricas reduzem sua produção por falta d’água, o Sistema Nacional Integrado (SNI) aciona as termelétricas movidas a gás natural ou óleo diesel, que emitem mais dióxido de carbono, agravando ainda mais o problema do clima.

    Nesse contexto, o terceiro setor e a sociedade civil devem fazer a energia solar chegar de vez em todos os locais: nas casas das pessoas, nas escolas, nos prédios públicos, nas empresas, e não só por meio do financiamento coletivo. “É um trabalho importante a ser feito por todos: precisamos que o governo federal crie incentivos para se investir mais e mais em energias renováveis e limpas e termos um mercado que caminhe com suas próprias pernas”, diz Bárbara. Os velhinhos, e todos nós, apoiamos e agradecemos.

    Greenpeace instala placas fotovoltaicas na entidade beneficente Casa Santa Gemma, em Uberlândia (MG). O sistema de placas contribuirá para a economia na conta de energia elétrica, possibilitando que os voluntários da entidade revertam mais verba para assistência dos moradores. Foto: Daniel Kfouri/Greenpeace Leia mais >

     

  • Mais de 20% de todos os agrotóxicos usados no Brasil são ilegais

    Postado por Alan Azevedo - 25 - nov - 2016 às 13:43

    É isso mesmo. O dado alarmante foi revelado por Fernando Figueiredo, presidente-executivo da Associação Brasileira da Indústria Química (ABIQUIM) e convidado a compor a mesa de debate de audiência pública da Comissão de Reforma Agrária do Senado desta quinta-feira (24).

    O tema da audiência era contrabando e falsificação de agrotóxicos e seus impactos na economia. Possíveis embargos internacionais às exportações brasileiras e perdas de arrecadação tributárias avaliadas em um milhão de dólares no último ano preocupam. Mas nada se compara ao risco que a sociedade corre ao estar sujeita a esses agrotóxicos ilegais.

    Questionada se existe uma análise capaz de dizer os riscos à saúde causados por essas substâncias piratas, Sílvia Fagnani, diretora-executiva do Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal (SINDIVEG), respondeu: “Não é possível afirmar os riscos ou o que tem dentro desses produtos contrabandeados”. E afirmou que se fossem feitos por uma empresa, ela seria a terceira ou quarta maior do mercado nacional.

    Resumindo: além de representar um grande risco econômico, trata-se de um grave problema de saúde pública. Brasileiros e brasileiras estão consumindo alimentos com substâncias químicas que nem especialistas no tema sabem o que é ou o que pode ser.

    A questão do risco alimentar vem forte dentro dessa discussão. Durante debate nesta quarta-feira (23) da Comissão Especial do Projeto de Lei 6299/2002, que visa enfraquecer a legislação de agrotóxicos com o objetivo de facilitar seu uso e liberação, Eloísa Dutra Caldas, coordenadora do Laboratório de Toxicologia da Universidade de Brasília, lembrou que o Brasil não tem um órgão público voltado à avaliação de riscos de substâncias químicas legais usadas nas lavouras. “Meu sonho é que o Brasil tenha uma agência avaliadora de riscos”, disse ela.

    Para os agrotóxicos regulamentados existe o Limite Máximo de Resíduos (LMR), que estipula por lei a quantidade permitida de resíduo de um pesticida específico no alimento. No entanto, não é um indicador de saúde, e sim puramente agronômico, não levando em conta o uso cruzado de diferentes substâncias. Por sua vez, o índice de Ingestão Diária Máxima (IDM), além de obter seus resultados por meio de testes em ratos e não em seres humanos, não considera o consumo cumulativo de pesticidas ao longo da vida de uma pessoa.

    Se o uso legal e licenciado de agrotóxicos já apresenta brechas em suas análises, imagine então produtos contrabandeados ou até falsificados, que são produzidos pelos próprios traficantes em fazendas ilegais. E pensar que estes compõem mais de 20% de todos os insumos químicos aplicados nas lavouras brasileiras é assustador.

