Greenblog

Notas sobre o meio ambiente em tempo real.

  • A barbárie de Humaitá

    Postado por Luana Lila - 14 - jan - 2014 às 11:19

    Sede da Funai queimada em Humaitá (©Alceu Luís Castilho/Pública)

     

    No dia de Natal, parte da população de Humaitá, a 675 km de Manaus, incendiou barcos, veículos e instalações da Funai na cidade. Revoltados, moradores culpam os índigenas da etnia Tenharim pelo desaparecimento de três homens na rodovia Transamazônica (BR-230). Segundo a versão que corre na cidade, o desaparecimento seria uma espécie de represália dos índios pela morte do cacique Ivan Tenharim, que teria sofrido um acidente de moto na BR-230.

    Os índigenas negam as acusações, mas já foram condenados pela opinião pública. Fatos ainda não apurados passaram a ser tratados como verdade, causando uma verdadeira onda de ódio contra os Tenharim. No juízo da maior parte da população de Humaitá, são eles os responsáveis – mesmo que, até hoje, após buscas da Polícia Federal dentro da Terra Indígena, nenhum dos desaparecidos tenha sido encontrado.

    Ameaçados, os indígenas não podem pisar na cidade. Confinados nas aldeias, eles não têm como comprar alimentos e remédios. Enquanto isso, a hostilidade da maioria dos moradores da cidade ocorre sempre no plural, contra todos os indígenas – e não apenas os que acusam de algum crime. Diante desse grave cenário, a permanência da Força Nacional de Segurança em Humaitá foi ampliada por mais 90 dias e a Polícia Federal continua na região para investigar o caso.

    O barril de pólvora instalado em Humaitá, no entanto, vai muito além dos fatos que desencadearam a revolta. Entre os combustíveis que jogam mais lenha na fogueira estão a disputa pela terra, a extração de madeira ilegal dentro da Terra Indígena e a cobrança de pedágio por parte dos indígenas na Transamazônica – considerada por eles como uma forma de compensação ambiental pelos danos causados pela construção da BR-230, que passa no interior da reserva e trouxe impactos negativos, como doenças e prostituição.

    Reportagem realizada pela Pública, agência de jornalismo investigativo que esteve recentemente em Humaitá, aponta que os conflitos estão ligados aos interesses de pecuaristas e madeireiros, apoiados pelos comerciantes locais. (Leia as reportagens completas aqui). Os índios acusam os madeireiros de roubar toras do interior de suas reservas, ricas em madeira nobre, e sofrem com a falta de governança e com a ausência do Estado na região.

    “À frente de conflitos como esse que vemos em Humaitá estão interesses econômicos de grupos, como madeireiros e grileiros, que querem ter acesso e explorar as terras indígenas, cujas riquezas só existem porque são preservadas pelos índios. Este é apenas mais um exemplo do grave retrocesso socioambiental em curso atualmente no país – talvez o mais organizado e sistemático ataque articulados por poderosíssimos grupos econômicos (do agronegócio, do hidronegócio e das grandes corporações do setor de energia e mineração) contra os direitos constitucionais dos povos indígenas e populações tradicionais e da própria natureza”, afirma Tica Minami, da Campanha Amazônia do Greenpeace.  Leia mais >

  • 'Enxotando' os direitos dos Awá-Guajá

    Postado por Germano Assad - 8 - jan - 2014 às 16:50 2 comentários

    Registro visual em terra indígena dos Awá-Guajá (©Greenpeace/Eliza Capai).

     

    Lamentavelmente,  a virada de ano não trouxe a tão aguardada sensação de justiça ou perspectivas de paz para os povos do campo e da floresta amazônica. Apesar de iniciado o processo de desintrusão da Terra Indígena Awá-Guajá, no Maranhão, vivemos um momento de forte ataque aos direitos territoriais indígenas.

    A retirada de todos os não-índios da área invadida ilegalmente se deve “apenas e tão somente, ao cumprimento do mandado constitucional do Art. 231 da Constituição que reconhece e garante aos índios 'direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens'”, de acordo com nota pública assinada por diversas organizações da sociedade civil e divulgada hoje.

    Veja íntegra da nota pública de apoio à extrusão da TI Awá-Guajá aqui.

    A Terra Indígena em questão foi reconhecida em 1992 e homologada em 2005, e é notadamente uma das mais afetadas pelo roubo de madeira, outros recursos naturais e demais mazelas da região. O direito dos Awá-Guajá às terras que ocupam foi reafirmado por recente decisão da Justiça Federal do Maranhão. Este processo, que já se arrastava por mais de 12 anos, entretanto, tem sido usado como combustível político para inflamar uma situação de tensão entre comunidades tradicionais e posseiros, trabalhadores e pequenos agricultores que se estabeleceram na terra indígena.

    A representante maior da bancada ruralista no país e presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), senadora Kátia Abreu, tem declarado sua discordância com os direitos constitucionais indígenas, alegando que trabalhadores pobres vêm sendo ‘enxotados’ de suas terras e deixados à própria sorte.

    Ela também refutou com veemência declaração de funcionário da Secretaria Geral da Presidência da República que pontuava alguma das inúmeras atividades ilícitas realizadas por parte dos invasores na região. Nenhuma novidade para o Ibama, Polícia Federal e demais órgãos competentes na fiscalização e proteção da área. Só para a presidente da CNA.

    E quando uma figura pública de relevância no cenário nacional e nas questões do campo distorce os fatos de acordo com sua conveniência e reduz uma questão de relevância nacional a uma guerra de interesses particulares, acaba criando um cenário perigoso, insuflando conflitos e transformando desinformados em massa de manobra à serviço de interesses escusos.

    A ação de retirada dos não-índios do território não prevê indenização, já que tratam-se de ocupações irregulares, que aconteceram após anos de invasões continuadas. Ainda assim, e mesmo sendo coordenada por vários ministérios, com prazo estipulado para saída voluntária, cadastro e inclusão de cidadãos que se enquadrem nos critérios do plano nacional de reforma agrária para futuro reassentamento, surpreende como a noção de justiça nestes casos passa a ser relativa.

    “Ninguém que defende abertamente a democracia, o estado de direito e os direitos humanos fundamentais pode se posicionar contra o direito territorial dos povos indígenas, já previsto pela Constituição”, afirma Tica Minami, coordenadora da Campanha Amazônia do Greenpeace Brasil.

    “Em um momento em que as tensões já andam elevadas pelo conflito envolvendo índios Tenharim em Humaitá, no sul do Amazonas , um discurso que incentiva ainda mais violência contra índios não contribui para a discussão que precisa ser travada com a sociedade, nem oferece alternativa; só gera mais caos e desinformação sobre uma questão de relevância fundamental para o futuro do país”, completa.

    Para o Greenpeace, o processo de desintrusão é um exemplo de que, “se a sociedade não estiver vigilante e atenta, a necessidade dos grandes financiadores de campanhas políticas, as oportunidades de negócio e os interesses privados de grupos econômicos influentes podem acabar se sobrepondo à função social e de utilidade pública de ações legítimas como essa”. Leia mais >

  • A Amazônia continua ameaçada

    Postado por Germano Assad e Luana Lila - 22 - dez - 2013 às 0:30 4 comentários

    O avanço da pecuária sobre as florestas continua sendo uma das maiores ameaças à Amazônia.

