Kumi Naidoo se prepara para protesto pacífico contra a exploração de petróleo no Ártico, em 2012 (© Greenpeace/Denis Sinyakov)

 

O diretor-executivo do Greenpeace Internacional, Kumi Naidoo, escreveu uma carta ao presidente da Rússia, Vladimir Putin, solicitando um encontro em Moscou e propondo se mudar para a Rússia para servir como garantia para a libertação sob fiança dos 30 detidos acusados de pirataria.

"Estou disposto a me mudar para a Rússia durante a vigência desse caso. Me ofereço como garantia para a boa conduta dos ativistas do Greenpeace, se eles forem libertados sob fiança", disse Naidoo em um trecho da carta, que foi entregue hoje, dia 9, na embaixada da Rússia na Holanda. 

Ontem, a corte regional de Murmansk, no noroeste da Rússia, rejeitou o pedido de advogados para que dois ativistas do Greenpeace e um fotógrafo freelancer aguardassem em liberdade as investigações sobre pirataria. Na manhã de hoje mais uma pessoa teve o pedido negado. Novas audiências devem ocorrer até sábado - a da brasileira Ana Paula Maciel ainda não tem data divulgada.

Em um fórum internacional sobre o Ártico, no final de setembro, na cidade de Salekhard, na Rússia, o presidente Putin sinalizou que estaria aberto ao diálogo com o Greenpeace. No encontro, Putin disse que teria sido interessante se os representantes da organização estivessem presentes no evento para expressar sua opinião e preocupações sobre a situação dos ativistas.

Leia abaixo a íntegra da carta:

Prezado Presidente Putin,

Diante da recusa de ontem em conceder fiança aos nossos ativistas e ao fotógrafo freelancer, e em resposta a sua oferta em Salekhard para discutir o destino do Ártico, solicito uma reunião urgente com o senhor.

Me disponho a te encontrar em qualquer lugar do mundo, num lugar de sua escolha, mas peço que nosso encontro possa ocorrer assim que possível na Rússia.

Diferentemente dos líderes mundiais com os quais o senhor está acostumado a se encontrar, eu não vou carregar comigo o poder e a influência de um governo. Ao contrário, irei como representante das milhares de pessoas ao redor do mundo, muitas delas russas, cujo desejo é ver o fim da detenção contínua dos 30 bravos e pacíficos homens e mulheres presos em Murmansk.

O destino deles é uma questão de preocupação global. Portanto, irei até você com uma oferta. Estou disposto a me mudar para a Rússia durante a vigência desse caso. Me ofereço como garantia para a boa conduta dos ativistas do Greenpeace, se eles forem libertados sob fiança. Nós do Greenpeace não nos acreditamos acima da lei. Estamos dispostos a enfrentar as consequências do que fizemos, contando que elas estejam fundadas e baseadas no código criminal da nação. 

Está claro pelas suas próprias declarações que o senhor não entende nossos ativistas como piratas, apesar de essa ser a acusação levantada contra eles. O senhor, em comum com milhares ao redor do mundo, sabe que ao serem acusados de pirataria eles estão sendo acusados de um crime que não aconteceu, um crime imaginário. O senhor já disse anteriormente que tem admiração por grupos como o Greenpeace, e que nossos protestos inspiram simpatia. Se os nossos amigos forem libertados sob fiança, eu me ofereço como segurança de que os 28 ativistas do Greenpeace Internacional irão responder por seu protesto pacifico de acordo com o código criminal da Rússia.

A lei, como nós dois sabemos, não aplica o crime de pirataria aos protestos pacíficos. Portanto, peço que o senhor, como presidente da Rússia, atue para que as acusações excessivas de pirataria contra os presos sejam retiradas, e que as acusações trazidas sejam consistentes com a lei internacional e a lei russa. Eu também peço respeitosamente que os dois freelancers independentes, que não são membros do Greenpeace, sejam libertados imediatamente.

Um dia após a prisão dos ativistas, a ONU liberou o relatório sobre a ameaça das mudanças climáticas. As conclusões do relatório, de autoria de nossas grandes mentes cientificas, indicam que não podemos mais arcar com a exploração de novas fontes de combustíveis fósseis. Foi por isso que nossos ativistas se sentiram compelidos a fazer a ação que fizeram, uma ação que foi pacífica e respeitosa à sua nação.

Minha própria historia pessoal como um jovem ativista no movimento anti-apartheid me ensinou que o diálogo é essencial, que para encontrar o entendimento comum é preciso estar apto a conversar. Eu acredito que a minha oferta de ir a Moscou, te encontrar e ficar lá, nos permite essa oportunidade. O prolongamento desse caso não beneficia a ninguém, incluindo a grande nação da Rússia, e certamente não beneficia a família e amigos das pessoas presas.

Estou ciente dos riscos que estou assumindo ao propor ir para a Rússia. Ano passado fiz parte de um protesto pacífico que foi idêntico em quase todos os aspectos a esse levado pelos meus colegas. Nosso protesto pacífico ano passado foi testemunhado pela guarda costeira da Rússia, que se recusou a intervir quando solicitado pela Gazprom porque entendeu que nossas ações não ofereciam ameaça para a segurança das pessoas ou da propriedade. Mas um ano depois os ativistas que fizeram exatamente a mesma coisa agora estão enfrentado uma acusação de pirataria e a possibilidade de ficar anos na cadeia. Indo para a Rússia, eu não espero compartilhar o destino deles, mas é um risco que estou disposto a correr para que possamos encontrar um entendimento comum.

Atenciosamente,

Kumi Naidoo

Diretor Executivo do Greenpeace Internacional

 Libertem nossos ativistas