    Segundo pesquisa IBOPE encomendada pelo Greenpeace, 81% da população brasileira considera que a quantidade de agrotóxicos aplicados nas lavouras é “alta” ou “muito alta”. As pessoas não querem mais comer comida com pesticidas – ainda mais sabendo que parte significativa deles é ilegal e sem qualquer controle. Ao invés de tentar flexibilizar, é preciso endurecer a legislação de agrotóxicos e caminhar para a redução gradual de seu uso até se ver livre da aplicação de químicos nos campos. Por isso, o Greenpeace e outras organizações da sociedade civil apresentaram no início de novembro ao Congresso o Programa Nacional de Redução do Uso de Agrotóxicos (PNARA) em forma de sugestão de Projeto de Lei.

    Agricultura da conciliação?

    Os últimos dias no Congresso Nacional mostram que o debate sobre o modelo de produção de alimentos do país está se tornando questão cada vez mais relevante para a sociedade civil, que quer consumir comida sem agrotóxicos. Com o espaço que sistemas alternativos de produção vêm tomando e as críticas crescentes da sociedade sobre o uso de pesticidas, o agronegócio se coloca na defensiva e passa a adotar um discurso mais brando no lugar da radicalização de costume.

    Durante audiência pública da Comissão de Meio Ambiente da Câmara dos Deputados nesta terça-feira (22), Rodrigo Justus, da Confederação Nacional da Agricultura (CNA), em tom conciliador, sugeriu que o Fundo Amazônia, além de servir para “caçar desmatador”, também deveria investir em pesquisas de diferentes modelos de produção sem uso de agrotóxicos, como o sistema agroflorestal ou agroecológico. “Estamos abertos a novos modelos”, afirmou.

    Audiência pública da Comissão de Meio Ambiente da Câmara, dia 22 de novembro (© Alan Azevedo / Greenpeace)

    Fernando Rebelo, do IBAMA, defendeu que a intenção de quem incentiva a produção ecológica não é de acabar com o modelo convencional. “Não queremos quebrar o agronegócio. Se um executivo da Coca-Cola, há 30 anos, dissesse que a empresa precisaria produzir suco, ele ia ser mandado embora. Hoje, o suco e a água mineral vão salvar a Coca-Cola”.

    A analogia cai como uma luva sobre o agronegócio. Em alguns anos, quando a vontade da maioria for contra consumir produtos químicos em seus alimentos, o setor que movimenta cerca de 20% do Produto Interno Bruto (PIB) pode de fato quebrar caso não se adapte à demanda nacional e internacional. Vale lembrar que o Brasil utiliza muitos agrotóxicos proibidos na União Europeia e em diferentes países como China, Estados Unidos e Índia, o que limitará cada vez mais as exportações de grãos e também de carne, uma vez que a alimentação animal se dá por meio da soja e do milho quimicamente tratados.

    “Ver o setor do agronegócio tomando a defensiva frente a uma disputa que está perdendo é um bom sinal para nós. Se quiserem conciliar interesses por uma agricultura responsável, sustentável e que não ofereça riscos à saúde humana, muito que bem. Mas no fundo as ideias são inconciliáveis. O que queremos mesmo é o fim do uso dos agrotóxicos”, defende Rafael Cruz, da Campanha de Agricultura e Alimentação do Greenpeace Brasil. Leia mais >

  • Durante a COP22, pessoas foram às ruas apoiar fontes de energia limpas, como a solar e a eólica. A marcha foi organizada pelo MCoalition for Climate Justice. (Foto: ©Jeremy Sutton-Hibbert/ Greenpeace)

    A 22a Conferência do Clima da ONU, que se deu em Marrakesh, acabou nesta sexta-feira (18/11) cumprindo a importante missão de manter vivo o espírito do Acordo de Paris. E entregou o básico do que era esperado em termos de decisões formais. Passou o recado de que governos e a sociedade civil de todo o mundo seguirão adiante enfrentando as mudanças climáticas, e deu alguns passos importantes apesar de não superar expectativas.

    A grande pergunta que assombrou a conferência foi sobre o futuro deste processo, e da ação climática como um todo, com a eleição de Donald Trump para presidente dos Estados Unidos. Trump, que nega a ciência do clima e já ameaçou abandonar o Acordo de Paris, é evidentemente uma pedra no caminho.

    Pouco após o abalo inicial da notícia, porém, muitos governos – apoiados por fortes chamados de ONGs, movimentos e até empresas mais comprometidas com o clima – passaram a destacar que seguirão adiante. Um número expressivo deles inclusive aumentou o nível de seus compromissos.

