Greenblog

Notas sobre o meio ambiente em tempo real.

  • 5 coisas que você precisa saber sobre os Corais da Amazônia

    Postado por Diego Gonzaga - 21 - mai - 2018 às 14:30

    Depois de 40 dias de expedição científica, o que descobrimos sobre esse ecossistema que não para de nos supreender.

    Já faz tempo que assumimos aqui nosso crush pelos Corais da Amazônia. E nossa segunda expedição para estudá-los e vê-los debaixo d'água acabou há alguns dias. A conclusão é que esse caso de amor só aumenta conforme conhecemos esse ecossistema mais e mais. 

    No começo de abril, o navio Esperanza chegou ao Brasil e nosso time embarcou com muitas perguntas sobre os Corais da Amazônia. Por 40 dias, navegamos em um mar agitado e enfrentamos um clima hostil na costa norte do Brasil e da Guiana Francesa. Todo o esforço valeu a pena. Voltamos para casa sabendo muitos segredos dos Corais.

    1. Os Corais da Amazônia são maiores do que imaginávamos

    Imagem dos Corais da Amazônia na Guiana Francesa (©Greenpeace)


    Os primeiros estudos sobre o ecossistema estimavam que sua área era de 9,5 mil quilômetros quadrados. Mas o artigo publicado em abril, e fruto da nossa expedição de 2017, mostra que estávamos subestimando esse tamanho: Os Corais da Amazônia podem ter 56 mil quilômetros quadrados – o tamanho do estado do Rio de Janeiro. Isso é seis vezes mais do que a primeira estimativa.

    2. Há Corais da Amazônia dentro de um dos blocos da Total

    Imagem dos Corais da Amazônia dentro de um dos blocos de exploração da empresa Total (©Greenpeace)


    O plano da petrolífera francesa Total, de explorar petróleo perto dos Corais da Amazônia, sempre foi um absurdo. E agora que sabemos que o recife é maior do que imaginávamos, a ameaça também cresceu. Com o navio Esperanza, fomos até um dos blocos em que a empresa pretende perfurar e descobrimos que ali existe uma formação recifal. Nosso achado invalida o Estudo de Impacto Ambiental da empresa, que afirmava que a distância do recife mais próximo até a área de perfuração era de 8 quilômetros. Até o Ministério Público Federal do Amapá recomendou que o Ibama não deixe a Total começar a explorar petróleo ali.

    3. Os Corais da Amazônia se estendem até a Guiana Francesa

    Recife similar aos Corais da Amazônia encontrado na Guiana Francesa (©Greenpeace)


    Nós também não sabíamos até agora que os Corais da Amazônia iam tão longe! Provamos que há uma formação de recifes similar aos Corais da Amazônia no nosso país vizinho Guiana Francesa. Quando mergulhamos com nossas câmeras ali, descobrimos um fundo do mar cheio de vida! Isso mostra o quão especial é esse ecossistema. Se a Total explorar petróleo na costa do Brasil e um vazamento acontecer, há chances de que o óleo alcance as águas da Guiana Francesa, ameaçando uma parte do recife que ainda mal conhecemos.

    4. Um vazamento de petróleo na região seria devastador

    Várias esponjas encontradas na área norte do recife dos Corais da Amazônia. (Foto: ©Marizilda Cruppe/Greenpeace).

    Descobrir tudo isso não foi fácil. As condições climáticas na região dos Corais e as fortes correntes do mar ali foram grandes desafios de nossa expedição. Demoramos dias para conseguir usar nossas ferramentas e registrar o setor norte do recife. Se estar com um grande navio e fazer imagens é difícil naquela região, imagine conter uma mancha de petróleo vazando no meio do oceano?

    5. O número de defensores dos Corais da Amazônia só aumenta

    Equipe a bordo do navio Esperanza para a expedição aos Corais da Amazônia, na costa norte do Brasil. (Foto: ©Marizilda Cruppe/Greenpeace)

    A melhor parte dessa nossa incrível jornada é saber que não estamos sozinhos. Mais de 2 milhões de pessoas ao redor do mundo estão falando para a Total ficar longe desse lugar incrível. E não vão desistir até que os planos de perfuração ali sejam finalmente cancelados. Nossa petição continua se disseminando e, se você já assinou, compartilhe com seus amigos.  Leia mais >

  • 5 curiosidades sobre o Esperanza...

    Postado por Juliana Costta - 15 - mai - 2018 às 16:34 1 comentário

    ...e bastidores da expedição pelos Corais da Amazônia.

    O navio Esperanza é o maior e mais veloz navio do Greenpeace. Ele está chegando em Belém para abrir suas portas para a população da cidade, e esse navio traz curiosidades a bordo.

    1. Você sabia que o nome original era Echo Fighter? 

    Echo Fighters, que até dá para traduzir como lutadores do eco (Hã?), era o nome do navio quando o compramos, no início dos anos 2000. Até decidir o nome que teria, as pessoas a bordo pintaram por cima do H e ficou Eco Fighters (Lutadores do Meio Ambiente, em tradução completamente livre, tá?). Enquanto isso, no mundo acontecia uma enquete com cyberativistas do Greenpeace para definir o novo nome. O escolhido é o que desde 2002 percorre os 7 mares. Vai que vai, Esperanza!

    2. É um navio cheio de aventuras

    Para além das diversas campanhas que fez pelo Greenpeace ao redor do mundo - como protestos contra agrotóxicos, campanha em defesa pelas baleias e contra a destruição florestas - antes o navio era usado pela Marinha Soviética para combater incêndios.