    Na década de 70, o governo militar ofereceu incentivos fiscais para os investidores brasileiros e internacionais ‘desbravarem’ a Amazônia. Os empresários começaram a comprar terras que eram antigos seringais com o intuito transformar a floresta em ‘novas frentes de negócios’, sobretudo pastagens para a criação de gado.

    Mas, diferente do que se imaginava em outras regiões do país, que tinham a ideia de que na Amazônia havia um enorme vazio demográfico, eram milhares de famílias de seringueiros e povos indígenas ocupando aquelas terras. Foi assim que começaram os conflitos com a expulsão de índios, ribeirinhos e seringueiros pelos novos “proprietários”.

    Pessoas que nasceram naquelas terras de repente recebiam a notícia de que seriam obrigados a se retirar. Muitos foram enfrentar um destino de pobreza extrema e desemprego na periferia das grandes capitais do Norte. Outros perderam a economia de uma vida, enganados por grileiros. Os que resistiam eram pressionados por pistoleiros, ameaçados de morte por jagunços e muitas vezes tinham suas casas queimadas.

    Foi nesse contexto que os seringueiros se organizaram nos Sindicatos dos Trabalhadores Rurais, apoiados pela Igreja, que criou as Comunidades Eclesiais de Base com a missão de conscientizá-los sobre seus direitos e formar líderes que pudessem atuar nas comunidades. O jornalista, escritor e documentarista Edilson Martins conhece bem essa história.

    “Antes de conhecer o Chico eu conheci o Pinheiro, que foi presidente do sindicato antes, e foi assassinado nas mesmas condições que ele. O Pinheiro é o cara que começa a organizar a resistência em um momento que o governo militar decide substituir o ciclo mono-extrativista que dominava a Amazônia pelos grandes projetos agropecuários, madeireiros, de mineração, rodovias patrocinadas pelo banco mundial, transamazônica, ainda no final dos anos 60”, lembra.

    O novo modelo, dominado pelo capital da indústria, das grandes fazendas e latifundiários se chocaria, mais para frente, com a figura do seringueiro, do ponto de vista territorial.

    Mobilização e confronto pacífico pela resistência

    O sindicato de Brasileia surgiu em dezembro de 1975, com a ascensão de Wilson Pinheiro como liderança. Wilsão, como era chamado pelos amigos, foi quem idealizou a forma de embate pacífico tão inspiradora até hoje, junto com Chico.

    Ambos estavam frustrados depois de inúmeras denúncias feitas aos órgãos competentes à época, de invasão de terras, violência e agressão à floresta por parte de fazendeiros e pecuaristas, que terminavam sempre sem resposta.

    Cansados, pensaram os empates, que tinham por objetivo impedir a derrubada da mata e outras formas de violência contra os seringueiros, como alternativa efetiva às denúncias feitas em vão.

    Vinham trabalhadores da região de influência da BR-317 caminhando até o lugar onde os peões estavam prontos para realizar o desmate. Surgiam, de repente, centenas de homens, mulheres e crianças para formar uma corrente humana em frente a área a ser devastada. Do outro lado, muitos do que estavam prestes a desmatar eram os seringueiros que foram cooptados pelos novos donos da terra. Eles não tinham coragem de passar por cima de seus pares. Ali, no interior da floresta, homens e mulheres travavam um embate entre pobres, a serviço dos ricos.

    Em pouco tempo eram oito sindicatos na região, com 25 mil associados. A luta era desigual pois os fazendeiros tinham o apoio do Estado, representado por policiais, advogados, juízes e políticos. Para a antropóloga Mary Alegretti, que viveu esse momento de mobilização, a partir da década de 80, a capacidade de articulação de Chico Mendes vinha da legitimidade que eles passava.

    “Eu entendi qual era o sentido da luta dele porque eu tinha visto o que era o seringal, o patrão, o seringueiro eternamente endividado, eu tinha estudado essa situação. Então quando ele falava do seringueiro liberto, do empate, da necessidade da educação, eu tinha uma profunda empatia, porque eu tinha percebido exatamente, sabia o que ele estava falando. E acho que ele percebeu isso, por isso a gente tinha muita cumplicidade”, conta.

    A manada passa e a soja fica

    De lá pra cá, apesar dos esforços das lideranças locais, a pecuária acabou se instalando na Amazônia e se tornou o maior driver de desmatamento da região.

    Segundo dados do Imazon, entre 1990 e 2003, o rebanho bovino da Amazônia Legal cresceu 140% e passou de 26,6 milhões para 64 milhões de cabeças. Na esteira da pecuária, a Amazônia foi tomada por outras commodities, como a soja, que foram expandindo a fronteira do desmatamento na Amazônia.

    Um estudo publicado nesta semana pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) demonstrou a relação entre violência e desmatamento. De acordo com ele, municípios localizados em áreas de desmatamento da Amazônia sofrem mais com a violência do que outras cidades similares.

    Segundo a pesquisa, a média da taxa de homicídios nos 46 municípios que mais desmatavam em 2010 era 48,8 por 100 mil habitantes naquele ano. Quase o dobro da observada nos outros 5.331 municípios pequenos e médios do país (27,1 por 100 mil habitantes).

    O modelo de desenvolvimento que motivou a luta de Chico Mendes ainda é o mesmo, baseado em levar grandes projetos para a Amazônia sem compreendê-la e sem se preocupar com as pessoas que vivem lá. Daí as situações se repetirem ainda hoje. A Amazônia 25 anos depois de Chico ainda sofre com a falta de governança e a impunidade.

    “Até hoje, a ideia hegemônica sobre a Amazônia é que ela tem que se integrar a qualquer custo ao Brasil, quando na verdade é o Brasil que deveria se integrar a ela, reconhecendo que é dono de grande parte da maior floresta tropical do mundo e que deve estabelecer um modelo econômico diferenciado, respeitando os povos que vivem nela. Mas o que se vê é o governo entregando essa riqueza para a exploração desenfreada, numa lógica em que a floresta é vista como um  empecilho para o desenvolvimento. Isso começou na época do Chico Mendes e permanece atual, sendo um dos grandes incentivadores da violência no campo”, afirma Danicley de Aguiar, da Campanha Amazônia do Greenpeace. Leia mais >

  • Testemunha da história, parceira na luta

    Postado por Germano Assad - 21 - dez - 2013 às 23:50

    Chico Mendes e Mary Alegretti (Reprodução / Acervo Pessoal Mary Alegretti)

    A antropóloga Mary Alegretti é muito provavelmente uma das pessoas “de fora” que mais conviveram com Chico Mendes a partir dos anos 80, quando ele já tinha muita clara a luta que travaria até o assassinato que o vitimou: Mudar a situação do seringueiro explorado, sempre endividado, subalterno e sem acesso à educação.