    Vale citar os 48 países do Climate Vulnerable Forum que se comprometeram com a meta de 100% de energias renováveis, e a Marrakech Action Proclamation, que não traz novidades mas reforça o compromisso político. A situação dos EUA sem dúvidas é bem desafiadora, mas este não é um tema em que este país dá as cartas sozinho. Outros pesos-pesados (como a China) seguirão ativos e anunciaram que não aceitarão retrocessos.

    No que diz respeito às negociações em si, esta COP tinha como objetivo começar a construção de medidas para a implementação do Acordo de Paris, detalhando como acontecerá na prática aquilo a que o acordo promete (lembrando que o primeiro ciclo de compromissos do acordo começa a valer em 2020). É mais ou menos como o processo de regulamentação de uma lei depois que ela é aprovada. 

    Um dos pontos-chave era a definição da data em que todas as medidas devem estar definidas. Felizmente foi batido o martelo de 2018, apesar de alguns países inicialmente terem preferido um prazo mais longo ou flexível. Outro ponto importante era o de construir condições para que uma revisão do progresso marcada também para 2018 seja usada para estimular governos a elevar a ambição de seus compromissos nacionais. O chamado para isso se fortaleceu bastante, mas o tema segue em aberto nas negociações em si. Um terceiro tema de destaque é o de apoio financeiro a países em desenvolvimento, e esse infelizmente segue avançando lentamente, com promessas significativas mas praticamente nenhum avanço concreto com relação a como torná-las realidade.

    Sobre o papel do Brasil, houve atitudes louváveis e outras detestáveis. Por um lado, a COP e o que fizemos aqui foi importante para garantir o veto a novos subsídios a carvão que nosso Congresso havia aprovado em outubro. Esse veto ter acontecido durante a COP contribuiu para fortalecer a mensagem de que o mundo segue adiante no combate às mudanças climáticas. 

    Também vimos a volta do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas, agora coordenado por Alfredo Sirkis com o apoio de Natalie Unterstell, que promoveram suas duas primeiras reuniões com a sociedade civil brasileira durante a conferência. E vimos a Moratória da Soja brasileira ser elogiada como grande exemplo de iniciativa de proteção às florestas em diversos eventos paralelos.

    Por outro lado, o Ministro da Agricultura Blairo Maggi falou barbaridades em vários momentos – incluindo uma ironia com assassinatos de ambientalistas e insistentes indicações de que não pretende agir mais com relação ao clima. O governo não divulgou os novos dados de desmatamento do PRODES, que geralmente saem antes da COP. E eles devem apontar para um aumento do problema.

    Houve também intensos debates entre organizações e movimentos brasileiros em torno da falsa solução dos offsets, por meio da qual tenta-se compensar (e não reduzir) emissões via proteção de florestas – um tema cheio de armadilhas que voltou à tona em tempos recentes. Nosso time de negociadores manteve a postura balanceada pela qual é conhecido, defendendo alguns pontos importantes mesmo sem se destacar tanto quanto ano passado, na COP de Paris – o que de qualquer forma não era muito favorecido pelo contexto e pauta de Marrakesh.

    Seguimos adiante. O desafio certamente aumenta com Trump na presidência dos EUA, mas a esperança felizmente segue firme. No Brasil e no mundo, mais do que nunca precisamos elevar a ambição com compromissos claros rumo a 100% de energias renováveis e desmatamento zero em nossas florestas.

    *Pedro Telles é da Campanha de Clima e Energia do Greenpeace Brasil. Leia mais >

  • Dossiê produzido pelo Greenpeace mostra que é possível zerar as emissões de carbono e poluentes da frota de ônibus de São Paulo sem impactar a tarifa ao usuário e com benefícios para o clima, a saúde e a economia da cidade

    Na cidade de São Paulo, quase metade da fuligem que polui o ar é gerada pelos ônibus do transporte público Foto: Rafael Neddermeyer/ Públicas

     

    Usar combustíveis limpos e renováveis na frota de ônibus da cidade de São Paulo é obrigatório desde 2009 por meio da Política Municipal de Clima. Essa medida, no entanto, sempre foi negligenciada sob o argumento da inviabilidade técnica e financeira. O Greenpeace elaborou um dossiê que demonstra o oposto: além de viável – e mais eficiente que o veículo movidos a biocombustíveis –, a adoção dos ônibus elétricos em toda a frota é indutora de benefícios para a saúde, para a economia e para o clima. E sem pesar no bolso do usuário.