    3. Moana: dá sorte ou azar?

    Moana é essa boneca. Ela foi resgatada do mar pela tripulação quando o navio esteve na costa de Serra Leoa, no ano passado. Hoje ela vive no Poop Deck, também conhecido como convés da Polpa. Algumas pessoas têm medo dela, outras acreditam que ela dá sorte – é meu caso. Tanto, que até fiz esse vestido com uns panos que achei no navio.

    O que você acha? Ela dá sorte ou azar?

    4. Trabalho duro mas com momentos divertidos

    Na expedição pelos Corais da Amazônia que acabamos de fazer, acordávamos cedo e dormíamos tarde para dar conta de todas as tarefas a bordo. Mesmo cansados, ainda conseguíamos dar risadas dos nossos erros. Gravamos muitos vídeos com o porta voz da campanha, o Thiago Almeida. Em um dos vídeos, combinamos de começar diferente. E esse foi o resultado

    5. Fazer uma foto não é tão fácil quanto parece

    Foto: Marizilda Cruppe/Greenpeace

    Queríamos fazer uma foto especial na proa do navio com todo mundo a bordo, mas a previsão do tempo parecia discordar do nosso desejo. As ondas altas não deixavam que ninguém ficasse parado ali nem por 10 segundos, imagina por 10 minutos. Conseguimos só no quarto dia de tentativas! Para subir no mastro, ativistas precisaram de um empurrãozinho. Eu e mais 2 ativistas subindo no ombro de dois marinheiros, que nos içaram e nos ajudaram a alcançar o apoio no mastro (Corta cena). Afinal, mesmo com ondas menores, o navio ainda balançava demais.  Leia mais >

  • Descobrimos Corais da Amazônia na Guiana Francesa

    Postado por Thaís Herrero - 11 - mai - 2018 às 11:00 1 comentário

    Cientistas a bordo do navio Esperanza descobriram que os Corais da Amazônia se estendem até a Guiana Francesa! É hora de o Brasil e a França unirem forças para defender esse ecossistema único.

    Depois de uma semana de intensa “caça ao recife”, no agitado mar da Guiana Francesa, a tripulação e os cientistas a bordo do nosso navio Esperanza estão felizes em anunciar o fim da investigação. E eles têm uma notícia maravilhosa:

    Nas águas da Guiana Francesa existe uma estrutura recifal semelhante ao que conhecemos no Brasil e chamamos de Corais da Amazônia!

    Imagem dos Corais da Amazônia na Guiana Francesa, feita durante expedição com o navio Esperanza (Foto: ©Greenpeace)

    Durante o mês de abril, o Esperanza esteve na costa norte do Brasil para documentar o recife dos Corais da Amazônia. Esse ecossistema é único no mundo e foi descoberto há pouco tempo. Os Corais da Amazônia ainda são um mistério para a ciência: eles sobrevivem em condições bem adversas, perto do encontro do oceano Atlântico com o rio Amazonas.

    Como a mãe natureza não conhece fronteiras, o Greenpeace quis verificar se esse tesouro natural se estende até águas vizinhas ao Brasil, como as da Guiana Francesa.

    Apesar do clima desfavorável e das correntes muito fortes, a tripulação e os cientistas a bordo trabalharam incansavelmente para enviar intrigantes instrumentos para espionar e dragar o fundo do mar.

    Marinheira prepara instrumento que faz imagens no fundo no mar, na Guiana Francesa, durante expedição do Greenpeace. (Foto: ©Marizilda Cruppe/Greenpeace)

     Todos os dados coletados foram cuidadosamente analisados. E eles concluíram que tinham evidências suficientes para confirmar a presença de um recife que faz parte dos Corais da Amazônia.

    Essa é uma bela descoberta para a ciência, para a biodiversidade e para a herança ambiental da Guiana Francesa. E é uma má notícia para a Total, a empresa francesa que quer buscar petróleo perto do recife no Brasil.

    Outras descobertas

    A expedição do Esperanza no Brasil também provou a existência de uma formação recifal dentro da área onde a Total pretende perfurar.  A empresa falhou (consciente ou inconscientemente) em fornecer ao governo brasileiro essas informações antes.

    Em caso de um derramamento de óleo em águas brasileiras, o recife pode ser afetado, bem como as comunidades costeiras cuja sobrevivência depende de um oceano saudável. Além disso, as correntes marinhas da região podem levar o petróleo até a costa e as águas da Guiana Francesa, afetando também as águas, o recife e a costa da Guiana.

    >> Relembre a jornada em defesa dos Corais da Amazônia 

    Esperamos que essas revelações convençam o governo brasileiro a negar a licença para a Total buscar petróleo na região. E que os governos francês e brasileiro unam forças para defender esse ecossistema único. Mais de 2 milhões de pessoas já assinaram a petição exigindo que não haja exploração de petróleo perto dos Corais da Amazônia.

    Agora, é hora de os Corais da Amazônia serem estudados, não ameaçados pelo petróleo! 

    Na Guiana Francesa, peixes nadam na região onde estão recifes similares aos dos Corais da Amazônia (Foto: ©Greenpeace) Leia mais >

     
  • Quer conhecer o navio Esperanza?

    Postado por Juliana Costta - 9 - mai - 2018 às 15:28

    Nos dias 19 e 20 de maio, suba a bordo do maior navio do Greenpeace e conheça mais sobre os Corais da Amazônia, ecossistema único e já ameaçado pelo petróleo.

    Com seus 72 metros de comprimento e mais de duas mil toneladas, nosso grande navio abrirá as portas para te receber na Estação das Docas, em Belém – PA. Você fará parte de uma experiência única na qual aprenderá mais sobre os Corais da Amazônia, desde quando eles foram revelados até agora. Nosso navio acabou de voltar de uma expedição científica no norte do Brasil e na Guiana Francesa e você terá a chance de visitá-lo e saber como foi essa aventura.

