Dia 12/04, último domingo, o  jornalista Michael Kepp, correspondente estrangeiro sediado no Rio, publicou na Folha de São Paulo, caderno Mais, um artigo falando das reações ao protesto do Greenpeace na Ponte Rio Niterói, semana retrasada. Vale a reflexão.

"Parte da mídia de massa, inicialmente cética sobre as advertências apocalípticas dos ambientalistas sobre o aquecimento global, hoje os ataca por continuar chamando a atenção para o problema. Sua estratégia é tão transparente quanto um truque de um mágico ruim. Sempre que um grupo verde organiza um protesto ou patrocina um evento para aumentar a consciência sobre a mudança climática, essa mídia se concentra nos gases do efeito estufa (GEE) emitidos por suas atividades para afirmar que ele faz parte do problema, não da solução. Essa estratégia foi usada por uma apresentadora do telejornal da TV Cultura e por uma reportagem do jornal "O Globo" para criticar um recente protesto do Greenpeace. O foco das duas críticas foram as GEEs emitidas por um engarrafamento causado quando escaladores da ONG estenderam uma faixa enorme na ponte Rio-Niterói para fazer um alerta sobre o aquecimento global para os integrantes do G20. Essa foi a estratégia usada por alguns grupos da mídia dos Estados Unidos para criticar a Hora da Terra, um evento em 28 de março patrocinado pelo Fundo Mundial pela Natureza durante o qual, em todo o mundo, luzes e aparelhos elétricos não-esenciais foram desligados em residências e em pontos marcantes, entre as 20h30 e as 21h30, para aumentar a consciência sobre como o uso da eletricidade alimenta o aquecimento global. Alguns jornais disseram que o planejamento da Hora da Terra aumentou as emissões de GEE mais do que elas foram reduzidas por apagar as luzes. Da mesma maneira, o canal de notícias Fox News chamou a atenção para as altas contas de eletricidade e as extensas viagens de avião do ativista contra o aquecimento global Al Gore. Se Gore acreditasse em sua causa, afirma esse canal, usaria lâmpadas e aparelhos que poupam energia e voaria menos. Algumas reportagens adotam uma posição semelhante ao notar que os participantes de conferências internacionais sobre mudança climática aumentam as emissões de GEE ao viajar de avião. Usando essa lógica, todo ativismo ligado à mudança climática deveria acabar porque aumenta as emissões de GEE. Por essa lógica, todos os ativistas ambientais são poluidores irresponsáveis. Se isso for verdade, por que as ONGs que participam de conferências ambientais compram créditos de carbono por exemplo investindo em projetos de redução de GEE para neutralizar as emissões lançadas pela ida a esses eventos? ONGs como o Greenpeace também fizeram da redução do desflorestamento da Amazônia uma campanha central porque, se incluirmos as emissões de CO² do desmatamento, o Brasil é o quarto maior emissor de GEEs do mundo, depois de China, EUA e Indonésia. Em 2007, o Greenpeace e oito outras ONGs pressionaram o governo para adotar seu Pacto de Desmatamento Zero, um plano para conter a destruição da Amazônia até 2015. O governo o recusou por causa dos custos e de suas metas antidesmatamento, mas em dezembro de 2008 lançou seu próprio Plano Nacional de Mudança Climática, com metas mais modestas. Parte da grande mídia ignora esses esforços, do mesmo modo que tende a não divulgar indústrias poluentes que se recusam a mudar para processos de produção menos poluentes e produtos de maior eficiência energética. São essas indústrias e países como os EUA e a Austrália, que se recusaram a assinar o Protocolo de Kyoto, e não os grupos verdes, os culpados pelo aumento das emissões de GEE. Muitas reportagens não nos lembram que, embora as ameaças de recessão global ou de uma bomba terrorista sejam mais imediatas que as representadas pelo aquecimento global, ele também é uma bomba-relógio com consequências muito mais devastadoras. A reportagem de " O Globo" também não nos contou que a Polícia Rodoviária, que bloqueou a ponte Rio-Niterói para deter os manifestantes do Greenpeace, foi a principal causa do engarrafamento de 18 quilômetros. Por isso, se você foi um dos motoristas irritados que empacaram na ponte durante o protesto, seria mais produtivo se concentrar em sua mensagem --de que nosso tempo está acabando--que em seu mensageiro inconveniente".

Folha de S. Paulo, 12 de abril de 2009