    A publicação Dossiê Ônibus Limpo: Benefícios de uma transição para combustíveis renováveis na frota de São Paulo foi produzida em agosto de 2016 a partir de levantamento de dados operacionais do sistema de transporte da capital, os custos de manutenção e das fontes disponíveis, de testes realizados por fabricantes de veículos em outras cidades, e de pesquisas em saúde ambiental.

    “Queremos elevar a discussão técnica e cobrar que a nova licitação de ônibus da Prefeitura de São Paulo incorpore a adoção gradativa de combustíveis limpos, como exige a Lei Municipal do Clima, que determina a transição completa até 2018”, diz Bárbara Rubim, da campanha de Clima e Energia do Greenpeace.

    A publicação também é uma forma trazer mais informações independentes para que a sociedade cobre por mudanças no setor. Afinal, quem não gostaria de um sistema de transporte público mais silencioso, moderno, sem aquela fumaça preta tóxica que mata cerca de 4.700 pessoas por ano na região metropolitana e contribui com o aquecimento global? Cerca de 47% do material particulado (fuligem) e 13% das emissões de CO2 que poluem o ar da capital paulistana são gerados pelos ônibus a diesel. Com emissão zero de os ônibus elétricos podem tornar essa realidade possível.

    Alguns dados do dossiê:

    - No caso dos ônibus elétricos puros, testes têm demonstrado que o custo de manutenção pode ser 25% menor e a economia com combustível pode chegar a 64,7% em comparação com os convencionais a diesel;

    - O leasing de baterias é uma alternativa para reduzir drasticamente o custo dos ônibus elétricos, aproximando-o do valor do veículo a diesel;

    - Por meio da tecnologia V2G (Vehicle to Grid), os ônibus não são apenas consumidores de energia, mas parte do sistema elétrico. Eles podem incorporar as fontes eólica e solar, servir de backup e fornecer energia à rede, tornando todo o sistema mais eficiente;

    - A redução na queima do diesel convencional poupa vidas e recursos: em dez anos, uma redução de 20% poderia evitar mais de 7 mil mortes e os cofres públicos economizariam R$ 53 milhões em gastos de saúde decorrentes de problemas cardiorrespiratórios.

    Faça aqui o download  

    Elétricos ou biocombustíveis?

    Na Conferência do Clima da ONU, no Marrocos, a participação do setor de transporte no combate às mudanças do clima foi um dos temas debatidos. No Brasil, ele é responsável por cerca de 46% das emissões relacionadas à queima de combustíves fósseis, mas é o setor que tem recebido menos atenção em relação aos usos de energia, na avaliação do ministro do Meio Ambiente, José Sarney Filho.

    Nesta quarta-feira (16), o governo brasileiro lançou, em parceria com outros 19 países, uma iniciativa de promoção dos biocombustíveis, sobretudo etanol de cana-de-açúcar e o biodiesel de soja, como a solução para reduzir as emissões do setor. "Precisamos urgentemente encontrar soluções de curto e médio prazo para emissões de transportes e implantar todas as medidas sustentáveis que pudermos dispor", afirmou o ministro.

    Embora os biocombustíveis sejam uma tecnologia mais limpa comparada ao diesel, para um corte mais agressivo de emissões no setor de transporte, especialmente de passageiros nos centros urbanos, o mundo ruma rapidamente em direção aos veículos elétricos, e uma metrópole como São Paulo deve estar na vanguarda desse movimento”, afirma Bárbara Rubim, da campanha de Clima e Energia do Greenpeace.

    Em função disso, para a frota de ônibus coletivo nas cidades, os biocombustíveis podem ser encarados como uma solução paliativa, pois amenizam o problema agora, mas precisarão ser substituídos depois, quando metas mais agressivas de redução de emissões serão exigidas. Assim, o custo acabará sendo maior. "Além dos veículos, temos de considerar toda a infraestrutura necessária para atendê-los. Nosso dossiê mostra que os investimentos de aquisição dos ônibus elétricos se pagam em médio prazo, e essa infraestrutura elétrica, mais duradoura, irá promover uma modernização que beneficiará a cidade como um todo”, diz Bárbara.