    A visitação é gratuita. Para conhecer o navio, realize o pré-cadastro aqui para podermos recebê-lo melhor: Leia mais >

     

    Este é o mesmo navio que, no ano passado, fez as primeiras imagens dos Corais com a ajuda de um submarino. Neste ano, o Esperanza estremeceu os planos da Total ao revelar que há estruturas recifais em uma das áreas de interesse de perfuração da petrolífera.

    Já somos 2 milhões de defensoras e defensores dos Corais da Amazônia que dizem não aos planos de exploração de petróleo na Bacia da Foz do Amazonas. Obrigado por se juntar a nós. Aproveite a oportunidade agora e traga novas pessoas para conhecer o nosso trabalho. Te esperamos em Belém!

  • A cada dia que passa, fica mais constrangedor para a Total manter seus planos de perfurar perto dos Corais da Amazônia. Mas a petrolifera francesa já foi longe demais, e precisamos detê-la antes que seja tarde. Por isso, é preciso que o mundo todo conheça os 5 principais fatos da empresa, que provam ser:

    #VergonhaTotal

    1. Dois milhões de defensores contra os planos da Total 

    Sim! Dois milhões de pessoas aderiram a este movimento global pedindo a proteção do recife na bacia da foz do rio Amazonas. Elas estão dizendo à Total para cair fora dos Corais da Amazônia. Isso é mais do que OITO vezes a população da Guiana Francesa! Não é algo que possa ser ignorado por uma empresa que presa  por sua reputação, certo?

    Falando da Guiana Francesa, a região pode sofrer as conseqüências de um derramamento de óleo se a Total continuar com seus planos de perfuração próximo ao recife. Nosso navio Esperanza está agora a caminho deste território que pertence à França para revelar mais segredos sobre os Corais da Amazônia... fique ligado!

     

    Mais de 500 pessoas, coordenadas pelo artista John Quigley, formam uma imagem de 100 metros na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro. Foto: Fernanda Ligabue/Spectral Q/Greenpeace

     

    Mensagem ao Ibama e à Total em atividade realizada em São Luís, no Maranhão © Cynthia Carvalho / Greenpeace

     

    2. A ciência, as comunidades locais e o MPF também estão contra

    A comunidade científica, as comunidades locais e até mesmo o Ministério Público Federal (MPF) recomendaram a interrupção de qualquer plano de perfuração de petróleo perto dos Corais da Amazônia.

    E eles sabem do que estão falando. Grandes nomes como a oceanógrafa americana Silvia Earle, o climatologista brasileiro Carlos Nobre e o economista indiano Pavan Sukhdev assinaram uma carta no ano passado expressando sua preocupação com os riscos da exploração de petróleo perto dos Corais.

    O professor doutor em Biologia Marinha da Universidade Federal Fluminense, Carlos Eduardo Leite Ferreira, entregou aos técnicos do Ibama a carta aberta em defesa dos Corais da Amazônia, como representante dos cientistas do mundo todo que assinaram o manifesto pedindo a proteção deste novo e único bioma. Foto: João Laet / Greenpeace

     

    As comunidades locais e lideranças indígenas de Oiapoque, Suriname e Guiana Francesa também levantaram a voz e se opuseram publicamente aos projetos de exploração de petróleo na bacia da foz do Amazonas. E sim Total, isso inclui seu projeto. Daremos mais notícias sobre isso em breve...

    E por último, mas não menos importante, algumas semanas atrás, um promotor do Ministério Público Federal no Amapá recomendou ao Ibama que a licença de perfuração para a Total fosse negada.

    É uma #VergonhaTotal que todos os especialistas se oponham aos seus planos. Total, agora é hora de recuar dos Corais da Amazônia!

    Ativistas do Greenpeace protestam com uma mancha de óleo gigante em frente ao escritório da Total, no Rio de Janeiro. Foto: Fernanda Ligabue/Greenpeace

     

    3. A Total não tinha ideia do tamanho dos Corais da Amazônia 

    Estudos recentes sugerem que o recife pode ter até 56.000 km2,, maior que o estado do Rio de Janeiro e quase 6 vezes mais que a estimative inicial de 9.500 km2... e a Total não sabia disso, não incluiu o tamanho em sua avaliação de impacto ambiental. Mas de alguma forma, eles ainda pretendem perfurar petróleo.

    Pode me chamar de louca, mas para mim é uma #VergonhaTotal pretender perfurar em um lugar que você conhece tão pouco.

     

     

    4. Há corais em um dos blocos de perfuração de petróleo da Total!

    A notícia ganhou o mundo! Mais de 30 países estão falando sobre isso, um fato que pode mudar tudo. O Ibama está prestes a tomar uma decisão em breve. A Total deve lembrar que esta é a última chance de conseguir a licença ambiental para perfurar perto dos Corais e o fato de a petrolífera ignorar a existência do recife na sua area de exploração invalida o processo de iniciar suas operações.

    Ok Total, entendemos, você é uma especialista em aplicar o princípio da precaução, só que não. Ninguém confia mais em você! #VergonhaTotal

    Banco de rodolitos coberto por algumas esponjas-do-mar dentro do bloco FZA-M-86, onde a empresa Total quer buscar petróleo. ©Greenpeace

      

    5. A ganância pelos lucros acima da proteção dos Corais da Amazônia

    Apesar de passar a saber de todas essas novas informações, a Total não desiste de seus planos. A empresa não se importa com a incrível beleza dos Corais da Amazônia, nem com quão especial, único e sensível esse ecossistema é. Ela só se preocupa com seus lucros.

    Mas cada passo que fazemos para conhecer e mostrar esse tesouro natural para o mundo está dificultando os planos da petrolífera. 

    Essas imagens agora são conhecidas em todo o mundo e a beleza dos Corais da Amazônia é a maior #VergonhaTotal de todos os tempos!

