Greenpeace se junta a outras organizações da sociedade civil para a Marcha dos Povos, que cruzou o centro do Rio. (©Greenpeace/Rodrigo Paiva)

 O futuro que queremos não está em nenhum lugar do texto que foi aprovado na Rio+20, que agora os líderes globais tentam usar como peça de propaganda. A retórica teve início ao mesmo tempo que mais de 20 mil pessoas marchavam nas ruas do Rio, em protesto, com um ar de desespero mas buscando a esperança.

A retórica da presidente Dilma Rousseff não poderia estar mais distante da realidade: a trágica oportunidade perdida de um acordo fraco sendo aprovado no Rio. Os adjetivos que ela usou para descrever o resultado, que teria sido feito com “coragem”, “ambição”, “responsabilidade” e “urgência”, são totalmente desconectados com a falta de compromisso, objetivos e dinheiro vista aqui.

As duas cúpulas de desenvolvimento sustentável no Rio agora não poderiam ser mais diferentes. A Cúpula dos Povos está cheia de esperança e soluções, enquanto a 40 quilômetros dali, do outro lado da cidade, a Rio+20 estava sufocada em desespero e problemas.

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Nas tendas da Cúpula dos Povos, ideias e oportunidades são compartilhadas sobre como resolver as crises ambientais, de igualdade entre os povos e ecológicas. Especialistas ali explicam que temos nas mãos as soluções energéticas para promover uma revolução energética, evitando a mudança climática catastrófica e fornecendo energia para 1,6 bilhão de pessoas que hoje estão no escuro: uma revolução energética que forneceria milhões de empregos decentes e ajudaria a recuperar economias em problemas. Em vez de resgatar bancos e bancar a indústria do combustível fóssil, como aconteceu na reunião do G20 no México, as pessoas pediam aos líderes para financiar economias verdes.

A Cúpula dos Povos é em grande parte destituída de parochialism e interesses nacionalistas. Essa visão transnacional, global, pode ser observada em cada desafio tratado ali: direitos indígenas, geração de empregos decentes e verdes, igualdade entre os gêneros, proteção das florestas, defesa dos oceanos e muito mais.

Já na cúpula “oficial”, o que se vê é exatamente o oposto. A maioria dos países colocou sua ideia de interesse nacional em primeiro lugar, os interesses regionais em segundo e a preocupação global em terceiro. A menos que os governos caiam em si de que certos problemas, como as mudanças climáticas e uma economia inclusiva global, são tratados de uma forma genuinamente global, e sigam o que diz a maior parte da sociedade civil, não temos motivos para sermos otimistas.

O Greenpeace continua a coletar assinaturas em sua campanha pelo desmatamento zero no Brasil. Os planos para acabar com a exploração sem regras nenhuma das águas internacionais e para promover uma agricultura sustentável para acabar com a fome foram lançados.

Cerca de 10 mil pessoas visitaram o navio Rainbow Warrior, do Greenpeace, no Rio. É nossa prova do que a tecnologia disponível hoje pode ajudar a salvar o mundo amanhã. Sua alegria e a empolgação dos jovens voluntários brasileiros são um fabuloso antídoto para a frustração causada pela atmosfera cinza da reunião dos governos.

Se os líderes mundiais tirassem esse período apenas para ouvir, talvez eles teriam sido inspirados - como eu fui - pela energia de um mundo que pode ser construído em conjunto. Enquanto muito poderia ter sido feito em três dias da conferência do Rio para colocar o mundo no caminho do desenvolvimento sustentável, o que não aconteceu, decisões reais são tomadas todos os dias em cada capital e conselhos empresariais ao redor do mundo.

Nós ainda precisamos de um acordo global. Precisamos de governança global para apoiar e impulsionar uma transição em que a igualdade, a economia e a ecologia não estão em competição, mas em harmonia com o desenvolvimento sustentável.

Mas, pegando emprestado do discurso de abertura da conferência proferido pelo secretário-geral da ONU, Ban Ki-Moon, ontem, nós devemos “seguir na Rio+20 com compromisso e ações. Agora é a hora da ação”. Ele está certo. As pessoas devem se afastar da derrota no Rio e unir-se na defesa do planeta e das necessidades de nossas crianças.

A não ser que a gente contrua um movimento no presente como nenhum outro que o mundo viu até hoje, o futuro que queremos será apenas um sonho que ficou para trás.

*Kumi Naidoo é diretor-executivo do Greenpeace Internacional