    A meta brasileira é reduzir 37% das emissões de CO2 até 2025 e 43% até 2030. Para isso, alguns meios são ampliar a bioenergia sustentável na matriz energética para aproximadamente 18% do setor e aumentar em 45% a participação de energias renováveis na matriz energética brasileira.

     

    A licitação que definirá os ônibus de São Paulo nos próximos 20 anos precisa contemplar combustíveis limpos e renováveis Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil Leia mais >

     
  • Em declaração, Diretoras Executivas do Greenpeace Internacional, Jennifer Morgan e Bunny McDiarmid, disseram:

    "A prevenção de uma catástrofe climática acaba de ficar mais difícil, mas não impossível. O presidente eleito dos EUA, Donald Trump, pode ser a ameaça mais infame e poderosa no que diz respeito a assuntos climáticos, mas não desistiremos. Trabalharemos ainda mais e convidaremos cada vez mais pessoas para se juntarem a este poderoso movimento. O risco é muito alto para as gerações atuais e futuras e o tempo é curto.

    Não permitiremos que a administração de Trump distraia o mundo ou roube-o do crescente impulso em direção à revolução por energia limpa e todos os benefícios que isso traz para o clima e para a saúde pública, emprego e segurança global.

    A transformação da energia renovável não pode ser freada". China, Índia e outros países estão competindo para serem as superpotências globais de energia limpa, e os EUA, como Donald Trump aprenderá, não quer ser deixado para trás.

    Pessoas em todo o mundo intensificarão seus trabalhos com os muitos campeões do clima nos EUA, como senadores, membros do congresso, governadores, prefeitos, CEOs, cidadãos e membros do Partido Republicano. O Greenpeace continuará a trabalhar com os milhões de pessoas em todo o mundo que acreditam que um planeta mais verde, seguro, pacífico e justo é possível." Leia mais >

  • O que rolou na reunião da Comissão Internacional da Baleia

    Postado por rgerhard - 8 - nov - 2016 às 15:45

    Apesar de mais uma rejeição à criação do Santuário de Baleias no Atlântico Sul, a reunião da Comissão Internacional da Baleia este ano trouxe alguns (fracos) avanços para a proteção dos cetáceos

    Foto: Todd Warshaw/Greenpeace

     

    Mais uma vez, a criação de um Santuário de Baleias no Atlântico Sul foi negada. A reunião da CIB (Comissão Internacional Baleeira) realizada em outubro, na Eslovênia, rejeitou a proposta por 38 votos a favor, 24 contra e 2 abstenções, ou seja, 60% de aprovação, quando o necessário  era 75%. Mas nem tudo foi perdido. O Greenpeace acompanhou os debates.  Confira a seguir o balanço geral da reunião:

    Caça científica

    Foi aprovada uma resolução que estreita as lacunas usadas por países que ainda fazem a caça ilegal de baleias sob a desculpa de pesquisa científica (notoriamente o governo japonês). Há dois anos,  a “caça científica” praticada pelo Japão foi considerada uma quebra no acordo de proibição da caça comercial de baleias pela Corte de Justiça Internacional da ONU. Esta nova resolução deve significar que as cotas para pesquisa letal, distribuídas a cada país, agora devem ser aprovadas por um comitê da CIB e não podem mais ser manejadas pelos próprios países onde a “pesquisa” seria desenvolvida.

    Ainda não é uma medida que bane a pesquisa letal de baleias, mas é um passo em direção ao fim da justificativa da pesquisa científica. Como falamos anteriormente, a pesquisa sobre baleias é essencial para o entendimento destes animais, mas com a adoção de novas tecnologias a pesquisa letal não é justificável sob nenhuma forma.

    Proteção das vaquitas

    As vaquitas-marinhas (Phocoena sinus), pequenos botos dos mares, dominaram a cena na CIB. Todos os países-membros da Comissão concordaram que ações internacionais urgentes devem ser tomadas para proteger estes pequenos cetáceos. As vaquitas estão em perigo eminente de extinção. Elas são endêmicas do Golfo da Califórnia e menos de 60 indivíduos ainda podem ser encontrados na natureza. O Greenpeace Internacional vem lutando pelas vaquitas-marinhas há algum tempo e agora podemos finalmente estar em um momento de virada pela conservação destes animais!