    Mary conhecia bem essa realidade, quando visitou seringais tradicionais pelo Acre antes de conhecer Chico, “tipo os dos livros de história, com a figura do patrão sempre muito presente”, como ela mesma descreve. E ele a apresentou ao “outro lado”, dos seringueiros que articulavam entre si e com outras comunidades da região, independentes, sobretudo.

    Conheça um pouco mais sobre a história desta amizade e desta mulher que tanto ajudou nas articulações e no persistente trabalho de Chico pela vida e pela dignidade dos seringueiros com alguns dos trechos desta entrevista:

    Como foi seu primeiro contato com Chico?

    Eu fiz a minha tese de mestrado no Acre. Conheci o Chico quando ele era vereador em Xapuri, antes de qualquer coisa que tivesse a ver com meio ambiente, ou com questões nacionais, internacionais ou qualquer coisa desse tipo. Ele era um líder sindical eleito vereador, mas de coração e de tudo presidente do sindicato de Xapuri, ou pelo menos da diretoria do sindicato dos trabalhadores rurais de Xapuri.

    Isso era 77, mais ou menos?

    Não, eu fui pro Acre em 78 mas o conheci em 81. Nesse momento, os sindicatos já haviam sido criados e ele tinha acabado de voltar do processo que ele teve da justiça militar na Amazônia, junto com o Lula. Que aconteceu depois do assassinato do Wilson, então eu conheci ele nesse momento. Já tinha defendido meu mestrado mas tinha voltado pro Acre, estava começando um projeto de doutorado. E aí eu o conheci assim, porque ele era um líder sindical muito bem informado e que todas as pessoas davam ele como referencia do que estava acontecendo no Acre naquele momento.

    E eu acho que eu fiz uma das primeiras entrevistas que ele deu na vida, entrevista longa, gravada, onde eu pergunto tudo, porque eu não conhecia nada, eu não tinha menor noção de quem ele era, e ele não era conhecido, ele era um líder sindical que vivia falando do desmatamento e das injustiças com os seringueiros. E ele lia muito, então ele lia o Varadouro, que era o jornal famoso da época, do Acre, era um jornal alternativo que saia todos os meses, e ele era um leitor e um divulgador e um cara que escrevia cartas para o jornal. E eu fiz essa entrevista com ele na sede do Varadouro, em Rio Branco. Exatamente porque os jornalistas disseram “olha, quer saber o que está acontecendo, é o Chico Mendes quem pode te falar”. Então foi assim que eu o conheci.

    Chico Mendes e Mary Alegretti (Reprodução / Acervo pessoal Mary Alegretty)

     

    Você publicou esta entrevista?

    A entrevista está na minha tese, e junto com o meu livro eu pretendo colocar ela em áudio, porque é muito original, é muito interessante. Porque ele já tinha uma visão histórica, uma interpretação da história do Acre, da história dos seringueiros e tinha convicções, conceitos claros, ele já era uma pessoa com pensamento muito original.

    Nessa época em que encontrou ele, já havia acontecido algum enfrentamento pacífico, os famosos empates?

    Já, porque os empates começaram em 76. Eu conheci ele em 81, quer dizer, já havia quase uma década de empates, os conflitos começaram em 70, eu tenho um artigo em que falo bastante das diferentes etapas do conflito. Em 76 teve o primeiro empate e aí não parou mais. Quando eu o conheci, como ele tinha sido eleito vereador, então ele estava numa fase onde ele estava fazendo política, um pouco desconfortável, porque eu acho que não era exatamente o que ele gostava, mas ao mesmo tempo ele estava mobilizando o sindicato, que tinha ficado nas mãos de um pelego lá em Xapuri. E ele estava mobilizando, organizando o sindicato pra voltar a tomar conta e ele acabou se elegendo presidente do sindicato em 83, e era onde ele se sentia melhor, mais confortável.

    Então eu o conheci nesse momento, e ele me convidou pra ir a Xapuri. Ia acontecer uma assembleia muito grande lá, no final daquele mês, foi em maio de 78, ia acontecer uma assembleia grande, para tentar mudar a diretoria do sindicato, e eu fui. E fiquei super impressionada com o que vi, como antropóloga eu gravei tudo, não filmei porque na época ninguém ousava filmar, mas gravei tudo, essas reuniões todas que aconteceram nessa época, estava o Julio Barbosa, o Raimundo de Barros, todas as lideranças que continuaram depois que ele foi assassinado. E eu fiquei muito impressionada mesmo.

    E o que mais te chamou a atenção nessa época, nele? Era o poder de mobilização, a capacidade de oratória?

    Ele não era desses líderes de inflamar as massas, ele era um líder muito simples, mas ele passava muita legitimidade, muita sinceridade. E ele era uma pessoa também que tinha uma capacidade de acolher todo mundo. Ele dava valor as pessoas que se interessavam pelo trabalho que ele fazia e pela luta dos seringueiros, ele acolhia todo mundo. Eu fui uma das primeiras pessoas de fora que chegou, depois vieram outros, no decorrer dos anos, mas ele sempre teve essa postura.

    Chegava um jornalista ele ia lá, mostrava, ia junto, contava a história, ele cativava a pessoa, e a pessoa se sentia ligada a ele, a causa, e não largava mais. Eu acho que era um carisma, mas não o carisma de quem vai lá e instiga as massas, é uma carisma de quem cria uma certa cumplicidade. Ele foi capaz de mudar a vida de muitas pessoas, e não só a minha. Eu larguei a universidade para apoiar o trabalho dele. Mas não fui a única.

    Para mim ele passava legitimidade, sinceridade, um cara que era honesto, que realmente defendia o que defendia por convicção, ele não tinha nenhuma característica de nenhum tipo de político ou daqueles líderes populistas, demagogos. Ele tinha uma convicção, acreditava que as coisas podiam mudar e ele ia em frente apesar de todas as dificuldades, ele também tinha bom-humor e nós na verdade criamos uma amizade. Isso que eu acho uma coisa peculiar, nós ficamos amigos com essa simplicidade do movimento social. E eu fiz tudo o que eu pude pra trabalhar com ele, pra ajuda-lo, pra dar força, pra divulgar, pra informar, pra defender, pra tudo.

    E vocês tinham afinidade política?

    Se nós tínhamos as mesmas convicções políticas, eu nem sei, nunca me preocupei em saber de qual linha era dentro do PT, se ele era a favor de um ou de outro, nunca foi uma questão ideológica. E deixa eu te falar porque. Antes de conhece-lo eu fiz a minha tese de mestrado em um seringal tradicional lá no Acre. E era um seringal de patrão, aquela coisa bem dos livros de história. E eu fiquei muito chocada.

    Quando eu conheci o Chico, ele me deu a história. Ele me colocou no contexto. Ele disse “olha, o que você viu é um lado da história. Em Xapuri a gente tem o outro lado. Que é o lado dos seringueiros que já não pagam renda, que já não tem patrão, que lutam contra o desmatamento, que já são autônomos, e aqueles seringueiros que você estudou eles são os cativos, que ainda tem patrão e tal”.