    Coral-mole e ao menos seis tipos de esponjas-do-mar são observados a 90 metros de profundidade, na área norte do recife dos Corais da Amazônia. ©Greenpeace

     

    Conjunto de esponjas-do-mar, estrela cesto e um peixe mariquita (Holocentrus adscencionis) ©Greenpeace

     

    Formação de rodolitos (algas calcárias) na região sul dos Corais. Leia mais >

     

    Ajude a defender os Corais da Amazônia! Divulgue esses fatos vergonhosos para tornar essa #VergonhaTotal algo impossível de ser ignorado! 

  • Diário de bordo: Guardiã do Esperanza

    Postado por Juliana Costta - 29 - abr - 2018 às 12:10

    A emocionante experiência de estar atenta a todos os detalhes dentro de um navio de expedição

     

    Foto ©Marizilda Cruppe / Greenpeace

     

    A tripulação do navio Esperanza se desdobra para manter o navio funcionando: limpar, colocar botes e equipamentos na água, como o robô submarino e o sonar, e fazer rondas e guardas noturnas para averiguar que está tudo seguro. Tudo isso garante que a expedição científica, que já revelou Corais da Amazônia em um bloco de exploração de petróleo da Total, e fez novas imagens, continue seguindo com suas descobertas. 

    O navio Esperanza está em clima de pesquisa científica e a equipe do escritório entrou no clima do navio. Para ajudar em todo o trabalho por aqui, eu e Thais, da comunicação do Greenpeace, nos voluntariamos a fazer as guardas. 

    Eu escolhi o horário das 20h às 24h e das 8h às 12h. A Thaís, das 4h às 8h e das 16h às 20h. Durante a manhã, damos apoio aos oficiais na ponte de comando e ajudamos no que for necessário no convés, como fazem os marinheiros e marinheiras. 

    À noite, nosso trabalho muda bastante. De hora em hora, temos que fazer rondas de segurança por todos os lugares do navio. Checamos se os botes estão bem amarrados no convés; se nada na sala de máquinas está pegando fogo; ou se existe algum vazamento de água ou combustível; se as portas estão fechadas e luzes apagadas. Também temos que checar se as baterias que geram eletricidade estão funcionando e se dentro das salas de estocagem de comida e materiais o balanço do navio não espalhou caixas e objetos pelo caminho.  

    Meu turno poderia ter sido um dia normal, mas – graças às deusas – foi bem emocionante. Dois botes (o Rhyno e a African Queen) estavam operando no mar e chegariam antes do anoitecer. Era colocá-los de volta no barco e pronto.

     

    Foto ©Marizilda Cruppe / Greenpeace

     

    Mas você sabe como são os planos a bordo? Eles sempre mudam. Um dos botes teve uma pequena falha elétrica, e os dois que estavam nor mar tiveram que aguardar outros dois irem a seu encontro com engenheiros, eletricista, marinheiros e oficiais. 

    Horas depois, os engenheiros consertaram o bote. SIM, consertaram o bote no meio do oceano, com o balanço das águas e sol se pondo.

    Enquanto isso, eu estava na ponte de comando fazendo a guarda com o capitão e acompanhando toda a situação. Parecia filme, juro! Botes se comunicando entre eles via rádio. “RHYNO, AFRICAN QUEEN estamos finalizando o concerto, se preparem para o retorno” disse uma voz. E se comunicando com a ponte. “Ponte, aqui é o African Queen. Estamos prontos para voltar ao Esperanza”. 

    Mal vi o tempo passar e já era hora de fazer a ronda e checar se tudo estava dentro dos conformes. Vinte minutos de inspeção e, sim, tudo certo. Voltei para a ponte.

    Os quatro botes estavam retornando, mas ainda distantes a cerca de 8 milhas. O Esperanza não poderia chegar perto sem encalhar porque estávamos próximos do rio Oiapoque. Luzes foram acesas por todo o navio para ajudar a guiar os botes até nós. Quando vimos todos voltando, respiramos alíviados por mais uma missão cumprida. Todos se abraçaram felizes de que tudo tinha ocorrido com tranquilidade e estava resolvido. Depois de mais de dez horas na água, a equipe estava faminta e cansada. E foram recebidos com um jantar delicioso preparado especialmente para eles.

    A vida voltou ao normal e já eram 23h30. Hora de acordar a Thaís e entregar o meu posto a ela: passar o radio para se comunicar com a ponte durante as rondas e explicar o que aconteceu no meu turno. Boa sorte, Thaís. E bom dia a todos, são 00:01 e amanhã recomeço às 8h meu outro turno. Eu vou dormir.

    Juliana Costta é do time de comunicação do Greenpeace e está a bordo do navio Esperanza Leia mais >

  • Um mundo de bactérias no fundo do oceano

    Postado por Juliana Costta - 27 - abr - 2018 às 14:30

    A bordo do navio Esperanza, cientistas estão estudando até mesmo os micro-organismos que habitam a região dos Corais da Amazônia

     

    Cultivo de colônias de bactérias feito a partir da água coletada na região dos Corais da Amazônia. Cientistas estudam as espécies e seu potencial aproveitamento para a biotecnologia. Foto: Marizilda Cruppe/ Greenpeace

     

    Esta foto aí em acima pode ser a de uma nova espécie de bactéria. E, quem sabe, a chave para algum remédio que a humanidade ainda busca.  As bactérias habitam este mundo há mais de 4 bilhões de anos – surgiram depois que o nosso planeta esfriou. Elas estão por toda a parte – dentro do seu estômago até em cada folha de árvore da floresta amazônia. E de toda essa diversidade de micro-organismos, conhecemos menos de 1%. 

