Alceu Luís Castilho revela no livro "Partido da Terra" como o campo brasileiro está dominado por políticos. Segundo o levantamento feito por ele, 4,4 milhões de hectares estão nas mãos deles (Divulgação/Editora Contexto)

Faz 13 anos que o Greenpeace está na Amazônia investigando e denunciando crimes ambientais. Até ameaças de morte os funcionários receberam. Porém, após tanta luta, quando nos deparamos com um livro como “Partido da Terra - como os políticos conquistam o território brasileiro”, da editora Contexto, a sensação que fica é de perplexidade. Para os inimigos da floresta, o que vale é desmatar para se ter o controle da terra e angariar votos, que os farão se perpetuar no poder.

Durante três anos Alceu Luís Castilho pesquisou declarações de bens de 13 mil políticos eleitos entre 2008 e 2010 para o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) e verificou uma concentração de terra formidável. Nada menos do que 4,4 milhões de hectares estão nas mãos deles, o que corresponde a uma área maior que a Holanda ou a Suíça ou a 1,2% do território nacional.

Para o eleitor é importante saber quem são esses políticos proprietários de fazendas. Isto nos faz entender o porquê das recentes manobras ruralistas no Congresso Nacional, as quais objetivam enfraquecer por completo o Código Florestal.

E Castilho faz uma observação pontual: “Mais que uma bancada ruralista, temos um sistema político ruralista. Ou seja, uma bancada maior do que se imagina, e uma capilaridade em relação ao sistema eleitoral, sejam doadores de campanha, sejam os prefeitos eleitos, a base política de cada partido. A bancada ruralista é suprapartidária. Temos até uma ‘esquerda ruralista’”.

O jornalista investigou as declarações de prefeitos, vice-prefeitos, deputados estaduais, deputados federais, senadores, vice-governadores, vice-presidente da República e governadores. Entre eles há os reis do gado, da soja, do desmatamento, do arroz. Mapeou não apenas as fazendas mas também suas empresas agropecuárias.

Enquanto lê o livro, o leitor se deparará com nomes conhecidos, como os de Blairo Maggi, José Sarney, Jader Barbalho, Joaquim Roriz, Íris Rezende, Newton Cardoso, João Lyra, Geddel Vieira Lima, Kátia Abreu, entre muitos outros. Há político que concentra 54, 185, 203, 380 mil hectares de terra. Outros têm 10, 12, 23 mil hectares. Dominam áreas do tamanho da Palestina, Cingapura, Aruba.

Há um capítulo especialmente dedicado ao meio ambiente, que traz a lista de mais de 60 políticos que possuem 69 madeireiras e serrarias que atuam na Amazônia, a qual já perdeu 18% de sua cobertura.

Por outro lado, o livro aponta que esse cenário de apropriação do território pela força acarreta no aumento da violência contra camponeses, quilombolas, extrativistas e indígenas no arco do desmatamento na região amazônica. Aborda-se também o emprego de mão de obra escrava em fazendas e relata casos de políticos autuados cometendo tal crime, num flagrante desrespeito aos direitos humanos e trabalhistas.

Já do ponto de vista partidário, Castilho destaca que chamou a atenção a liderança do PSDB entre os prefeitos com mais hectares. O mais óbvio seria dar PMDB, mas não deu. Entre parlamentares, no entanto, o vencedor foi o PMDB