    Baleias mantém os oceanos saudáveis

    Neste ano, houve muita discussão sobre o papel ecológico das baleias no equilíbrio dos oceanos.  Populações saudáveis desses animais são essenciais para a dispersão de nutrientes, suporte de ecossistemas inteiros e ainda combate ao aquecimento global.

    Durante a reunião, a comissão científica da CIB reconheceu formalmente estes benefícios ecológicos para a vida no planeta. Foi discutido que a caça comercial de baleias teria um grande impacto nos oceanos exatamente por diminuir o número destes animais e assim impedir estes benefícios essenciais para o equilíbrio oceânico. Mais que isso, os cientistas argumentaram que o excremento delas (coco de baleia mesmo) fertiliza o ambiente marinho e possibilita o crescimento de Phytoplancton, plantas marinhas microscópicas responsáveis pela produção de quase 70% do oxigênio que respiramos. ()

    Por fim, o Governo Brasileiro se ofereceu para sediar a próxima reunião da CIB em dois anos, mas ainda não há confirmação do local do evento.

    Ainda não foi desta vez que criamos o Santuário de Baleias do Atlântico Sul, mas esta reunião foi positiva para a conservação dos cetáceos e nos deu motivos para termos esperança que estamos no rumo certo. Até lá, continuaremos nos dedicando a enfrentar outras ameaças à sobrevivência das baleias, como o aquecimento global e a poluição dos mares.  Leia mais >

  • Criolo grava mensagem para lembrar um ano do desastre de Mariana

    Postado por Julia Zanolli - 3 - nov - 2016 às 16:08

    “Morre gente, morre planta, morre bicho”

    5 de novembro de 2015: a barragem da mineradora Samarco, controlada pela Vale e pela BHP Billiton, rompe e cria um dos maiores desastres ambientais da história do Brasil.

    Cerca de 25 mil piscinas olímpicas de lama composta por rejeitos minerais tóxicos cobriram vilas inteiras, tiraram a vida de 19 pessoas, impactaram cerca de outras 2 mil e afogaram o Rio Doce.

    Até o momento, nenhuma das três empresas foi condenada e a Samarco está recorrendo de todas as multas aplicadas.

    Para lembrar um ano da tragédia, o rapper Criolo fez um texto original e, em parceria com o Greenpeace Brasil, gravou um vídeo com as imagens da região logo após o acidente.

     

    Histórico de luta

    Criolo já é aliado na luta por justiça para o Rio Doce. Ele faz parte do coletivo #SouMinasGerais, que, em parceria com o Greenpeace, promoveu shows beneficentes em Belo Horizonte e São Paulo. Com um público total estimado em mais de 13 mil pessoas e uma arrecadação de R$ 450 mil, os dois shows juntos contaram com a participação de diversos artistas como Caetano Veloso, Milton Nascimento, Jota Quest, Emicida, Tulipa Ruiz, Ney Matogrosso, Fafá de Belém, Maria Gadú, Mariana Aydar, Nando Reis, entre outros. Todos participaram voluntariamente dos shows.

    Os recursos obtidos pela iniciativa #SouMinasGerais foram destinados ao projeto coletivo #RiodeGente, com o propósito de garantir a realização de pesquisas independentes para monitorar e investigar as consequências do derrame de rejeitos em toda a extensão da Bacia do Rio Doce. Saiba mais. Leia mais >

  • Desastre em Mariana: uma tragédia ainda em curso

    Postado por rgerhard - 2 - nov - 2016 às 19:30

    Entre lembranças e a indignação de quem ainda sofre os efeitos da destruição pela lama, Seminário Rio de Gente apresentou estudos que revelam a dimensão dos impactos ambientais e sociais na bacia do Rio Doce

    Painel discute impactos sociais sobre os atingidos Fotos: Julia Moraes / Greenpeace

     

    No centenário Hotel Providência, antigo seminário de freiras e internato de moças que recebeu os desabrigados pela lama da mineradora Samarco logo após o rompimento da barragem de Fundão, pesquisadores, ambientalistas, estudantes, lideranças comunitárias e alguns dos atingidos se reuniram para discutir a dimensão dos impactos causados pelo desastre, um ano atrás.