    Então ele me deu essa perspectiva, e ele tinha um senso de busca por justiça muito forte. Mas eu entendi qual era o sentido da luta dele porque eu tinha visto o que era o seringal, o patrão, o seringueiro eternamente endividado, eu tinha estudado essa situação. Então quando ele falava do seringueiro liberto, do empate, da necessidade da educação, eu tinha uma profunda empatia, porque eu tinha percebido exatamente, sabia o que ele estava falando. E acho que ele percebeu isso, por isso a gente tinha muita cumplicidade.

    Qual era a grande vontade de Chico lá no início, quando conheceu ele?

    Ele tinha uma obsessão, que era mudar a situação do seringueiro. Porque ele tinha vivido, com a família dele, essa situação e ele tinha conseguido sair desse processo, ser alfabetizado. Ele dava um valor muito grande para a educação, então ele tinha essa coisa, queria mudar a realidade do seringueiro. Esse era o pensamento dele. Depois ele juntou a questão da floresta, do desmatamento, mas pelas razões de quem vive da floresta sim, como meio de vida.

    Quando você olha para o avanço do agronegócio na Amazônia, todo o conjunto de projetos e leis que avançam nas esferas políticas dificultando novas demarcações de terras, pedindo revisões nas já existentes e outras ameaças, pensa que 25 anos depois, vivemos uma situação tão difícil quanto?

    Eu acho que tem uma grande diferença que naquela época estávamos em um regime militar. Então qualquer oposição a qualquer política do governo militar implicava num risco muito alto, até de vida, e num risco muito alto de repressão e perseguição, mas por outro lado tinha uma grande repercussão internacional qualquer manifestação que fosse contra o regime militar e contra a politica militar dos índios. Então os aliados principais que nos tínhamos eram primeiro a comunidade internacional ligada a questão indígena, depois os organismos multilaterais como por exemplo o banco mundial, banco interamericano de desenvolvimento, eles eram, eles exerciam o papel de mediação em certo sentido.

    Então acontecia alguma coisa lá no Acre, como aconteceram, com os Yanomami, como aconteceu políticas tão ou mais fortes que as de hoje e havia uma repercussão internacional, e essa repercussão gerava uma pressão que  constrangia os militares. Então de certa forma, a democratização fez com que as pressões internas passassem a ter mais importância e enfraqueceu a capacidade de mobilização, porque  mobilizar a opinião pública brasileira é muito difícil, é mais difícil do que mobilizar a opinião publica internacional, pra questão indígena principalmente. É uma coisa que não sensibiliza. Mas sensibilizava muito a opinião publica internacional, então era um jogo de pressão muito forte que se articulava lá fora e rebatia aqui dentro.

    Esse é um aspecto, o outro aspecto é que o movimento social enfraqueceu muito desde que o PT assumiu o governo. E como toda a sociedade colocou a expectativa de que não precisava mais fazer esse jogo de pressão porque o PT iria atender essas demandas históricas e centenárias das sociedades indígenas e dos extrativistas, e como boa parte das lideranças e dos interlocutores foi para o governo e não aconteceu o que se esperava, gerou um vazio, um vazio enorme, de capacidade de pressão, as lideranças hoje não conseguem questionar o governo, não conseguem.

    As lideranças indígenas questionam até mais do que os outros, eu acho que eles tem uma capacidade de mobilização, de questionamento muito alta. Eles são muito mais organizados, se eles conseguissem sensibilizar a opinião pública e conseguissem mais respaldo, eles impediriam essas mudanças que o governo está fazendo, só que há um constrangimento do movimento social em geral de questionar o governo.

    E muitas das ameaças de hoje são as mesmas de antes? O avanço da pecuária aliado com a expansão da soja...

    A soja é um processo natural da expansão, é uma etapa seguinte da expansão da fronteira, depois da madeira, da pecuária vem a soja, então é prevista digamos assim, eu acho até que é mais fácil lidar com a soja do que com a madeira e com a pecuária porque a soja tem um impacto grande na renda local, e com a renda as pessoas também mudam de qualidade de vida, e elas acabam tendo mais acesso a informação, a educação, então eu não meço isso tanto assim. Apesar de que eu acho que a Amazônia pelo fato de não ter uma situação de terra regularizada a soja vai vir acompanhada por conflitos fundiários. Mas acho que o problema maior é esse hoje, eu sinto que as investidas são muito parecidas, principalmente na parte legal, de diminuição de direitos indígenas, mas não há, não existem mecanismos que façam com que isso seja freado, então gera-se um impasse muito maior do que no passado.

    E qual o maior legado deixado, o que, na sua opinião, fica de mais marcante, que aprendemos como país?

    Eu vejo esses impasses muito fortes em relação aos indígenas e muito forte em relação aos direitos sociais digamos de toda uma população ribeirinha, extrativista na Amazônia. Mas o maior legado sem dúvida é a revolução do seringueiro, que é a criação das reservas extrativistas, porque isso é permanente, e é um conceito legitimamente vindo do movimento social, foi uma conquista e não uma concessão.

    Você veja, o conceito surgiu em 85, as primeiras reservas e o conceito formal foi firmado em 90 e você tem ciclos de criação das reservas mas elas não param de ser criadas e não param de ser demandadas. Então é uma coisa extremamente fértil e conectada com a necessidade dessas comunidades. Eu acho que isso é um legado que ninguém poderia imaginar que seria possível acontecer. E se isso começasse hoje, certamente não aconteceria. Se essa ideia surgisse hoje e se as reservas que foram criadas até agora tivessem que começar a ser criadas a partir de agora isso não aconteceria. Leia mais >

  • Herdeiro do legado, multiplicador da causa

    Postado por Germano Assad - 21 - dez - 2013 às 23:48 1 comentário

    Joaquim Belo, presidente do CNS (Reprodução / Acervo Pessoal Joaquim Belo)

    Três décadas após a criação do Conselho Nacional dos Seringueiros (CNS) por Chico Mendes e vários de seus companheiros, a entidade, hoje chamada Conselho Nacional das Populações Extrativistas é gerida por um filho legítimo da maior conquista de Chico: o conceito das reservas, de desenvolvimento sustentável e extrativistas.

    Morador do projeto de assentamento Foz do Rio Madeirão Velho, no Amapá,  Joaquim Belo só conheceu Chico Mendes com a repercussão de seu assassinato.

    “Fui conhecer a figura brilhante do Chico na morte dele, enquanto eu me envolvia mais e mais  com o trabalho na reserva de Cajari”, conta. Mas logo percebeu que a luta iniciada por Chico, Wilson Pinheiro e tantos outros era a luta que ele mesmo sempre travara. “Percebi que o meu modo de vida se enquadrava justamente no modelo que eles defenderam na primeiras quatro reservas criadas”.

    E a partir daí, se envolveu mais e mais no sindicalismo e nos movimentos locais em favor dos trabalhadores e comunidades amazônica. Ele resume a própria história como “a de um cidadão que mora na floresta, que tem uma relação e um modo de vida extremamente afetuoso com a floresta, e que trabalha com a floresta em pé”. Confira alguns trechos da entrevista:

    Pode contar um pouco de sua trajetória até o CNS?

