Kumi Naidoo, diretor-executivo do Greenpeace Internacional, durante a COP17, na África do Sul (©Shayne Robinson/Greenpeace)

Caro Sr. Presidente Barack Obama,

Meu nome é Kumi Naidoo, sou o diretor-executivo do Greenpeace Internacional e também presidente da Campanha Global de Ações pelo Clima, além disso, atuo como Embaixador Global da Campanha para Ações contra a Pobreza (www.whiteband.org). Mas, hoje, eu escrevo para você como um africano, como alguém do mundo em desenvolvimento e como um pai.

O mundo precisa de sua liderança agora, e pela primeira vez, você tem um apoio popular imenso, com uma maioria de americanos que acredita que a mudança climática é uma ameaça real.

Em 2009, você recebeu o Prêmio Nobel da Paz logo antes da Conferência do Clima de Copenhague. Havia uma forte expectativa de que você iria liderar os esforços multilaterais para combater o aquecimento global. Todo mundo esperava que você não cometesse os mesmos erros do seu antecessor, George W. Bush, que ignorou o aviso da CIA e do Pentágono de que a mudança climática é a maior ameaça à estabilidade geopolítica, à segurança e à paz.

Em seu discurso de vitória, depois de ter sido reeleito para um segundo mandato, você inspirou mais uma vez a esperança de pessoas ao redor do mundo que se preocupam com os efeitos do clima global e querem garantir um planeta habitável para as futuras gerações. Você disse: "Nós queremos que nossos filhos vivam em uma América que não está sobrecarregada por dívida, que não é enfraquecida pela desigualdade, que não está ameaçada pelo poder destrutivo do aquecimento do planeta." Esta esperança aumentou quando em uma coletiva de imprensa, em 14 de novembro de 2012, quando você pediu "uma conversa em todo o país..." para ver "como podemos moldar uma agenda que acumula apoio bipartidário e ajudar a movimentar essa agenda para frente... e... ser um líder internacional" para a mudança climática.

Um grande contraste entre o que você diz e o que seus negociadores em Doha estão fazendo. Seus negociadores para mudanças climáticas continuam a minar a esperança de que os Estados Unidos vão ser algum dia um cidadão global ambicioso para o clima. Com todo o respeito, Sr. Presidente, a visão dos seus negociadores não se alinha nem com a maioria das pessoas no mundo, nem com um número crescente de vozes da opinião pública informada dentro dos Estados Unidos propriamente.

Embora o enviado especial para Mudança Climática, Todd Stern, e o enviado especial adjunto, Jonathan Pershing, digam que os Estados Unidos têm uma "forte e sólida" posição, eles têm consistentemente entregado o oposto. Eles continuaram a bloquear as negociações sobre a elaboração de regras comuns para a contabilidade sobre os esforços de redução da poluição, que são necessárias para a compreensão se os esforços globais são suficientes ou não. Embora tenham dito que o financiamento climático dos Estados Unidos para os países em desenvolvimento seria mantido, não vai se comprometer a aumentá-lo até 2020, além de estar longe da "parcela justa" de US$ 100 bilhões que vocês concordaram em Copenhague.

Obviamente, o Congresso está passando por uma crise fiscal, mas seus negociadores paralisaram as discussões sobre como aumentar o financiamento do clima por meio de fontes inovadoras, como uma taxa muito pequena no transporte ou transações financeiras globais. Como o Secretário-Geral das Nações Unidas, Ban Ki Moon, disse na quarta-feira, os países desenvolvidos com grandes emissões históricas têm uma clara responsabilidade de avançar com o financiamento para ajudar os países pobres a se adaptarem aos impactos climáticos.

Sr. Presidente, a falta de liderança dos EUA nas negociações climáticas tratadas em Doha coloca a sobrevivência de milhões de pessoas do continente africano e do mundo em risco. Nos últimos cinco anos, o crescimento do uso de carvão causou mais de dois terços do aumento das emissões globais de CO2, empurrando as emissões de gases do efeito estufa para um nível recorde. Nas últimas semanas, o Banco Mundial, a CIA e o PNUMA advertiram sobre as consequências da mudança climática. Declarações de seus negociadores de que os Estado Unidos estão fazendo "enormes esforços" é desmentida pela sua falta de liderança em requerer reduções executáveis de CO2 e outros gases-estufa.