    Esta colônia de bactérias foi coletada nas águas que banham o recife dos Corais da Amazônia, durante nossa expedição a bordo do navio Esperanza. A bordo temos marinheiros, ativistas e cientistas. Entre os cientistas, três trabalham com microbiologia na Universidade Federal do Rio de Janeiro: o professor e doutor Fabiano Thompson, a mestre Maria Nóbrega e a estudante de graduação Thamyres Freitas.  A missão deles é analisar as bactérias presentes nas águas da região dos Corais da Amazônia, nas mais diversas profundidades e áreas.

    Identificar e analisar o potencial biotecnológico de cada espécie ou tipo de bactéria é um trabalho minucioso e os resultados podem demorar até dois anos. Foto: Marizilda Cruppe/ Greenpeace

     

    Em uma rápida conversa com Maria, ela me contou porque está aqui: “Vim estudar a comunidade de micróbios que vivem tanto da água quanto associada nos seres marinhos aqui da região. Maria e a estudante Thamyres prepararam as placas de petri no início da expedição e os resultados são essas fotos das bactérias.

    Essas bonitezas serão levadas para o laboratório da UFRJ. Lá elas serão separadas, porque pode haver mais de um tipo de bactéria na placa, e serão identificadas. 

    Maria Nóbrega, microbiologista da Universidade Federal do Rio de Janeiro, prepara amostras de água para cultura de bactérias. Foto: Marizilda Cruppe/ Greenpeace

     

    Em entrevista ao jornal britânico The Guardian, o professor Fabiano falou sobre a riqueza que existe nesse fundo do mar. “Os Corais da Amazônia podem ser uma grande farmácia debaixo d’água” afirma. 

    É por isso que o Greenpeace apoia a pesquisa científica. Esta expedição mostra a importância da ciência para o Brasil e o quanto ela pode trazer benefícios para todos. Precisamos defender os Corais da Amazônia da ganância das petrolíferas! Leia mais >

    Seja uma defensora ou defensor dos Corais!

  • 26 anos de Greenpeace Brasil e milhares de atos de coragem

    Postado por Greenpeace - 26 - abr - 2018 às 16:20

    Nosso muito obrigado a todos que nos ajudam nessa árdua e gratificante defesa do nosso planeta

    No dia 26 de abril de 1992, um grupo de ativistas a bordo do mítico Rainbow Warrior. fincou 800 cruzes no pátio da Usina Nuclear de Angra, no Rio de Janeiro, simbolizando os mortos no acidente radioativo de Chernobyl. O protesto marcava o início oficial das atividades do Greenpeace no Brasil.

     

    Nesses 26 anos muita coisa aconteceu. Abrimos nosso escritório em Manaus para dar suporte a nossa campanha de Amazônia. Crescemos na quantidade de apoiadores, que ajudam a manter nossa independência e ações. Hoje estamos caminhando para os 90 mil doadores e temos mais de 3 mil voluntários atuantes em todo o país, incluindo 13 Grupos Locais.

    Historicamente, tivemos importantes vitórias, como a proibição de importação de lixo tóxico, a Moratória da Soja, a proteção do rio Tapajós, entre muitas outras. Nosso último ano de atuação, em especial, foi muito intenso. A mobilização de tanta gente em causas tão importantes nos enchem de orgulho:

    Em maio de 2017 - O mundo saiu em defesa dos Corais da Amazônia

    Ansiosos para defender os Corais da Amazônia, centenas de voluntários ao redor do mundo se mobilizaram num final de semana para mostrar que esse bioma único no mundo deve ser defendido da ganância das petrolíferas. Do Rio de Janeiro a Luxemburgo, o mundo ouviu falar dos Corais da Amazônia.

    © Bruno Leão / Greenpeace

     

    Em setembro de 2017, mostramos à Total que óleo na casa dos outros não é refresco

    Mesmo com o Ibama rejeitando pela terceira vez seu Estudo de Impacto Ambiental, a petrolífera Total ainda não desistiu dos seus planos de explorar petróleo na região dos Corais da Amazônia. Para colocar ainda mais pressão na empresa, nossos ativistas simularam um derramamento de petróleo na frente de seu escritório no Brasil. Junto com a mancha, um drone levou para o 19º andar (onde está o escritório da Total) uma mensagem bem clara para os funcionários: "Fique longe dos Corais da Amazônia."

    Fernanda Ligabue/Greenpeace

     

    Neste mesmo mês, também conseguimos evitar a extinção da Renca

    Num grande esforço coletivo de mobilização pública da sociedade e várias organizações, que ficou conhecido como Todos Pela Amazônia, conseguimos fazer o Governo Temer voltar atrás e não ceder às mineradoras a Reserva Nacional de Cobre e Associados (Renca),um pedaço da floresta amazônica do tamanho da Dinamarca!

    Foto: Fabio Nascimento/ Greenpeace

     

    Em outubro de 2017, mostramos como nossa comida está cheia de veneno

    Nosso time de pesquisa e campanha se debruçou em um importante trabalho: verificar a quantidade de agrotóxico presente em muitas das frutas e legumes que ingerimos, e a quantidade de veneno observada é assustadora. Muitas substâncias estão acima dos níveis permitidos e algumas são inclusive proibidas.

    Em novembro de 2017, denunciamos a madeira manchada de sangue

    Em ação para homenagear 251 pessoas mortas no campo por defender as florestas do Brasil até 2016, ativistas fincaram o mesmo número de cruzes na frente do Congresso Nacional. Ao mesmo tempo, o relatório "Madeira Manchada de Sangue" foi lançado para denunciar um sistema falho de licenciamento e controle da cadeia produtiva de madeira que permite uma série de fraudes.

