Duas semanas depois da publicação do relatório do Greenpeace “A Farra do Boi na Amazônia, as maiores redes de supermercados, como Carrefour, Wal-Mart e Pão de Açúcar, anunciaram a suspensão de compras de fazendas que desmatam. Marcas famosas do setor de calçados, como Adidas e Timberland, também estão se mexendo para garantir que a demanda global por produtos bovinos da Amazônia não destruam a floresta e agravem as mudanças climáticas. Fazendas também estão sendo chamadas à responsabilidade através da ação civil pública ingressada pelo Ministério Público Federal, que responsabiliza a cadeia produtiva da pecuária por desrespeito à legislação ambiental e trabalhista.

E o governo?

Até agora, o governo não se pronunciou sobre as denúncias de ilegalidades que contaminam o fornecimento de produtos bovinos provenientes da Amazônia. Além de ser, hoje, o maior vetor de desmatamento no mundo e a principal fonte de emissões de gases do efeito-estufa do Brasil, a pecuária brasileira conta com um sócio inusitado, que tem entre suas atribuições zelar pela conservação da floresta amazônica: o Estado brasileiro.

O governo, através do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), transformou-se em sócio e investidor direto de frigoríficos que, segundo a investigação do Greenpeace, compram sua matéria prima de fazendas que desmatam ilegalmente, põem seus bois para pastar em áreas protegidas e terras públicas e utilizam mão de obra escrava.

“O governo brasileiro também precisa assumir sua responsabilidade para resolver o problema”, disse André Muggiati, do Greenpeace. “Para começar, pode cancelar imediatamente todas as autorizações de desmatamento, garantir que os bancos públicos não financiem atividades que derrubem a floresta e adotar sistemas de cadastramento e licenciamento ambiental das propriedades, além de um sistema de rastreabilidade que garanta que o gado criado na Amazônia não vem de áreas desmatadas”.