Nenhum estudo justifica a morte desses animais. Conheça algumas das pesquisas não-letais feitas com baleias em nossa costa

Uma jubarte com seu filhote © Ralf Kiefner / Greenpeace

 

Apesar de a caça comercial das baleias ser proibida desde 1986, alguns países que ainda são flagrados capturando esses animais justificam se tratar de “caça científica”, ou seja, para fins de pesquisa. Mas, afinal, nos dias de hoje, ainda há algum tipo de estudo que exija sua captura e morte? Pesquisadores que se dedicam a conhecer seriamente as baleias afirmam, categoricamente, que NÃO.

Há anos, diversas universidades e institutos brasileiros vêm desenvolvendo pesquisas não-letais (que não levam os animais à morte) com as diferentes espécies que frequentam a nossa costa, como a jubarte, a franca, a de bryde, a azul, entre outras. Com o uso da tecnologia, os pesquisadores conseguem coletar amostras e registrar dados dessas gigantes marinhas em seu ambiente natural sem agredi-las. Conheça algumas dessas técnicas e seus objetivos.

Censo aéreo

Monitorar a espécie para determinar quantas são e onde elas estão é um dos primeiros passos para se conhecer as baleias. Isso costuma ser feito, periodicamente, por censo aéreo, ou seja, sobrevoando vastas regiões da costa e, lá de cima, contar os animais que são avistados. Para áreas menores, mais localizadas, o uso de drones passou a ser usado também.

A partir do censo, foi possível constatar que a população das jubartes, uma das nossas visitantes mais frequentes, está aos poucos se recuperando. Ela migra das regiões polares para as águas quentinhas da Bahia quando é hora de namorar e se distribui pela plataforma continental em uma faixa de mais de 100 km da costa e até 500 metros de profundidade. “Em 2015, foram registrados 17 mil animais na costa brasileira – quase 90% estão no banco de Abrolhos, no sul da Bahia, local de reprodução e alimentação”, conta a coordenadora nacional do Projeto Baleia Jubarte, Márcia Engel.

As marcas na cauda de uma jubarte são únicas em cada indivíduo Foto: Bemfica Expedições

Fotoidentificação

As marcas nas nadadeiras das baleias de bride e as calosidades na pele das baleias franca são características únicas, como nossas impressões digitais. Assim, os pesquisadores possuem álbuns de fotos que funcionam como um banco de RGs para as espécies. As baleias já “fichadas” podem ser facilmente identificadas, o que é útil para determinar suas rotas de navegação e migração. No caso das jubartes, que estão presentes em todos os oceanos, foi possível reconhecer um indivíduo em Madagascar que já havia passado pela costa da Bahia – isso que é gostar de viajar.

Coleta de material para biópsia em uma baleia-de-bryde Foto: MAQUA-UERJ

Um “beliscão”

Mesmo a biopsia, a técnica mais invasiva, pode ser feita de forma remota. Bem diferente de um arpão, é usado apenas uma flecha, com um flutuador e um coletor de 2 cm na ponta. “Ao ser disparada, ela dá um beliscão na baleia, coletando um pedacinho da pele e da gordura, que são usadas para análises genéticas, hormonais e toxicológicas, sem precisar capturá-la”, conta José Lailson, um dos coordenadores do Laboratório de Mamíferos Aquáticos e Bioindicadores (MAQUA), do Departamento de Oceanografia da UERJ. Segundo ele, a análise da carcaça dos animais pode revelar muitas informações, mas isso é feito apenas com os animais que encalham ou chegam mortos à costa, sem a necessidade de caçá-los.

Como as baleias se alimentam em áreas muito baixas, quase polares, elas funcionam como bioindicadores da qualidade ambiental daquela região. Ou seja, dá para saber qual o nível de poluentes que estão alcançando os locais mais remotos sem ter ido para lá, apenas medindo a concentração de contaminantes no tecido da baleia.

Entendendo o baleiês

Pesquisadores instalam gravadores aquáticos na Ilha de Trindade Foto: MAQUA-UERJ

As baleias emitem sons de baixa frequência que percorrem centenas de quilômetros no oceano para localizar grupos ou encontrar a parceira ideal. Mas apesar dessa amplitude, ninguém nunca ficou surdo ao mergulhar perto de uma baleia. “Pelo registro acústico conseguimos descobrir quais espécies estão presentes em uma região, pois cada uma tem o seu som específico”, diz o pesquisador Alexandre de Freitas Azevedo, do Maqua. Em parceria com o EcoMega/FURG e apoio da Marinha do Brasil e do CNPq, os pesquisadores instalaram gravadores aquáticos autônomos para registrar os sons das baleias na Ilha de Trindade.

Cruzeiros de pesquisa

Quando é preciso observar comportamentos e fazer estudos mais aprofundados sobre a saúde das baleias, os pesquisadores embarcam em expedições científicas para acompanhá-las de pertinho. Em setembro, um grupo de pesquisadores realizou a I Expedição Científica Bioacústica à Vela, ao navegar 750 milhas náuticas em um veleiro de 30 pés para realizar o mapeamento acústico de 23 grupos de baleias jubarte no Parque Marinho de Abrolhos. Foram registrados o canto dos machos em 43 pontos de gravação.

Pesquisadores no veleiro Lucky Lady observam as jubartes no Parque Nacional de Abrolhos Foto: Bemfica Expedições

 

Um refúgio marinho

Para garantir que apenas a pesquisa não-letal continue sendo feita em nosso oceano, os pesquisadores, como diplomatas, ambientalistas e governos, estão pressionando os países-membros da Comissão Internacional da Baleia a votar pela criação de um santuário no Atlântico Sul, neste final de outubro, que poderá proteger 51 espécies de baleias e golfinhos que habitam essas águas.

“O santuário será uma oportunidade de cooperação entre os países para uma série de pesquisas, assim como o desenvolvimento de atividades econômicas sustentáveis, como o turismo de observação de baleias, que pode ser uma importante fonte de renda para comunidades em desenvolvimento”, avalia a Márcia Engel, do Projeto Baleia Jubarte. 

Você também pode participar deste movimento. 

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