João Talocchi, nosso campaigner de Clima, nos manda mais um texto diretamente de Bonn, onde tivemos nova rodada de negociações da ONU sobre a questão climática. Talocchi conta detalhes de todo o processo de discussões que prepara o terreno para o encontro de Copenhague (Dinamarca), em dezembro, quando o mundo terá que definir o acordo que sucederá o Protocolo de Kyoto. Confira:

Enquanto escrevo este texto, sentado no hall do Centro de Convenções, representantes de mais de 192 países caminham em direção à saída do centro de convenções. Estampado no rosto de cada um está o cansaço físico e mental que esta batalha significa. As reuniões começam cedo, envolvem temas controversos e continuam noite a dentro.

Parei por 5 minutos para observar as diferentes feições e tentar identificar o que está por trás de algumas delas.

Alguns, como o chefe da delegação Russa, passam apressados, com a cabeça e os olhos baixos. Não estão tristes. É a vergonha que os faz ficar assim e querer fugir deste antro de lunáticos que fica discutindo números e metas que eles não querem assumir. Apesar de toda a pressão, os Russos não apresentaram nenhuma proposta.

O time em que jogam os russos é conhecido como "Umbrella Group" o que pode ser relapsamente traduzido como "Grupo Guarda-Chuva". Entre os principais reforços desse time estão os Estados Unidos, Canadá, Austrália, Nova Zelândia e Japão.  Aqui em Bonn, eles se esconderam atrás de números confusos e desculpas esfarradas para evitar metas que sejam ambiciosas o suficiente para combater o aquecimento global.

Isso é trágico. Na atual rota, rumamos a um aquecimento de no mínimo 3ºC. Significa dizer adeus para metade da Amazônia, realocar bilhões de pessoas, lidar com o aumento de doenças como a malária e enfrentar secas, enchentes e furacões mais frequentes e imprevisíveis.

Outros sentimentos que consegui distinguir são a indiferença, de alguns funcionários de governos que vem as negociações como um trabalho qualquer. A indignação, daqueles que  já sofrem com os efeitos da mudança do clima (como os pequenos países insulares e vários países da África) e a ganância, escancarada em quem vê o aquecimento global como uma grande oportunidade de negócios (desses, infelizmente tá cheio por aqui).

No meio de todo esse caos, tem uma coisa me deixa feliz.  Ainda é possível distinguir um outro sentimento, que está presente desde o primeiro dia, estampado no rosto de milhares de jovens e ativistas. A esperança.

É essa esperança que move a "delegação" do Greenpeace. Quase 40 pessoas de todos os cantos do planeta que acordam todos os dias as 6:30, colocam seus uniformes de guerra (ternos e gravatas) e se reúnem para trocar informações minunciosas e desenvolver estratégias. Antes do início das seções de negociação, esse pequeno exército já conversou com centenas de representantes de países, analisou ou distribuiu documentos, fez explicações e lutou por posições que beneficiem o Planeta,  não os cofres de alguma empresa ou governo.

Essas 40 pessoas passam o dia a circular freneticamente pelos corredores do centro de convenções, mandando e-mails, lendo propostas, conversando com outras ONGs, fazendo reuniões com delegações, informando a imprensa e cobrando dos negociadores posições coerentes com o desafio que enfrentamos.

Ao final do dia, nos reunimos novamente para compartilhar informações. Durante a noite, todos se debruçam em seus computadores, estudando questões técnicas e políticas, planejando estratégias....

E sabe o que me impressiona mais ?

Além do altíssimo nível de conhecimento, o fato de que todos estão sempre de bom humor, abertos a novas idéias, prontos para esclarecer dúvidas... é um time fantástico. Aqui, conseguimos algumas vitórias importantes, incorporando ao texto de negociação muitas das nossas propostas.

Mas seria injusto dar o mérito da esperança somente para o Greenpeace. Durante as duas últimas semanas compartilhamos esse sentimento com várias outras instituições. Gente muito competende e séria, que está do nosso lado na luta por um planeta melhor. Junto deles somos ainda mais fortes, mais ramificados, mais poderosos. Entre eles, está um bando muito especial, que se veste com roupas coloridas, faz ações inteligentes e causa comoção e confusão durante as negociações.

Um grupo de jovens do mundo inteiro marca sua presença nas negociações de clima. Todos os dias produzem algo inusitado, como peças de teatro em que vestem máscaras com as feições dos presidentes de vários países, cartazes, protestos... Hoje havia dois camelos em frente ao centro de convenções !!! Para mostrar que o clima está mesmo esquentando. Durante uma das seções de fechamento, os jovens invidiram a plenária e cantaram um "rap", conclamando os países a lutarem por um mundo melhor. Foram aplaudidos. São eles os herdeiros do mundo que estamos destruindo.

Agora já tem bem menos gente passando por aqui. A maioria já foi embora. Estarão de volta em agosto, para dar continuidade ao processo.

Em um mural, perto da saída, alguém pendurou a foto de um bebê. Abaixo dela, estão escritas as palavras:  "Faça isso por mim". Um negociador acabou de passar pela foto.

Ele sorriu.

Ainda há esperança.