    © Lucas Sobral / Greenpeace Leia mais >

     

    Em janeiro deste ano, conseguimos garantir metas de redução de poluentes nos ônibus de São Paulo

    A poluição pela queima de diesel dos coletivos da maior cidade do País está associada à morte de mais de 4000 pessoas todos os anos. Graças a uma intensa mobilização e negociação, conseguimos garantir que a próxima licitação do transporte público estabelecesse metas de reduções de poluentes para os ônibus e multas para as empresas que não cumprirem.

    Mas o importante é olhar para a frente, pois há muitas outras que precisam ser conquistadas. Hoje mesmo, estivemos em Brasília na Marcha dos Povos, defendendo o direito de os povos indígenas terem suas terras demarcadas e protegidas.

    A todos que nos acompanham, nos apoiam e participam conosco dessas causas tão importantes para a natureza e as pessoas, o nosso mundo obrigado.

     

  • Desvendando o setor norte dos Corais da Amazônia

    Postado por Thais Herrero - 23 - abr - 2018 às 11:10 1 comentário

    Durante nossa expedição científica, vimos imagens da região dos Corais que é a menos conhecida pela ciência, porém, a mais ameaçada pela exploração petrolífera

     

    Coral-mole e ao menos seis tipos de esponjas-do-mar são observados a 90 metros de profundidade, na área norte do recife dos Corais da Amazônia ©Greenpeace

     

    Continuamos navegando pelo extremo norte dos mares do Brasil, a 135 quilômetros da costa do Oiapoque – o famoso ponto onde começa ou termina– nosso país; e a 90 metros de profundidade. Foi ali que encontramos uma boa amostra da biodiversidade que marca o recife dos Corais da Amazônia.

    Fomos recebidos em nosso mergulho por peixes como o mariquita, corais (como o coral-negro e o coral-mole) e esponjas-do-mar. Aliás, são tantas, de tipos, cores e formas variadas, que podemos definir a área como um “recife de esponjas”.

    Conjunto de esponjas-do-mar, estrela cesto e um peixe mariquita (Holocentrus adscencionis) ©Greenpeace

     

     

    Agregação de esponja com briozoário rosa e alguns hidrozoários, invertebrados que formam colônias ©Greenpeace

     

    Enquanto nosso veículo remotamente operado (ROV, na sigla em inglês) desbravava profundezas do Atlântico nunca vistas antes, nós a bordo do Esperanza acompanhávamos cada detalhe pelo monitor, na transmissão ao vivo do robô. Foi como acompanhar um desfile de carnaval, pelo encantamento visual. Sua chegada ao fundo do mar foi muito comemorada por todos e, quando a missão se encerrou e ele retornou com sucesso, a emoção não foi contida nos abraços.

    Por mais de uma hora, vimos imagens que confirmavam o que a ciência e nós todos já sabemos: os Corais da Amazônia são um ecossistema incrível, especial, diferente do que já conhecemos e que por isso deve ser defendido da ganância das empresas petrolíferas que querem perfurar na região.

     

    Recife em mancha, com diversas espécies de esponjas-do-mar e estrelas do mar ©Greenpeace

     

    Maior do que se esperava

    Esta expedição científica de 45 dias, com seis cientistas e vários equipamentos de ponta a bordo para mapeamento de relevo, coleta e análise de amostras entre outros dados, também tem o objtivo de aumentar nosso conhecimento sobre os Corais. Uma informação importante é a confirmação de que o tamanho do recife é bem maior do que se esperava. 

    Até 2017, a estimativa dos Corais da Amazônia era de que ele se estendia por uma área de 9,5 mil quilômetros quadrados. Mas um novo estudo produzido a partir da primeira expedição que realizamos no ano passado, e publicado na revista científica Frontiers in Marine Science, confirma que essa área é, na verdade, de 56 mil quilômetros quadrados, ou seja, quase seis vezes maior do que se pensáva, tornando-o um dos maiores recifes do Brasil – e nós estamos comprovando isso agora!

     

    Registro de coral-negro junto a esponjas-do-mar (Cinachyrella halientela) ©Greenpeace

     

    O setor norte do recife é um lugar ainda mais especial: é onde os cientistas tiveram menos tempo para estudar, apesar de ser a região na qual o rio Amazonas exerce maior influência. A mistura de água doce replete de sedimentos com a água salgada do mar cria uma área com características próprias onde só os Corais da Amazônia conseguem sobreviver. Da Ponte de Comando do Esperanza, de onde temos uma visão privilegiada do navio, é possível notar como o mar aqui é azul escuro e, em dias de sol forte, ver a linha que divide a água do mar daquela misturada com a pluma do rio.

     

    Conjunto de esponjas-do-mar e algas encontrados a 90 metros de profundidade ©Greenpeace

     

    Ameaça do petróleo

    O conhecimento aqui é a chave para entendermos o possível impacto de um vazamento de petróleo. O setor norte dos Corais da Amazônia é a área mais ameaçada pois nas suas proximidades estão os cinco blocos que a empresa francesa Total quer perfurar. Se esta companhia conseguir dar início a esse plano insano, colocará em risco a existência dos Corais e o bem-estar de toda a vida marinha que habita essa região.

    Nesta expedição também estamos estudando as características da água do mar, sua temperatura, os microorganismos que a habitam e como as correntezas se comportam. Esse trabalho é crucial para que possamos prever o que aconteceria com uma tão temida mancha de petróleo, caso as empresas conseguissem a licença de operação. 

    Lançamento do sonar, um dos equipamentos utilizados para mapear o leito marinho em busca do recife ©Marizilda Cruppe

     

    “É um risco grande quando consideramos a rota e a força das correntezas, que espalhariam o óleo por esse setor. As chances de o petróleo chegar aqui, em caso de um vazamento, são altas”, diz Thiago Almeida, do Greenpeace Brasil, representante da campanha Defenda os Corais da Amazônia. “Só pela dificuldade que estamos tendo em colocar o ROV na água para fazer imagens, fica difícil imaginar como as petrolíferas podem acreditar que conseguiriam conter um derramamento de petróleo aqui”, completa.

