Ativistas pedem mais energias renováveis e o fim da energia suja, em Berlim, durante lançamento de relatório de mudanças climáticas (©Gordon Welters/Greenpeace)

A semana foi longa em Berlim. Especialistas do mundo inteiro estiveram reunidos para discutir e finalizar as tão aguardadas conclusões da terceira parte do relatório do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas). E a mensagem é clara: agir para impedir as mudanças climáticas é uma oportunidade, não um fardo.

Para prevenir uma catástrofe climática precisamos mudar urgentemente o modo como geramos energia. E o caminho para que isso seja feito é conhecido: nós precisamos e podemos parar de queimar carvão, óleo e gás.

Chegou a vez da ‘Era das Renováveis’. 

Energia limpa não é cara, mas o preço que teremos que pagar por não agir será elevado caso governos e empresas continuem agindo da mesma forma: vidas, sustento de famílias e economias.

As fontes renováveis estão crescendo, evoluindo, são cada vez mais acessíveis e podem ser a solução que tanto precisamos. Elas são a melhor alternativa econômica para suprir o aumento da demanda energética.

O problema agora é como lidar com o atual sistema de energia sujo e ultrapassado. Quando falamos com pessoas que trabalham nas maiores empresas de energia, elas admitem privadamente que precisam mudar para as energias limpas. No entanto, o investimento feito por companhias como a Vattenfall ou a E.On, empresas sueca e alemã que geram e distribuem energia na Europa, faz com que o prejuízo fosse muito grande se de fato essa mudança acontecesse.

Agora é o momento de mostrar para as indústrias de combustíveis fosseis que é preciso mudar e que a eliminação progressiva dos combustíveis fósseis deve começar imediatamente.

Sabemos que as energias renováveis resultarão em melhor eficiência energética que, por sua vez, acarretará em maior número de oportunidades de emprego. Ao investir em energias renováveis até 3,2 milhões de oportunidades de trabalho podem ser criadas no setor a partir de 2030. Na África do Sul, por exemplo, 149 mil empregos poderiam ser oferecidas à população, 38 mil vagas a mais do que no modelo atual.

Não temos tempo a perder. A emissão de gases do efeito estufa aumentou drasticamente entre 2000 e 2010 comparado às décadas anteriores. Mais da metade do aumento da emissão de carbono é causado pela China, que recentemente adotou medidas para melhorar a qualidade do ar, podendo deixar o ar mais limpo e os cidadãos chineses com fôlego novamente. A meta é melhorar o quadro atual até 2020.

Caso o projeto se concretize, a China poderia mudar o rumo do debate global sobre o clima. O governo chinês poderia acabar com a atual mentalidade "você primeiro" que envenenou o progresso nas negociações climáticas da ONU. Em vez de lutar para ver quem é o maior poluidor, os governos têm que encarar a realidade e aceitar que os dias dos combustíveis fósseis estão contados.

É verdade que os países possuem capacidades diferentes para investir em um futuro sem emissões de gases poluentes. Países que, no passado, emitiram pouco devem ser apoiados pelos países ricos para eliminar sua matriz energética suja e antiga. E o mais importante é que as ações para mitigar as mudanças do clima não devem mais ser vistas como algo doloroso.

Não seria maravilhoso se a China liderasse uma nova e ambiciosa meta de redução de emissões de gases poluentes? Imagine o quão embaraçoso seria para os Estados Unidas e para União Europeia lidar com essa novidade. Será que a UE sustentaria sua proposta “ambiciosa” de corte de 40% nas emissões até 2030? Ou será que se sentiriam pressionados a fazer uma oferta mais justa, como a redução das emissões em pelo menos 55%?

Um novo tratado climático deve ser adotado em Paris no ano que vem quando governos se reunirão em Conferência das Nações Unidas. É necessário que a meta do uso de 100% de energias renováveis, eliminando gradualmente os combustíveis fósseis, esteja incluída. Apenas assim os governos entenderão as verdadeiras implicações das conclusões do relatório do IPCC.

*Daniel Mittler é diretor de políticas do Greenpeace Internacional e Kaisa Kosonen é consultora de políticas do Greenpeace Internacional