Sede da Funai queimada em Humaitá (©Alceu Luís Castilho/Pública)

 

No dia de Natal, parte da população de Humaitá, a 675 km de Manaus, incendiou barcos, veículos e instalações da Funai na cidade. Revoltados, moradores culpam os índigenas da etnia Tenharim pelo desaparecimento de três homens na rodovia Transamazônica (BR-230). Segundo a versão que corre na cidade, o desaparecimento seria uma espécie de represália dos índios pela morte do cacique Ivan Tenharim, que teria sofrido um acidente de moto na BR-230.

Os índigenas negam as acusações, mas já foram condenados pela opinião pública. Fatos ainda não apurados passaram a ser tratados como verdade, causando uma verdadeira onda de ódio contra os Tenharim. No juízo da maior parte da população de Humaitá, são eles os responsáveis – mesmo que, até hoje, após buscas da Polícia Federal dentro da Terra Indígena, nenhum dos desaparecidos tenha sido encontrado.

Ameaçados, os indígenas não podem pisar na cidade. Confinados nas aldeias, eles não têm como comprar alimentos e remédios. Enquanto isso, a hostilidade da maioria dos moradores da cidade ocorre sempre no plural, contra todos os indígenas – e não apenas os que acusam de algum crime. Diante desse grave cenário, a permanência da Força Nacional de Segurança em Humaitá foi ampliada por mais 90 dias e a Polícia Federal continua na região para investigar o caso.

O barril de pólvora instalado em Humaitá, no entanto, vai muito além dos fatos que desencadearam a revolta. Entre os combustíveis que jogam mais lenha na fogueira estão a disputa pela terra, a extração de madeira ilegal dentro da Terra Indígena e a cobrança de pedágio por parte dos indígenas na Transamazônica – considerada por eles como uma forma de compensação ambiental pelos danos causados pela construção da BR-230, que passa no interior da reserva e trouxe impactos negativos, como doenças e prostituição.

Reportagem realizada pela Pública, agência de jornalismo investigativo que esteve recentemente em Humaitá, aponta que os conflitos estão ligados aos interesses de pecuaristas e madeireiros, apoiados pelos comerciantes locais. (Leia as reportagens completas aqui). Os índios acusam os madeireiros de roubar toras do interior de suas reservas, ricas em madeira nobre, e sofrem com a falta de governança e com a ausência do Estado na região.

“À frente de conflitos como esse que vemos em Humaitá estão interesses econômicos de grupos, como madeireiros e grileiros, que querem ter acesso e explorar as terras indígenas, cujas riquezas só existem porque são preservadas pelos índios. Este é apenas mais um exemplo do grave retrocesso socioambiental em curso atualmente no país – talvez o mais organizado e sistemático ataque articulados por poderosíssimos grupos econômicos (do agronegócio, do hidronegócio e das grandes corporações do setor de energia e mineração) contra os direitos constitucionais dos povos indígenas e populações tradicionais e da própria natureza”, afirma Tica Minami, da Campanha Amazônia do Greenpeace.