    O segredo dos Corais da Amazônia

    Dias atrás, divulgamos a grande descoberta desta expedição: os Corais da Amazônia se estendem até um dos blocos da petrolífera Total. Isso invalida o Estudo de Impacto Ambiental da empresa, que afirmava que a área de recife mais próxima ficava a 8 km, e dá mais argumentos para que o Ibama e o governo brasileiro rejeitem a exploração de petróleo na bacia da foz do rio Amazonas.

    O navio Esperanza em águas brasileiras durante a expedição científica na bacia da foz do rio Amazonas ©Marizilda Cruppe

     

    Até o Ministério Público Federal no Amapá recomenda que o Ibama negue a licença para a Total. Em seu documento, o MPF alega que perfurar a área pode “resultar na destruição em larga escala do meio ambiente, configurando ecocídio – crime contra a humanidade sujeito à jurisdição do Tribunal Penal Internacional”.

    Você pode participar deste grande esforço pela defesa dos Corais da Amazônia. Assine a compartilhe a petição e nos ajude a chegar aos 2 milhões de pessoas que querem a proteção desse tesouro natural. Leia mais >

    Assine a petição 

    E para você que já assinou e compartilhou com seus amigos em defesa dos Corais, pode dar mais um passo em direção ao futuro. Não é a primeira nem será a última vez que nossos navios estão a postos para impedir a destruição de nossos tesouros e proteger a biodiversidade. Todo esse trabalho só é possível porque pessoas nos ajudam e você, que está lendo este blog, pode ser uma delas! Junte-se a nós!

    Junte-se a nós

  • 518 anos de resistência indígena no Brasil: o caso emblemático dos Karipuna

    Postado por Patricia Bonilha - 19 - abr - 2018 às 16:00

    No dia em que se celebra o Dia do Índio no país, os povos indígenas não têm o que comemorar. A ofensiva sobre seus territórios e direitos tem sido extremamente dramática. Paradoxalmente, mesmo em um cenário tão adverso, eles continuam sendo fonte de inspiração e resiliência

    Adriano Karipuna em frente a sede da ONU, em Nova York - Foto: Luiz Roberto Lima/ Greenpeace

     

    Tanto no “chão de terra batida” como nos gabinetes dos centros de poder, a realidade enfrentada pelos povos indígenas brasileiros é preocupante e tem sido motivo de reiteradas denúncias tanto no Brasil como internacionalmente. A existência de 305 etnias que falam 274 diferentes línguas, com múltiplas cosmovisões e modos de vidas, é uma das maiores riquezas do Brasil e, infelizmente, continua desconhecida pela maioria de nós, não-indígenas.

    Mesmo diante de tamanha diversidade, se há algo comum em relação aos povos originários do Brasil é o fato de que eles se reconhecem como parte inerente da natureza: eles “são natureza”. Não há separação. A Terra é Mãe. Ela é sagrada. “Nós pertencemos a ela. Ela não pertence a nós”, repetem como um mantra. E, por isso, os diferentes povos indígenas não têm a intenção e nem a prática de controlar, de dominar a natureza. Ao contrário, sentem-se com a missão de protegê-la, de mantê-la viva. Porque “se algo acontecer à Terra, acontecerá aos filhos da Terra”. 

    E é justamente por se colocarem na linha de frente da proteção de seus territórios sagrados e ancestrais, das florestas, dos rios e dos bens naturais neles existentes, que os povos indígenas vêm sendo, historicamente, massacrados. No Brasil de 2018 não é diferente. Dados do último relatório "Violência contra os Povos Indígenas no Brasil", publicado pelo Conselho Indigenista Missionário, mostram que a maioria das terras indígenas continua sofrendo com grilagem de terras, roubo de madeira e de minérios, invasões, aumento das ameaças, dos conflitos e da violência, perda de biodiversidade e o crescimento de mortes na infância, de suicídios e de homicídios. 

    As três esferas de poder, Judiciário, Legislativo e Executivo , que constitucionalmente deveriam assegurar a existência e a proteção dos territórios e dos povos indígenas, têm atuado de forma a legitimar a exclusão dos indígenas de suas terras tradicionais. Exemplos da retirada de direitos constitucionais duramente conquistados não faltam: a paralisação e suspensão dos procedimentos demarcatórios; o completo desmonte da Fundação Nacional do Índio (Funai); e a apresentação de projetos de lei que abrem as terras indígenas para diversos tipos de exploração econômica, entre outros. O reflexo imediato dessa política anti-indígena por parte do Estado brasileiro é o aumento exponencial da violência no campo e nas aldeias. Na prática, elas funcionam como licenças do Estado para a apropriação indevida dos territórios e a violência contra os indígenas. 

    Neste sentido, um dos casos mais emblemáticos da atual realidade dos indígenas no Brasil é o do povo Karipuna, que secularmente habita as florestas da Amazônia. Atualmente, com uma população de 58 pessoas, eles moram na aldeia Panorama, a 186 km da capital Porto Velho, em Rondônia. 

    Quase extintos na década de 1970, após um contato traumático com a sociedade não indígena, este povo foi reduzido a apenas quatro sobreviventes. Mesmo tendo a Terra Indígena Karipuna sido homologada há duas décadas, eles continuam ameaçados pelas invasões, pela grilagem, pelo roubo de madeira, pelo garimpo e pela crescente violência. O caso é tão grave que o Ministério Público Federal (MPF) de Rondônia considera que se trata de um caso de genocídio. 

