Uma plenária de fechamento das negociações de clima é um ambiente pesado.

São milhares de pessoas de virtualmente todos os países do mundo, homens de terno, mulheres arrumadas, alguns ativistas para dar uma cor (tem até uns 3 vestidos de ET). Em frente a alguns grupos de pessoas, há uma plaquinha com o nome do país. São as delegações. No fundo da sala, onde não há mesas entre as fileiras de cadeiras, ficam os "observadores" - ONGs, Associações comerciais, grupos jovens, religiosos, indígenas, sindicatos e toda a gama de pessoas que tentam influenciar esse processo. As câmeras ficam atras, os jornalistas meio misturados.

Quase todas as pessoas usam fones de ouvido da tradução simultânea, porque os delegados podem falar nas seis linguas da ONU.

Há uma semana, estas milhares de pessoas se reúnem todos os dias em um centro de convenções maior do que o necessário. Apesar do belo clima de outono de Barcelona e de todos os atrativos que dizem haver na cidade, a maioria está pálida, cansada, frustada.... sorrisos são raros. Começamos as 7:30 da manhã e acabamos de madrugada.

Há uma semana, neste ritmo, estas pessoas tentaram criar estratégias para reduzir as diferenças que separam os países. Falta confiança entre os países, falta coerência entre as posições. A maioria das reuniões foi fechada aos observadores. Infelizmente, uma semana não foi suficiente para reduzir estas diferenças. Na saída, todos parecem zumbis.

Sabemos somente o que nossos "espiões" nos dizem e o pouco que é passado pela delegação. (OK, no caso do Brasil, todos são convidados a participar como delegação e podem entrar na sala, mas ai não pode fazer lobby em outros países. Viemos como ONG mesmo).

Mas a plenária tem sua mágica. A primeira vez que estive em uma e ouvi os discursos dos países, saí convencido de que na próxima reunião tudo estaria resolvido. Na outra reunião, nada foi resolvido.

Já estive em muitas plenárias (tanto de abertura como de fechamento) e essa mesma mágica sempre está por lá. O que me incomoda é que as divergências nunca foram resolvidas na próxima reunião. E lá se vão 2 anos.

Na plenária, já sabemos o que vai ser dito (como os problemas continuam os mesmo, os discursos são parecidos).

O grupo dos países em desenvolvimento fala que não vai aceitar metas obrigatórias e que os mais ricos tem que agir.

Os países menos desenvolvidos falam da urgência e de como as mudanças do clima já afetam sua população.

A aliança das pequenas ilhas faz o discurso mais emocionante e empolgante, unindo a falta de tempo ao risco de verem seus países desaparecerem, a necessidade de se agir o mais rápido o possível e ao fato da ciência mostrar que as mudanças do clima ocorrem mais rápido do que o previsto. Várias lágrimas escorrem dos vários olhos cansados. Os aplausos são longos. De pé.

Os países ricos falam que estão fazendo o seu máximo e que é um problema global, que requer ações globais.

Um relógio faz a contagem regressiva para o início da reunião de Copenhague, onde as diferenças (que nos últimos 2 anos não foram resolvidas) TEM que ser resolvidas. Faltam 30 dias, 13 horas, 04 minutos e 10 segundos.

São 9 da noite e a plenária de fechamento ainda está acontecendo. As pequenas ilhas falaram "já somos vítimas do nosso próprio fracasso", "quantas pessoas precisarão perder seu solo, sua cultura e sua vida, antes que percebamos que tivemos muito tempo para agir?". "A falta de tempo não é uma desculpa aceitável!"

O que precisamos em Copenhague é um acordo ambicioso, efetivo, justo e com força legal. Temos todos os elementos deste acordo nos textos que serão negociados na capital Dinamarquesa.

A plenária está acabando. Estou moído de cansado, mas tenho certeza que com mais um mês de trabalho, com o engajamento da população e com os chefes de estado comprometidos, as chances de chegarmos ao acordo ainda são grandes.

A mágica ainda existe. Esta nas nossas mãos fazê-la acontecer.