    Cheguei no CNS na verdade através de um amigo chamado Pedro Ramos, que vem do início junto com Chico Mendes e viveu essa historia bonita de luta pela defesa dos extrativistas naquele momento. Eu sou técnico em agropecuária formado pelo instituto da família no Espirito Santo, que era apoiada pelo sindicato que o Pedro Ramos era presidente, e quando cheguei em 92 formado no ensino médio, e trabalhando voluntariamente no sindicato rural, no ano seguinte ele me convidou pra ajuda-lo no CNS, que estava iniciando o trabalho que ia fazer o cadastramento na reserva Cajari naquele momento, e eu fui convidado a ir pra lá.

    Fiquei uns dois anos trabalhando com ele nessa pauta do cadastramento da reserva de Cajari. Em 98, eu fui convidado pra fazer parte da organização, do encontro estadual, e acabei indo. Na volta, fui eleito coordenador regional do estado do Amapá e fui me envolvendo mais e mais no trabalho. No levantamento da reserva, o que ela representava enquanto espaço territorial naquele momento, já que Cajari estava entre as quatro primeiras reservas extrativistas criadas, ainda no final do governo Sarney, junto com a Chico Mendes, Ouro Preto e Juruá.

    Então eu fui estudando, começando a entender os documentos, os processos. Eu não fiz parte do início do processo, mas fui compreendendo que o que eu fazia no meu dia a dia, no meu modo de vida foi aquilo que o Chico, junto com outros grupos que começam com Wilson Pinheiro e tantos outros, que trabalharam muito pra que esse modelo fosse criado juridicamente, quer dizer, eu percebi que o meu modo de vida se enquadrava justamente no modelo que eles defenderam na primeiras quatro reservas criadas.

    E meu envolvimento aí só aumenta. Fui coordenador regional no Amapá, no ano seguinte fui eleito para o conselho deliberativo nacional e fui galgando até a presidência. A minha história de vida é a de um cidadão que mora na floresta, que tem uma relação e um modo de vida extremamente afetuoso com a floresta, que trabalha com a floresta em pé. Eu fui entendendo que dentro dos diversos ecossistemas cada sistema desses tem um tipo de produção que atende muito bem o público que está lá, que é a castanha, o açaí, a borracha, o babaçu, enfim, é um conjunto de produtos que tem na natureza e que se relaciona com o povo de acordo com o ambiente que ele está habitando.

    Como foi seu primeiro contato com Chico Mendes, em que momento da sua vida esse contato aconteceu?

    Na verdade eu ouvi falar do Chico na morte dele. Meu pai era sindicalista, conviveu com ele. Pedro Ramos também conviveu com ele, mas eu só fui ouvir falar do Chico por ocasião da morte dele, que foi aquela comoção. No interior a gente não tinha televisão mas tinha rádio.  E a gente ouvia falar da morte do ambientalista Chico Mendes, aquela questão toda que ficou na mídia por tanto tempo. Era radinho de pilha né, a gente escutava muito a voz do Brasil, tinha a rádio nacional de Brasília, então eu ouvi muito, fui conhecer a figura brilhante do Chico na morte dele, enquanto eu me envolvia mais e mais  com o trabalho na reserva.

    Ouvia muito sobre os companheiros de Chico, também? Você se inspirou muito nessas pessoas?

    Os primeiros, que começaram mesmo junto com ele foram o Julio Barbosa, Maria Alegretti, Atanagildo Matos, seu Raimundão lá do Acre, pessoas que foram grandes inspiradores, ficaram com esse legado do Chico e passando para outras gerações assim como eu e que me serviu muito, foi de uma riqueza fantástica para que eu pudesse ter a consciência e pudesse ter o papel que tenho hoje, de representar essa instituição e estar multiplicando esse ideal do Chico que não é uma causa, é a vida das pessoas, é a vida do nosso povo da Amazônia que teve seu modo de vida desenhado pela convivência de milhares de anos com a floresta, e esse público é um público muito grande hoje na Amazônia, é um público gigantesco.

    E em termos de conquistas? Qual a principal na sua opinião?

    Nossa conquista hoje tá em torno de quase 40 milhões de hectares traduzidas nesse modelo de reforma diferenciada que a gente chama, que é nossas reservas extrativistas, nossos assentamentos extrativistas, reserva de desenvolvimento sustentável, então esses territórios de uso coletivo que são nossos lugares de moradia e produção acima de tudo, essa conquista é muito grande. Quando eu comecei a conhecer essa história, das quatro reservas criadas,  e a aprender com essas pessoas, isso pra mim, faz com que eu faça o que faço hoje com uma consciência aguçada do meu papel na defesa desse modo de vida, na conservação, no desenvolvimento sustentável, na manutenção do equilíbrio e da harmonia nos biomas brasileiros, e no mundo também.

    Qual a situação da sua comunidade e da reserva de Cajari hoje, vocês convivem com a violência que assola tantas outras reservas? Vocês lidam com roubo de madeira, ameaças e outros tipos de violência?

    Pois é. Primeiro, é impressionante como essa situação quase pouca coisa mudou, da violência, dos saques de recursos naturais das comunidades, ainda agora duas semanas atrás teve a maior apreensão de madeira da história, na região de Marabá. E quando você olha a região de Marabá, é uma região que tem tido o acesso muito facilitado, então dá pra gente analisar que essa questão da extração ilegal de madeira, a corrupção no setor continua muito forte, que as pessoas e esses grupos ainda se sentem muito a vontade para fazer o que fazem e há uma dificuldade muito grande do estado em dar uma resposta em cima dessa situação toda. E aí pega essa situação de Marabá , por exemplo, e imagine essas comunidades que estão mais distantes, isoladas  da presença do estado, como é o caso de Melgaço e tantas outras.

    Então isso demonstra que os saques, a ilegalidade, essas coisas continuam com uma voracidade gigantesca em cima desses territórios, por isso que a gente briga muito pelas reservas extrativistas, que no governo Dilma tivemos a infelicidade de não criar nenhuma, e a única esperança que a gente tem é a criação do território, e a hoje a dificuldade tem sido muito grande em novas criações porque a frente do agronegócio quer impedir a criação de reservas, desses nossos territórios a qualquer custo, mas é o mínimo que a gente pode ter, a garantia ao território.

    A garantia ao território traz consigo as demais?

    É o primeiro passo, com ela você tem o mínimo, que é a garantia da preservação da vida. Porque, pela nossa história de luta, nós nunca ouvimos falar que mataram uma liderança dentro de uma reserva criada, geralmente morre num assentamento extrativista, porque com todo o respeito e importância que tem os assentamentos extrativistas, uma vez que se tornou uma coisa muito banal, o respeito também passou a ser mínimo. Já contra a reserva, é muito mais difícil atentar, fica um defunto mais caro pro crime.

    Então a gente lamenta muito por não terem sido criadas novas reservas na nossa Amazônia, mas estamos firmes, fizemos um pacto para que até julho de 2014 a gente crie novas cinco reservas. No chamado das florestas fizemos esse pacto com o governo federal, com a ministra do meio ambiente e secretaria geral da presidência para a semana do meio ambiente.