    O Seminário Rio de Gente, realizado nos dias 31/10 e 1/11, apresentou as primeiras avaliações dos estudos independentes que foram financiados com recursos de doações obtidos com shows beneficentes um mês após a tragédia. Pesquisadores de universidades e institutos brasileiros vêm analisando o tamanho dos danos ambientais e sociais nas áreas de água, flora, fauna, saúde e direitos dos atingidos a partir de expedições à região para coletar dados e amostras.   

    Os estudos vieram suprir a carência por parte das comunidades de dados oficiais que ou não existem ou não são divulgados pelo poder público. E o que se pôde constatar são implicações profundas, abrangentes e de longo prazo não só para a natureza, mas para a vida das pessoas. Não bastasse quem perdeu tudo no rompimento da barragem, a lama de rejeitos continua a fazer estragos e a impor sofrimento.

    Contaminação em expansão

    No caso da água, por exemplo, diante da inviabilidade de captá-la no rio, a tendência é que muitos procurem poços artesianos de forma desesperada, sem avaliar sua qualidade. A realidade encontrada por pesquisadores do Instituto de Biofísica da UFRJ foi a de agricultores familiares usando a água dos poços em suas plantações e para consumo humano e dos animais sem saber que estão com níveis de ferro e manganês bem acima do permitido até mesmo para a irrigação.

    Ou seja, a contaminação da lama nos rios também chegou ao subterrâneo. “É uma água de péssima qualidade, com gosto, cheiro e cor. Embora os altos níveis desses metais não ofereça risco de toxidade no consumo das plantas, eles prejudicam o seu crescimento e podem inviabilizar o cultivo. Ouvimos muitos relatos de agricultores que estão passando dificuldades, sem fonte de renda, pois muitas de suas plantações morreram após serem regadas ou não estão se desenvolvendo ou dando frutos”, conta o pesquisador André Pinheiro de Almeida. Para a saúde humana, o risco da ingestão direta da água com excesso de manganês pode causar infertilidade e sintomas próximos ao Parkinson em longo prazo.

    Segundo ele, a recuperação da contaminação por metais não será algo fácil ou rápida. “O metal não vai deixar de ser metal nem vai sair do rio sozinho. Ao contrário, espera-se que com o período de chuvas a lama acumulada nas margens volte a lançar mais poluentes para as águas”, diz Almeida.

    A lama de rejeitos continua a contaminar as águas da bacia do Rio Doce

     

    A acumulação de metais pelos animais também é foco de atenção dos pesquisadores da UFBA (Universidade Federal da Bahia) e UEFS (Universidade Estadual de Feira de Santana), pois, por meio da cadeia alimentar, a contaminação na água pode se espalhar pelo ambiente terrestre e afetar a biodiversidade. Os girinos, por exemplo, são larvas aquáticas de animais terrestres que podem acumular os poluentes em seus organismos e transmiti-los para os predadores. “Como é praticamente impossível impedir que os animais acessem as áreas contaminadas, o nosso trabalho é de observação de como esse processo de bioacumulação se expande. É um estudo de longo prazo”, afirma a doutora em Zoologia Flora Juncá.

    Muito além do bolso

    Do lado social, os efeitos da lama também se revelam devastadores para famílias que ainda lutam para recuperar suas vidas e fazer garantir seus direitos. Tanto pelos problemas de saúde físicos e emocionais causados pela lama quando pela quebra dos modos de vida, lazer e trabalho de quem tinha uma relação de interdependência com o rio.

    “A empresa segue a lógica econômica de reconhecer como impactos apenas os danos estruturais das casas ou de quem perdeu sua atividade de renda, mas quando você chega em campo e aprofunda  a investigação com as pessoas e entra em suas histórias, descobre que há danos intangíveis mais profundos que extrapolam a restrição da Samarco e estão sendo negligenciados”, diz Hauley Alvim, sociólogo, surfista e um dos pesquisadores do estudo sobre impactos sociais com os atingidos na foz do Rio Doce, em Regência (ES).

    Ele cita como exemplo o caso de um rapaz que é pescador, surfista, dono de pousada e pai. “Há uma sobreposição de danos que a empresa não reconhece. São histórias de quem teve rompida sua ligação com o ambiente e com a comunidade”, afirma.

