O navio Arctic Sunrise vai ao Ártico para registrar o maior degelo da história (©Daniel Beltrá/Greenpeace)

 

Julienne Stroeve, pesquisadora do Centro Nacional de Dados sobre Gelo e Neve dos Estados Unidos, e Nick Toberg, cientista da Universidade de Cambridge, estão embarcados no Arctic Sunrise para pesquisar o maior degelo da história. Direto do Ártico, eles respondem algumas perguntas sobre a pesquisa que realizarão, a importância do gelo ártico e como o degelo impacta o clima mundial.

O que exatamente vocês foram fazer no Ártico?

Julienne: Eu vou medir a espessura do gelo que é mais importante do que a da extensão do gelo porque revela o volume da perda total. Podemos medir a espessura em diferentes pontos perfurando em uma profundidade de até dois metros. Eu também espero checar os pontos onde o gelo está congelado, onde já se formaram “piscinas” e a temperatura do oceano em diferentes locais.

Nick: Nós também vamos avaliar o impacto das ondas quando estas atingem o gelo. Isso vai nos ajudar a entender como a força das ondas influencia no derretimento do gelo. O gelo em pedaços reflete menos luz do Sol uma vez que os raios são absorvidos pelo oceano e a falta de gelo cria ondas ainda mais fortes que quebrarão mais gelo no futuro.

O que está acontecendo com o gelo este ano?

Julienne: Este ano a quantidade de gelo diminuiu bastante, em alguns lugares chegou a algumas centenas de milhas. Em junho, a extensão do gelo atingiu o nível que deveria atingir em setembro, que é logo após o mínimo ser alcançado durante o ano. É assustador porque o gelo já chegou ao nível mais baixo da história e ainda está derretendo.

Porque este ano o comportamento do gelo está sendo tão diferente? Foi um ano particularmente quente como o de 2007 quando atingimos o recorde anterior?

Julienne: Eu estou espantada com o nível de degelo alcançado este ano. Sabíamos que o gelo estava ficando cada vez mais fino, mas ainda não havíamos percebido a gravidade da questão. Este ano, o clima não foi particularmente quente para incentivar o derretimento, então, deve ser porque o gelo está muito fino. Quando o gelo derrete ele é substituído por um gelo muito mais fino, portanto o rápido derretimento irá continuar nos próximos anos. Se estivéssemos em 2007 o degelo teria sido muito maior.

Nick: Em 2007, as condições climáticas eram perfeitas para o gelo encolher. Em 2011, não tivemos nenhuma condição climática diferente e o gelo esteve perto de atingir o mínimo de 2007. Devido a degelos anteriores, os raios de sol que costumavam ser refletidos pelo gelo têm sido absorvidos pelo oceano, tornando-os mais quentes. Então, uma vez que essa pré-condição existe, no longo prazo temos a tendência de aumentar ainda mais a temperatura. Nós veremos os verões no Ártico sem gelo nenhum durante o resto de nossas vidas.

Quais são as diferentes funções da espessura do gelo (volume) e da extensão do gelo (área de cobertura)?

Julienne: A extensão do gelo é importante para refletir os raios de sol e manter a atmosfera menos quente. Mas quando perdemos volume de gelo, este se torna muito fino e derrete mais facilmente. A diminuição da espessura do gelo é o motivo pelo qual temos a diminuição da extensão do mesmo. A espessura também afeta os ursos polares que não podem usar a área de gelo fino para caçar porque correm o risco de quebrá-lo.

Como podemos saber que o derretimento do gelo é provocado por atividades humanas?

Julienne: Nós sabemos que o aquecimento é causado pelos seres humanos medindo o nível de carbono na atmosfera e rastreando de onde ele vem. Há uma diferença entre o carbono natural da própria atmosfera e o que é produzido pela queima de combustíveis fósseis. É difícil diferenciar entre o aquecimento natural e o que é causado pela atividade humana, no entanto, quando se criam modelos excluindo o CO2 criado pelo homem nenhum deles atinge o nível de aquecimento que temos hoje. Baseado em novos modelos climáticos, estimamos que 60% da taxa de declínio do gelo de verão do Ártico é devido às atividades humanas.

O que podemos esperar a longo prazo?

Nick: Se os 4 milhões de km2 de gelo restantes desaparecerem no verão, isso equivaleria a jogar 20 anos de emissões de CO2 na atmosfera, tendo como padrão o atual nível de emissões.

Julienne: Se continuarmos aumentando a temperatura da atmosfera, o Ártico pode estar completamente sem gelo até 2030. Este ano é importante porque chegamos ao fim do atual modelo climático. Observamos que o gelo está derretendo muito mais rápido do que em qualquer projeção do IPCC.

Quais são os impactos em outras áreas do mundo além do Ártico?

Nick: O gelo funciona como um gigantesco sistema de resfriamento do planeta e a temperatura do globo depende dele. Sem o gelo, não haverá a mesma dispersão de frio e de calor.

Julienne: O Ártico é o ecossistema responsável por definir o padrão climático do hemisfério norte. Águas abertas absorvem calor que é transferido para a atmosfera tornando-a mais quente e alterando o movimento do ar. O vento torna-se mais lento, condições climáticas extremas são prolongadas, fazendo com que os Estados Unidos tenha secas, por exemplo. É muito cedo para ter certeza destes acontecimentos, mas cientificamente eles fazem sentido.

Como você acha que o mundo vai responder aos acontecimentos?

Nick: É perturbador que o planeta já tenha tido suas feições alteradas de um modo em que podemos notar visualmente, mas as pessoas não vão mudar seus hábitos até que elas sejam atingidas no seu dia a dia.

Você também pode nos ajudar a proteger o Ártico. Assine e divulgue você também em www.salveoartico.org.br

 

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