    A violência continua, nas nossas terras por aqui não é diferente. Particularmente, não digo que sou ameaçado de morte porque tomo muito cuidado com isso. Até porque hoje, são poucos os lugares em que o crime organizado ainda ameaça. Eles estão atuando de uma outra forma, já estão executando ao invés de ameaçar, porque quando ameaça tem a questão da visibilidade e tal, e quando matam diretamente fica mais fácil até de se livrarem.

    Então essa questão da violência aqui no Amapá, que até viveu em harmonia nesse aspecto mas neste momento já temos conflitos gigantescos, companheiros que correm risco de morte e a gente tenta trabalhar de forma que não nos deixe tão expostos nesse aspecto e não sermos vitimados por esse segmento.

    Vocês usam ou chegaram a usar alguma técnica de enfrentamento aos moldes dos empates?

    Não, dessa forma não. Ajudei logo no início, com a Irmã Dorothy, a fechar estrada, fechar ponte, por semanas e tal, isso a gente chegou a fazer na região da Transamazônica, mas nesse nosso ambiente aqui, não. Mas no caso do Pará chegamos a fazer não embate pela floresta, mas em rodovias, em pontes, chamando a atenção justamente para a necessidade de criação de novos territórios.

    Do ponto de vista daquelas lutas maravilhosas que o Chico fez, não chegamos a realizar esse tipo de ação, de embate na floresta para impedir desmatamento, mas com certeza tiramos inspiração delas para fazer as nossas próprias ações.

    Como você enxerga o modelo de desenvolvimento para Amazônia que temos hoje? Mega obras, ameaças constantes da bancada ruralista nas esferas políticas...

    Primeiro que o modelo que está sendo implementado para Amazônia é caótico, crítico. Crítico porque é um modelo extremamente degradador, e nesse sentido o governo está refém desse processo, desse poder hegemônico que está consolidado nesse país de uma forma bem estruturada, e aí eu confesso que não vejo um caminho claro no sentido de reversão para esse processo. 

    O que temos feito nesse aspecto, é fazer com que o governo também atenda nossas reinvindicações, porque o que está acontecendo na Amazônia neste momento é um sistema que está colocando um grau de perigo muito grande, porque essa infraestrutura toda que o governo está investindo para Amazônia é uma infraestrutura que está trazendo consigo a migração de diversos segmentos, inclusive segmentos endinheirados pra Amazônia, e junto com isso vem muita gente tentando arrumar trabalho, e isso vai estabelecer um conflito muito grande e que não vai demorar na região, se o governo também não atender as nossas reinvindicações.

    E aí o ataque não passou a ser contra uma classe, contra um setor, mas contra o sistema ambiental desse país. E eu fico muito triste  quando vejo alguns técnicos ligados a área da conservação que ao invés de ver o extrativista como um bom aliado acham que somente parques conservam, e nem consideram o nosso segmento como possível aliado na mesma luta.

    Mas também já existe muita gente com mentalidade diferente, que pensa na lógica do ou se junta todo mundo, ou todo mundo vai sucumbir nesse modelo que o governo federal está implantando para a Amazônia. Estamos passando por um momento crítico, e esse momento vai carecer do nosso papel como entidades mobilizadoras e de enfrentamento pra que o governo dê atenção as nossas pautas.

    Nós temos claro que  governo não vai frear nesse modelo hegemônico que está sendo implantado, então o que nos cabe é mobilizar. E aí são todos os segmentos, ambientalistas, ativistas, trabalhadores, índios, extrativistas. Ou nos juntamos ou vamos sucumbir todos.

    O sistema, unidades de conservação, terras indígenas, comunidades quilombolas, todos estão ameaçados, então não tem ninguém melhor do que ninguém neste momento, e isso precisa ser compreendido por todos os segmentos, que precisamos estar juntos para enfrentar esse projeto de grandes obras e investimentos na Amazônia que vai trazer o caos para todos nós. Leia mais >

  • Sempre Presente

    Postado por Alan Azevedo - 20 - dez - 2013 às 18:11 1 comentário

    Elas estão em todos os lugares: em locais públicos, dentro de recintos, em prédios abandonados (ou não) e até piscando do lado de fora de nossas casas. Elas são grandes, brilhantes... e feias! Estamos falando das propagandas que, muitas vezes, são também imorais.

    Mas, nem todo mundo está disposto a aceitar passivamente esse bombardeio diário de propagandas. Convidamos todos os espíritos selvagens aí fora para se juntar a nós e manter viva a memória dos verdadeiros representantes da eterna luta por um Brasil mais livre e mais justo. Para marcarmos os 25 anos do assassinato de Chico Mendes, um dos grandes defensores da nossa maior riqueza, a Amazônia, propomos uma intervenção urbana para lembrar as pessoas que Chico Mendes estará sempre presente.

    Para isso, disponibilizamos uma arte de lambe-lambe, um cartaz com conteúdo crítico a ser colado em espaços públicos. É uma forma de intervenção criativa e não-comercial na cidade, com o poder de despertar as pessoas para reflexões que em geral não estão presentes no nosso cotidiano. Vale ressaltar que lambe-lambe não é crime, mas é preciso cuidado com onde e como colar sua mensagem por aí.

    Neste link disponibilizamos um guia rápido de como preparar seu lambe-lambe. Imprima a arte “Chico Mendes Sempre Presente”, reúna seus amigos e se manifeste artisticamente. Não se esqueça de fotografar seus lambe-lambes e espalhar pelas redes sociais usando a hashtag #SemprePresente. A mudança está nas mãos da sociedade civil. Leia mais >

  • As mortes anunciadas da Amazônia

    Postado por Luana Lila - 20 - dez - 2013 às 16:53 2 comentários

    Em Xapuri, no Acre, próximo ao local onde Chico Mendes foi assassinado (Eduardo Arraes)

     

    "Não resta a menor dúvida que nessa luta a gente tá convencido de que mais hoje ou mais amanhã algum companheiro vai perder a vida, alguém vai derramar sangue, porque nós estamos lutando contra um poderio econômico, o poder do latifúndio, no país do latifúndio", afirmou Chico Mendes, no documentário Chico Mendes, Um povo da floresta, de 1989.

    Quando Chico proferiu essas palavras ele sabia que poderia estar entre as pessoas que iriam tombar na luta pela defesa da floresta e dos povos que vivem nela. Por seis vezes conseguiu escapar da morte anunciada. Inúmeras vezes ele mesmo denunciou seus algozes. Nada disso foi suficiente para impedir o seu assassinato, no dia 22 de dezembro de 1988, quando estava em casa com a família. Ao abrir a porta dos fundos, com a toalha nos ombros para ir tomar banho no chuveiro externo, Chico foi atingido por uma bala. Morreu na frente da mulher e dos filhos.

    Em 1980, antes de Chico, outra liderança do Acre foi assassinada. Wilson Pinheiro, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasileia foi um pioneiro na luta pelos direitos dos seringueiros e povos da floresta. Assassinado na sede do sindicato. 

