Cacique-geral do povo Munduruku, Arnaldo Kaba - ou Kabaremuybu, na língua Munduruku - fala em nome de todas as lideranças: "nós queremos o Tapajós limpo" (©Greenpeace/Eliza Capai).

 

Não se entra na casa dos outros sem pedir licença. Pelo menos é assim que manda a educação e os bons costumes. Quanto a isso, o Estado brasileiro, supostamente o responsável por educar a sua população, tem dado um péssimo exemplo. Além de deixar que sejam desrespeitados direitos constitucionalmente adquiridos pelos povos indígenas – cidadãos brasileiros como eu e você –, o governo federal ainda tem empenhado uma “forcinha” a mais para conseguir passar, a qualquer custo, seu projeto megalômano para uma Amazônia já naturalmente grandiosa.

Tradicionalmente habitando as margens do rio Tapajós, o povo Munduruku foi a cobaia do governo para sua mais nova empreitada. Para realizar os estudos de impacto ambiental da Hidrelétrica São Luís do Tapajós e outras dentro de territórios indígenas e sem qualquer consulta prévia às comunidades afetadas, a presidente Dilma Rousseff aprovou o decreto 7.957, que autoriza a Força Nacional de Segurança a atuar em caráter “preventino ou repressivo”, para garantir “a lei e a ordem em operações de proteção ambiental”.

E foi assim que, no dia 25 de março, sem qualquer aviso ou pedido, cerca de 250 homens da tropa de choque nacional adentraram o território Munduruku, deflagrando a chamada Operação Tapajós e assustando os indígenas e suas famílias. Um mês depois, no dia 25 de abril, foi realizada uma reunião na aldeia Sai Cinza, com a presença de todas as lideranças, que aguardavam para receber o governo e, pela primeira vez, serem ouvidos. Mas isso não aconteceu. O governo falhou novamente e faltou ao encontro, mesmo estando a apenas 12km de distância, na cidade de Jacareacanga (PA).

Veja aqui o vídeo gravado durante os dias de reunião na aldeia Sai Cinza.

O povo Munduruku é contra a construção da Hidrelétrica São Luís do Tapajós e todo o Complexo Hidrelétrico planejado para a região. Mas é a favor do diálogo. Desde que seu território foi invadido, eles aguardam uma conversa franca com o governo. Enquanto isso não acontece, o batalhão da Força Nacional se mantém na região e os planos de instalação do empreendimento seguem a todo vapor. Ignorandos e desrespeitados, os 13 mil indígenas do povo Munduruku não fogem à luta. Se o governo não quer falar com eles, eles fazem barulho para que o Brasil os ouça.

Neste momento, eles ocupam, junto com cerca de 150 representantes de outros sete povos indígenas, o principal canteiro de obras da usina de Belo Monte, no município de Vitória do Xingu (PA). Eles reivindicam a regulamentação da consulta prévia e a suspensão imediata de todas as obras e estudos relacionados às barragens nos rios Xingu, Tapajós e Teles Pires. A repressão tem sido forte. Jornalistas já foram expulsos do local e proibidos de documentar a ocupação. Mas os indígenas resistem.

Em uníssono, eles saúdam uns aos outros, e nós repetimos:

“Saweh”! (saudação em apoio ao povo Munduruku).