    A liderança indígena Adriano Karipuna, 32 anos, partiu para Nova York no início desta semana para participar do Fórum Permanente da Organização das Nações Unidas (ONU) para Questões Indígenas e denunciar as ameaças e a situação de abandono que seu povo enfrenta. “A gente protege a floresta não só para os indígenas, mas pra todo mundo. Estamos cuidando deste patrimônio. E é preciso que sejam mais responsáveis com nós, os indígenas”, apela ele.

    Adriano denuncia as ameaças ao seu povo no Fórum Permanente da ONU para Questões Indígenas - Foto: Luiz Roberto Lima

     

    Os Karipuna simbolizam atualmente o elo entre um passado que ainda é bastante presente na vida dos povos indígenas no Brasil. Em uma breve entrevista, Adriano explicita que, mesmo diante de muitos desafios, no que depender dos Karipuna, o futuro será diferente. Será pleno de Bem Viver. 

    Conta pra gente um pouco da história do seu povo, que quase foi extinto.

    Sim, nós éramos cerca de 200 pessoas, segundo a minha mãe, Katicá Karipuna, uma das quatro pessoas sobreviventes.  Ela tá idosa. No museu, no Rio de Janeiro, tem informações sobre a história dos Karipuna. Segundo minha mãe, ali pelos anos 70, como não tinha vacina pra imunização pra gripe, malária, e outras doenças, ficamos reduzidos apenas em quatro pessoas. Hoje continuamos um povo pequeno, com 58 pessoas. Mas isso é fruto de muita resistência porque após o contato com os não indígenas, estes quatro Karipuna ficaram sem contato de novo, voltaram pra floresta. Foi assim que sobreviveram.

    Mas o que aconteceu?

    Meu tio diz que teve um envenenamento, parece que aconteceu isso. Falaram que foi muito ruim, como até hoje ainda é. Mataram muito nossos parentes, mataram uma aldeia toda. Só escapou uma aldeia que estava mais distante. Eu nem pergunto mais pra minha mãe e pros meus tios sobre este passado. Eles ficam muito emocionados, com lágrimas nos olhos. É triste. O Estado brasileiro deve muito pros Karipuna. Teve a construção da estrada de ferro Madeira Mamoré, o ciclo da borracha, o ciclo do ouro, a construção das hidrelétricas de Santo Antônio e Jirau... Tudo causando nossa morte social, cultural. A morte dos nossos rios, nossos peixes, vamos ficar sem alimentação em breve.  

    Quais são as ameaças que o povo Karipuna enfrenta em seu território atualmente? 

    Desde 2015, piorou muito. Tão furtando madeira e loteando nossa terra. Vendendo nossa terra porque dizem que não tem dono. Também tem garimpo de ouro na Terra Indígena Karipuna. Não sabemos quantas áreas já foram invadidas porque pode ser perigoso pra nós andar nas nossas terras. Estamos em desvantagem. Há 6 meses foi feita uma operação da Polícia Ambiental e do Ibama contra as invasões. Aplicaram multas pra quem tava com documentos ilegais, pros manejos ilegais dentro da terra indígena. Depois disso, há dois meses, incendiaram o posto da Funai, que tava abandonado. Antes já tinham roubado um equipamento de geração de energia, avaliado em R$ 62 mil. Pra nós, estas ações são muito ameaçadoras. Não estamos andando mais pela estrada, só pelo rio. Mesmo assim é perigoso. Estamos sujeitos a ser assassinados. Queremos que o Estado tire os posseiros, madeireiros e garimpeiros da nossa terra. Precisamos da terra pra poder plantar e viver, do rio pra beber água, dos peixes pra comer. 

    Em Brasília, Adriano e André Karipuna denunciaram ao Ministro da Justiça Torquato Neto a grilagem, o roubo de madeira e a venda de lotes feita por invasores dentro da Terra Indígena Karipuna. Foto: Tiago Miotto/Cimi

     

    Como é a vida na aldeia hoje?

    Lá na aldeia a gente vive da pequena agricultura. Tem mandioca pra venda e pro nosso consumo. Tem farinha, cana, açaí, abóbora. Colhemos a castanha, pescamos, caçamos. Hoje, dezesseis pessoas falam a língua Tupi-Kawahiba. O professor ensina a língua. Fazemos artesanato. Os mais velhos ensinam os mais novos alguns rituais e a cantar. Nós, Karipuna continuamos vivendo com bem viver. A gente quer viver harmonicamente, plantar mais, aumentar a venda pra gerar renda pra comunidade toda viver bem. Sem perturbar a vida de ninguém. Não roubamos nada de ninguém, não invadimos nada de ninguém. Queremos viver em paz na nossa floresta. 

    Qual é o objetivo da sua ida à ONU nesta semana?

    Tá todo mundo com medo na aldeia. Eu já recebi ameaça no passado. Eu tenho medo, porque se juntar centenas de pessoas pra matar a gente, o que vamos fazer? Temos medo de um genocídio, porque tão de olho na nossa terra. O Estado brasileiro tem que retirar este povo todo que invadiu e proteger nosso território e nosso povo. Este é o papel do Estado. E o mundo tem que ficar de olho no povo Karipuna. A gente protege a floresta não só para os indígenas, mas pra todo mundo. Estamos cuidando deste patrimônio. E é preciso que sejam mais responsáveis com nós, indígenas. Estamos pedindo socorro e ajuda pra proteger nosso território, este pedaço da Amazônia. 

    Em um contexto tão difícil, o que vocês pretendem fazer?

    Somos poucos ainda, mas não vamos desistir. Ninguém desiste de proteger sua Mãe. Daremos nossa vida por ela, se for preciso.  Leia mais >

11 - 20 de 3148 resultados.