    Em 2005 a missionária norte-americana Dorothy Stang foi assassinada, aos 73 anos, com seis tiros, em Anapu, sudoeste do Pará. Lutava pela implantação de um Projeto de Desenvolvimento Sustentável para aliar a agricultura familiar à preservação da floresta. Sabendo-se ameaçada, pouco antes de morrer declarou: "Não vou fugir e nem abandonar a luta desses agricultores que estão desprotegidos no meio da floresta. Eles têm o sagrado direito a uma vida melhor numa terra onde possam viver e produzir com dignidade sem devastar". 

    Em 2011 foi a vez do casal de extrativistas José Claudio Ribeiro e Maria do Espírito Santo, assassinados em Nova Ipixuna, sudeste do Pará, por denunciarem a ação de madeireiros, carvoeiros e grileiros no Assentamento Agroextrativista Praia Alta Piranheira. Em 2010, numa palestra, Zé Claudio declarou: “A mesma coisa que fizeram no Acre com Chico Mendes querem fazer comigo. A mesma coisa que fizeram com a Irmã Dorothy querem fazer comigo. Eu estou aqui conversando com vocês e daqui a um mês vocês podem saber a notícia que eu desapareci. Me perguntam: tenho medo? Tenho, sou ser humano, mas o meu medo não me cala”.

    Histórias trágicas como essas continuam acontecendo num Brasil que se mostra orgulhoso de seu desempenho “moderno” no campo, mas nos bastidores se mantém inerte enquanto vê suas lideranças sendo assassinadas. Assim, o país vai anonimamente perdendo seus heróis, aqueles que estão na linha de frente na batalha contra o desmatamento, lutando por um interesse que é de toda a população. 

    Segundo o último caderno “Conflitos no Campo”, publicado anualmente pela CPT (Comissão Pastoral da Terra), em 2012 a Amazônia registrou 489 conflitos no campo, 21 assassinatos e 229 pessoas ameaçadas de morte. 1 em cada 5 dos assassinados no campo em 2012 já havia recebido ameaças de morte. São pessoas que buscam uma realidade mais justa e sustentável numa terra que tem a falta de governança e a impunidade como marca.

    Saiba mais:

    A luta de Chico Mendes continua necessária. No Acre, por exemplo, o avanço dos madeireiros tem gerado inúmeros conflitos com as pessoas que vivem na floresta, como explica Darlene Braga, coordenadora da CPT no estado. A sede da CPT, órgão que atua junto aos trabalhadores no campo, foi invadida três vezes somente em janeiro de 2013, por grupos que deixaram recados em tom de ameaça nas paredes. 

    “Aqui no Acre é tudo em nome de Chico Mendes. Tem rua, restaurante, tudo. Estão usando a imagem dele, mas na verdade os ideais pelos quais Chico lutava ainda estão muito distantes, infelizmente”, afirma Darlene. Leia mais >

  • Derretimento a olhos nus

    Postado por Fabiana Alves* - 19 - dez - 2013 às 18:01 1 comentário

    Paredão de gelo instalado na av. Paulista, em São Paulo, fazia referência ao derretimento do Ártico. (©Greenpeace/Otavio Almeida)

    A avenida Paulista, cartão-postal de São Paulo, costuma ficar toda enfeitada nessa época do ano. Em contraste com a alta temperatura do verão brasileiro, neve artificial, pinheiros, renas e bonecos do Papai Noel anunciam a chegada de mais um Natal.

    Foi nesse cenário que ontem o Greenpeace adicionou um item à decoração da avenida: um imenso paredão de gelo de 4x2 metros derreteu às vistas do público, mostrando que a terra do bom velhinho, o polo norte, vai desaparecer se não tomarmos uma atitude urgente.

    Leia mais:

    Nos últimos 30 anos, o gelo Ártico do verão se reduziu em três quartos. Estudiosos preveem a possibilidade de, no verão de 2020, a extensão do gelo desaparecer completamente. Mas o que pode ser um problema para o restante do mundo é visto com bons olhos por algumas empresas petrolíferas, que terão os caminhos abertos para explorar com maior facilidade os cerca de 90 bilhões de barris de petróleo comprovadamente existentes, que suprem apenas três anos do consumo mundial do combustível. Tudo isso às custas do desaparecimento de todo um ecossistema, que será varrido do planeta.

    Veja vídeo:

     

    Existem formas de se gerar energia de fontes renováveis, frear o aquecimento global e proteger o Ártico. Infelizmente, quem tenta mostrar essa segunda via ao mundo acaba sendo punido. Isso foi o que aconteceu com os 28 ativistas e dois jornalistas que foram presos na Rússia após protesto pacífico contra a exploração de petróleo na região. Foi por eles também que montamos essa instalação na avenida Paulista.

    O Ártico pode estar a milhares de quilômetros de distância. Mas o que acontece lá, pode ter impactos aqui também. Por isso, neste Natal, nosso presente é sua sensibilização. Junte-se a nós na proteção desse ecossistema único.

    *Fabiana Alves é da campanha de Clima e Energia do Greenpeace Leia mais >

  • Um elo de resistência na Amazônia brasileira

    Postado por Nathália Clark - 19 - dez - 2013 às 17:49

    Dezenas de povos indígenas e tradicionais do Brasil se uniram na semana de Mobilização Nacional Indígena, realizada e Brasília no começo de outubro. É a atualização da Aliança dos Povos da Floresta, um dos legados de Chico Mendes (©Tico Fonseca/Greenpeace).

     

    Há 25 anos, o Brasil perdia um dos maiores defensores de sua diversidade social e ambiental: Francisco Alves Mendes Filho foi assassinado covardemente em sua casa em Xapuri, no Acre, em 22 de dezembro de 1988. Chico Mendes, como é comumente conhecido, deixou um legado de sabedoria e persistência na luta pela preservação da floresta, que tem sido reproduzido por gerações no movimento socioambiental. Líder seringueiro e sindical, seu nome representa até hoje a resistência das comunidades que habitam a Amazônia ao avanço dos tratores que, no início dos anos 70, sob o comando do regime militar, atropelavam a mata e o que mais houvesse ao redor para trazer o suposto progresso àqueles rincões esquecidos.

    Sua história se cruza com a de outras populações tradicionais amazônicas, como os ribeirinhos e povos indígenas, que também têm na floresta o seu sustento e fonte de sobrevivência. Com a chegada do ambicioso programa de obras e colonização do governo, estradas eram abertas no coração da floresta para dar passagem a novas frentes de “desenvolvimento” na Amazônia. Encobertos pela poeira e pelo rastro de destruição das maquinarias do Estado, as populações locais da região sentiram a necessidade urgente de unir forças para tentar salvar aquilo que lhes era mais precioso.