    Lamaçal na justiça

    Ao avaliar o que foi feito no âmbito da justiça neste primeiro ano pós desastre, o promotor de Meio Ambiente do Ministério Público de Minas Gerais, Carlos Eduardo Ferreira Pinto, apontou como a tragédia socioambiental se tornou uma tragédia processual, a partir de disputas de competência na justiça que levam à protelação das medidas, e do “Acordão” firmado com a União e os governos de Minas e Espírito Santo que só serviu para blindar os responsáveis e terceirizar as consequências do desastre.

    “Precisamos rediscutir o acordo, que abriu caminho para a própria Samarco decidir o que fazer. Não são raros os descumprimento de obrigações, e as multas ambientais aplicadas são cosméticas, não trazem nenhum resultado para a comunidade, a empresa sempre recorre”, afirma. Apesar de o Acordo Interfederativo ter sido anulado, as empresas continuam atuando com base no que foi firmado nele.

     

    Promotor de Meio Ambiente do MP-MG fala ao público porque o desastre da Samarco não foi acidente

     

    A Fundação Renova, criada pela Samarco, Vale e BHP por meio do “Acordão” para ser a gestora de todas as ações de compensação e reparação, tem em seu conselho deliberativo apenas membros indicados pelas empresas. Na prática, é a Samarco decidindo o que é mais importante reparar e onde, quanto e quando aplicar os recursos, e não as comunidades estabelecendo suas prioridades. “Até o momento, o que está em andamento é a construção do dique de contenção na região de Bento Rodrigues. O argumento é de segurança, mas o que vemos são fortes indícios de uma grande estrutura de barragens que contemple um sistema maior de rejeitos, como já estava nos planos de expansão da empresa antes do desastre. O MP é totalmente contrário a isso”, denuncia o procurador.

    Cenas vivas de um rio morto

    No segundo dia do Seminário, os participantes se dividiram na parte da manhã em duas visitas de campo a locais onde as pesquisas de flora e saúde foram desenvolvidas. No caminho, foi possível ver como o desastre ainda se faz presente no "encontro das águas", do Ribeirão do Carmo com o rio Gualaxo, na lama que se acumula em suas margens e eliminou a mata ciliar, nas casas destruídas ou soterradas, nas marcas do barro nas árvores revelando o nível da onda marrom que as atingiu.

    "Encontro das águas": a lama do Ribeirão do Carmo continua chegando ao rio Gualaxo um ano após o rompimento da barragem de Fundão

     

    “O que mais me chocou nesse caminho foi ver o gado deitado sobre a lama ao lado do rio, bebendo aquela água suja, comendo o capim plantado pela Samarco para disfarçar o problema. Como o gado, vivem as pessoas, também de forma disfarçada. Para mim falta dignidade, e isso é o mínimo que qualquer um tem na vida”, disse a médica e presidente do Instituto Saúde e Sustentabilidade, Evangelina  Vormittag.

    “Eu não tinha me aproximado tão perto da água suja desde o desastre. Hoje foi um dos dias mais tristes da minha vida. Mas esse sentimento tem de ser exposto na medida em que estimula o trabalho. Temos que aproveitar as oportunidades como a deste encontro para estabelecer as ações futuras”, defendeu Shirley Krenak, uma das lideranças da comunidade indígena Krenak.

    Casa tomada pela lama no distrito de Gesteira

     

    Uma luta apenas começando

    No final do encontro, uma roda de discussão trouxe muitos momentos de lembranças doloridas, sentimentos sufocados e pedidos indignados de justiça, mas também ideias e propostas sobre como dar encaminhamento aos estudos e potencializar a força coletiva da comunidade em ações diretas. Entre as iniciativas, a de se criar núcleos catalizadores nos locais atingidos, criando uma rede de colaboradores do Rio Doce.

    “O desastre é tão grande que quando olhamos as consequências para todos a impressão é de ser impossível recuperar isso. Mas isso acredito que, com a mobilização de todos, de cada um, podemos fazer com que esse mal seja compensado mais rápido, e impedir que outras tragédias como essa aconteçam. Esperamos que esses estudos possam contribuir nessa direção”, diz Fabiana Alves, da campanha de Água do Greenpeace.

     

    Público debate como catalisar ações para promover a recuperação do Rio Doce

     

      Leia mais >

1 - 10 de 2972 resultados.