A posição dos Estados Unidos aqui em Doha trai as pessoas que perderam suas vidas durante o furacão Sandy. Ela trai as pessoas que estão enfrentando os efeitos da seca intensa nos Estados Unidos. Ela trai as aspirações de um número crescente de jovens norte-americanos, alguns dos quais eu conheci aqui em Doha, que querem que os Estados Unidos se recupere dos oito anos de negação do mandato do presidente Bush, que atrasou o progresso nas negociações climáticas. Eu sinto a responsabilidade de informar que esta falta de liderança desapontou profundamente muitas das mesmas pessoas que estavam tão energizadas por sua promessa de esperança e suas promessas para se juntar à comunidade internacional.

Aqui em Doha, continuamos a ouvir reivindicações perturbadoras ou infundadas por parte de seus negociadores. Um exemplo é a afirmação de que a meta de 2020 dos Estados Unidos de reduzir a poluição do aquecimento global em 17% em relação a 2005 se baseia na ciência, quando os maiores cientistas climáticos do mundo exigem metas muito mais elevadas para os países industrializados, e um novo estudo do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) mostra um alargamento do fosso entre os compromissos existentes e o que é necessário para evitar os impactos mais devastadores das mudanças climáticas. Seus emissários aqui exageram sobre os compromissos dos Estados Unidos para financiar iniciativas climáticas globais, enquanto os Banco Norte-americano para Exportação-importação gasta cinco vezes mais em subsídios a combustíveis fósseis, que só vão acelerar catástrofes climáticas.

Francamente, o tom de seu enviado especial e enviado especial adjunto também minou a credibilidade dos Estados Unidos. Nas últimas semanas, o Banco Mundial e a CIA advertiram sobre as consequências das mudanças climáticas desmedidas. Neste contexto, os negociadores alegarem que os Estados Unidos estão fazendo "enormes esforços" em vez de aceitar a necessidade de redução de poluição apoiada por um consenso de cientistas globais ameaça sabotar essas negociações climáticas. Sem uma mudança de rumo da sua equipe de negociação, o problema está piorando a cada dia.

Este ano já trouxe tempestades devastadoras, secas e inundações, causando significativa perda de vidas e danos a importantes infraestruturas, inclusive, não só no seu país, mas também na China, Índia, África e Europa. Este foi ainda um outro sinal de aviso e um teste para saber se os governos vão proteger seu povo. No rastro do furacão Sandy, da seca, dos incêndios e outros eventos climáticos extremos que afligiram o povo norte-americano durante este ano, é hora de trazer a política do clima em consonância com a realidade científica, nacional e internacional.

A mudança climática não é mais uma ameaça de um futuro distante. No final de um ano que tem visto os impactos das mudanças climáticas devastarem casas e famílias em seu país e em todo o mundo, é o momento perfeito para refutar as alegações desacreditadas de políticos subscritas pelos poluidores que lucram com a inação.

Sr. Presidente, precisamos de você para assumir uma liderança ousada em relação ao que é realmente necessário para reduzir a ameaça do aquecimento global para os Estados Unidos e para o mundo. Isto deve incluir o apoio a uma revolução na política de energia com base em energias renováveis ​​limpas e eficiência energética nos Estados Unidos e no mundo. Também significa o fim dos subsídios aos combustíveis fósseis e a exportação de carvão de propriedade pública, rejeitando o gasoduto de Keystone XL, a perfuração de petróleo em águas do Ártico, além de fazer da prevenção de catástrofes climáticas a peça central da política externa dos Estados Unidos.

Você tem que decidir se os negociadores que você enviou aqui para Doha defendem ou não a sua posição. Para o mundo confiar nos Estados Unidos, ele precisa ver uma liderança ousada, que garanta que a temperatura global não exceda os níveis que a ciência alertou e cause desastres para o nosso planeta. Este objetivo essencial só é possível com a liderança dos Estados Unidos hoje.

De um pai para outro, deixe-me aproximar-me e fazer esse apelo, que o que está em jogo aqui é o futuro dos nossos próprios filhos e dos filhos deles. Como alguém que estava tão inspirado pela sua eleição para presidente dos Estados Unidos em 2008, por favor, permita-me evocar três frases que você usou na campanha para a minha conclusão: "Um planeta em perigo", "A urgência feroz do agora" e "Yes We Can. " Eu acredito fortemente que a sua mensagem, em 2008, estava absolutamente certa, e acredito que, se reconhecermos a urgência do agora, podemos enfrentar o desafio de um planeta em perigo e garantir que o espírito de otimismo impregnado pelas palavras "Sim, nós podemos" agora deve reinar.

Atenciosamente,
Kumi Naidoo
Diretor-executivo
Greenpeace Internacional