    “Conheci o Chico quando ele estava peregrinando pelo mundo, indo pra fóruns fora do Brasil denunciar a destruição da Amazônia, as mazelas trazidas pela BR-163, insistindo que fossem criados mecanismos de consulta às comunidades, denunciando que tinham povos ainda em estado de isolamento, que seriam violentados e dizimados. Ele insistia que os povos da floresta precisavam ser ouvidos, não sublimados. Na época, as autoridades tratavam a Amazônia como se só houvesse floresta no caminho, sem seres humanos. Chico foi um pioneiro na Amazônia, antes dele não tinha ninguém levantando a bandeira dos direitos humanos relacionada à questão ambiental de maneira tão eficaz. A temática socioambiental se iniciou aí”, conta Ailton Krenak, ambientalista, líder indígena, ex-deputado federal e hoje coordenador da Rede Povos da Foresta.

    À época, comunidades extrativistas, como os seringueiros do Acre e os castanheiros do Pará, enfrentaram inúmeros conflitos com grileiros, madeireiros e fazendeiros. Muitos perderam suas terras e pagaram com a própria vida o preço pela defesa da floresta. Foi na luta pela terra, pelos recursos naturais e seus usos diferenciados pelas comunidades tradicionais, que os povos da floresta foram se organizando e se aproximando.

    Saiba mais:

    “Ele tinha uma visão muito ampla do planeta como um todo. Ele pensava em organizar os trabalhadores e percebeu que, mais do que isso, era preciso criar relacionamentos entre diversas comunidades de forma a transcender os sindicatos e criar as redes. Muito antes disso virar moda hoje, ele já juntava índios, seringueiros, ribeirinhos, intelectuais, cientistas, pesquisadores e achava que essa gente toda tinha algo em comum. Eu tenho muita saudade do meu amigo Chico Mendes e de suas ideias geniais”, lembra Krenak, saudoso.

    Em 1980 foi fundada, por um grupo de lideranças locais indígenas, a União das Nações Indígenas. Somando a experiência de dezenas de conflitos em todo o país, a então chamada UNI se articulou com outros setores da sociedade civil para dar visibilidade às lutas locais, antes invisíveis e extremamente desiguais. Teve importante participação no avanço dos direitos indígenas conquistados na Constituição de 1988, além de ter sido precursora da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB), que hoje representa 165 povos indígenas e 75 organizações regionais.

    Em outubro de 1985, os sindicatos de seringueiros do Acre convocaram o primeiro encontro nacional, em Brasília, reunindo representantes de comunidades extrativistas de cinco estados da Amazônia. Na ocasião, foi criado o Conselho Nacional dos Seringueiros (CNS).

    Dois anos depois, em 1987, Ailton Krenak, então coordenador da UNI, Jaime da Silva Araújo, o primeiro presidente do CNS, e Chico Mendes, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri, fizeram um evento público em São Paulo para discutir a proposta de criação da Aliança dos Povos da Floresta, enfocando os paralelos entre as diferentes experiências e lutas, e a importância de construir uma aliança efetiva.

    Mas foi apenas depois da morte de Chico Mendes que a Aliança foi oficialmente lançada, durante o Primeiro Encontro Nacional dos Povos da Floresta e Segundo Encontro Nacional dos Seringueiros, em fevereiro de 1989, em Rio Branco, no Acre.

    Índios e seringueiros souberam colocar seus antagonismos históricos de lado para lutar com eficiência contra as ameaças externas. Dessa forma, a Aliança ganhou força e deu respaldo a dezenas de colaborações em conflitos com grileiros e madeireiros. A partir dela foram criadas as primeiras Reservas Extrativistas, demarcadas muitas Terras Indígenas e instituído o Parque Nacional da Serra do Divisor. A Aliança também liderou a mobilização que resultou na criação do Grupo de Trabalho da Amazônia (GTA), que atualmente conta com 623 organizações. Alguns dizem que ela foi desarticulada anos depois. Há quem discorde.

    “Acho que a Aliança continua existindo até hoje. A Mobilização Nacional Indígena foi um exemplo concreto disso. Quando juntamos na mesma luta vários povos tradicionais, quilombolas, ribeirinhos; quando empatamos Belo Monte ou outros empreendimentos que assolam a vida das comunidades e a biodiversidade, isso é uma atualização constante da Aliança. As pessoas querem datar tudo, acham que a Aliança só existiu quando tínhamos escritório físico conjunto. Continuamos compartilhando agendas hoje, só que em outros campos, como nas redes sociais. Hoje as ações são feitas em territórios diferentes, novos. Enquanto houver gente reagindo à destruição da floresta, a Aliança estará viva”, conclui Krenak.

    Um quarto de século depois, os movimentos socioambientais percebem a mesma necessidade de união, dada a constante e acirrada ameaça aos direitos eterritórios indígenas e de populações tradicionais vinda da parte mais atrasada do agronegócio brasileiro, e aos consequentes conflitos, violência e morte no campo.

    O histórico da Aliança dos Povos da Floresta serve para mostrar que, quando o objetivo é comum, as desavenças se dissipam. Vivo fosse, Chico Mendes certamente não abandonaria seus companheiros de luta contra a afronta daqueles que dominam os latifúndios – muitas vezes improdutivos – no país e priorizam o lucro pessoal em detrimento ao bem maior da nação. Que os 25 anos sem Chico não nos deixem esquecer sua vida e seu legado, revigorem nossos ânimos e aumentem a força da nossa resistência. Leia mais >

  • CNPE? O quê?

    Postado por Marina Yamaoka - 19 - dez - 2013 às 15:33

    Nota endereçada ao ministro Edson Lobão, do Ministério de Minas e Energia, pedindo que as duas vagas destinadas à sociedade civil no Conselho fossem preenchidas.

     

    CNPE, Conselho Nacional de Política Energética. Poucos brasileiros já ouviram falar dessa sigla e ainda menos sabem o que ela significa. Mas não saber o que essa parte importante do Ministério de Minas e Energia faz não é a pior notícia. O que é realmente ruim é que há vagas previstas para um membro da sociedade civil e uma outra para um representante de universidade brasileira, e que no entanto, continuam vagas há anos.

    Nesta terça-feira, 17 de dezembro, o CNPE se reuniu. E para mostrar o descontentamento com a falta de transparência neste órgão, 41 organizações, entre elas o Greenpeace, assinaram uma nota endereçada ao ministro Edson Lobão, do Ministério de Minas e Energia, pedindo que as duas vagas destinadas à sociedade civil fossem preenchidas.

    Além disso, a nota questionou a forma como o Conselho orienta sua atuação. As diretrizes previstas na legislação brasileira mencionam a proteção ao meio ambiente, a identificação das soluções mais adequadas para o suprimento de energia elétrica e o estabelecimento de programas específicos como para os biocombustíveis, a energia solar, a energia eólica e de outras fontes alternativas. 

    No entanto, o que se enxerga na atual política energética brasileira, estabelecida e operacionalizada pelo CNPE, é que este não considera as consequências sociais e ambientais dos projetos, conflitando com as próprias diretrizes estabelecidas na legislação. 

    “Queremos deixar claro que não é legítimo, nem lícito o que está acontecendo. O CNPE é uma instituição importante que toma decisões estratégicas sobre a política energética e, portanto, deve estar aberta ao diálogo”, afirmou Ricardo Baitelo, coordenador da Campanha de Clima e Energia do Greenpeace Brasil. Leia mais >

131 - 140 de 2686 resultados.