O derretimento das geleiras é um dos principais indicativos do aumento do aquecimento global (© Greenpeace / Jiri Rezac).

 

Um aumento de 600 metros no nível do mar e o fim da camada de neve do planeta. Isso é o que prevê o Serviço Mundial de Monitoramento das Geleiras, da Universidade de Zurich, na Suíça, caso os países não consigam atingir a meta de diminuir em 2 graus Celsius o aquecimento global. A data ainda não foi estimada, mas os cientistas garantem que, mantendo o ritmo atual das emissões de gases do efeito estufa, a temperatura dos continentes irá aumentar pelo menos 4 graus, o que aquecerá as camadas mais frias da Terra, matando por completo ecossistemas importantes para o equilíbrio do planeta. Os dados devem sair no próximo relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC).

Em evento nesta quinta-feira na Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP-18) em Doha, no Qatar, pesquisadores mostraram que é necessário não só a manutenção dos compromissos assumidos pelos países negociadores, levando o Protocolo de Kyoto definitivamente para uma segunda fase, mas também que é fundamental a continuação dos investimentos por parte das nações desenvolvidas no monitoramento das mudanças globais.

Segundo Mark Doherty, diretor do Departamento de Observação da Terra, da Agência Espacial Europeia, o grande desafio desta conferência é conseguir recursos para mitigação e adaptação às mudanças climáticas. “Os Estados Unidos, durante o governo Bush, cortaram completamente o financiamento para satélites. Obama tentou reestabelecer o Fundo, mas a situação econômica estava tão ruim que ele teve de parar. A proporção da população norte-americana que não acredita que as mudanças climáticas estão acontecendo é muito grande”, afirmou o pesquisador.

Os dados mostram que somente em 2006 as camadas de gelo da Groenlândia e da Antártida experimentaram uma perda de massa respectivamente de 475 e 158 gigatoneladas/ano, o equivalente a 1,3 e 0,4 milímetros/ano de aumento do nível do mar. Entre os anos de 1993 e 2003, esse número foi ainda maior, tendo o derretimento das geleiras contribuído para o aumento do nível do mar em 3 milímetros/ano. Além disso, foi apontado que a preciptação do Ártico também sofreu um aumento de 8% durante os últimos 100 anos.

As geleiras são bons indicadores climáticos, pois pequenas mudanças no clima podem causar grandes mudanças no seu tamanho. De acordo com o professor Frank Paul, da Universidade de Zurich, após 60 anos de medições do balanço de massa nos Alpes Franceses, hoje não resta quase nada. E de acordo com o quadro apresentado pelos pesquisadores, a evolução muito rápida das mudanças nos dois extremos do planeta levam outras geleiras para o mesmo caminho.

“Isso não tem a ver com acreditar ou não nas mudanças climáticas, mas em ver os fatos. Nós lidamos com dados. E se não houver dados ninguém vai saber o que vai acontecer em dez ou vinte anos. Temos que lançar os satélites, monitorá-los, promover a informação e fazer capacitação para análise, além de disponibilizá-la para pessoas em qualquer parte do mundo. Mas isso tudo custa muito caro, portanto, precisamos do financiamento dos governos. Captaram a mensagem? Enquanto vocês não se resolvem as camadas de gelo estão derretendo”, pressionou.

*Nathália Clark está acompanhando as negociações da COP-18 em Doha.