Ao completar meus 25 anos em alto-mar, ganhei um navio de presente

O Esperanza é o maior navio do Greenpeace © Will Rose/ Greenpeace

 Todo dia 7 de fevereiro, desde 1992, é um dia de celebração para mim. Afinal, foi quando a minha querida e falecida mãe (de quem sinto muita falta) me deu à luz. A celebração destes meus 25 anos, no entanto, foi muito diferente de qualquer outra comemoração anterior: desta vez, eu estava a bordo do Esperanza, o maior navio do Greenpeace.

Meu dia começou às 5h30 da manhã. Logo me deparei com uma querida mensagem de “happy birthday” no quadro branco que fica no mess room (o refeitório). É nesse quadro que usamos para passar importantes comunicados a todas e todos no navio.

O segundo presente foi o desenho que um dos pilotos do submarino fez de mim. Fiquei super emocionada. Ninguém nunca havia feito antes um desenho meu. Ele ainda adicionou um traço de pintura do povo Munduruku, que eu tanto admiro. Não vejo a hora de eles terem suas terras demarcadas.

Do capitão às marinheiras, recebi abraços e felicitações. O contramestre Eric e a marinheira Christine mencionaram que eles tinham uma surpresa para depois. Obviamente fiquei curiosa, mas eles mantiveram o mistério por horas.

No final da tarde, eu estava na área de convivência do navio quando a marinheira Chris me chamou. Ela pediu que a Thaís, nossa jornalista a bordo, me acompanhasse e levasse um celular. Seguimos Chris até a ponte de comando. Lá estava Martti, o 1º oficial, me aguardando. Foi então que Cristine anunciou: “Juliana, em nome de toda a tripulação, te desejamos um feliz aniversário! E como presente, nós vamos te deixar pilotar o Esperanza!” Fui tomada por uma onda de felicidade. Quando eu imaginaria pilotar um navio do Greenpeace?

Recapitulando para que você, leitor, entenda melhor: neste ano, completo cinco anos trabalhando no Greenpeace como analista de mídias sociais. Desde que entrei, ouço falar sobre a incrível experiência de estar em um navio e como ele é parte do DNA da organização. A vontade de embarcar cresceu em mim conforme o tempo passava. No final do ano passado, recebi a informação que iria passar dez dias no Esperanza e esses dez dias viraram vinte. E aqui estou eu, no leme do navio.

 

Juliana Costta recebe as instruções para a rota do navio.

 Voltando à ponte de comando, Martti me ensinou como pilotar o navio de acordo com os instrumentos. Avisou que eu estaria sob a supervisão dele e de Otto – uma pequena tartaruga de madeira colada nos painéis. Otto é o piloto automático.

Martti explicou que estávamos com a correnteza nos levando para bombordo a 0,9 nós. E deu a ordem: “Mantenha o navio a 295 graus a bombordo”. Apenas respondi “ok”, e tomei uma bronca da Chris: “Você tem que repetir o que ele disse”. Então, entoei cheia de orgulho: “295 graus a bombordo”. Parece fácil, mas não é.

Peguei o timão – esqueça o modelo clássico, aquela roda imensa que você viu nos desenhos do Popeye – ele tem o formato de um semicírculo do tamanho de uma laranja. E, assim, assumi o comando do navio. Fiz o melhor para chegar a 295 graus a bombordo. Consegui. Conforme o navio se movimentava, chegamos a 4,9 nós de velocidade. Chegar até ali é fácil, manter é que é difícil. O timão é bem sensível ao toque. Após 5 minutos olhando a bússola e compensando a corrente marinha para me manter na missão, Martti anunciou o fim da minha grande experiência. Com um sorriso de orelha a orelha e um grande abraço, agradeci  a todos: Martti, Chris, Bala e Eric. Os dois últimos se juntaram à nós na ponte no final do meu comando para ver como eu estava me saindo.

O pequeno timão do Esperanza

 Aprendi que a responsabilidade de pilotar um navio com 40 pessoas é grande, e que demanda muita calma. Ser uma mulher jovem ali também tem um significado importante, uma vez que a ponte de comando é um lugar normalmente dominado por homens.

Ao voltar para a área de convivência, encontrei o capitão. Ele me parabenizou por eu ter conseguido manter uma linha quase reta. As condições, ele disse, não estão fáceis. “Estou orgulhoso”, elogiou. Em tom de brincadeira, perguntei se deveria investir na carreira de capitã e recebi total apoio!

Quando achava que o dia não poderia me surpreender mais, Kim apareceu. Ele é um sul-coreano de 28 anos, terceiro engenheiro do navio e dono de uma voz encantadora. Seu presente para mim: pegou o violão e tocou uma música coreana. Não entendi a letra, mas sua voz doce fez toda a sala se encantar.

No final da noite, ganhei ainda um delicioso bolo de chocolate, com direito a um “parabéns para você” bilíngue e simultâneo, com todos a bordo cantando em português e outros em inglês. Meu coração de manteiga mole desmanchou e as lágrimas rolaram.

Os melhores presentes não vêm em caixas com laços de fita. Eles vêm embalados em gestos feitos de coração quando estou rodeada de pessoas queridas.

Em uma data tão especial quanto o próprio aniversário, poder estar em uma expedição internacional, responsável por produzir as primeiras imagens subaquáticas que a humanidade já viu de um cantinho oculto do planeta, no fundo do oceano, os Corais da Amazônia, e ainda pilotar o navio do Greenpeace em meio a tanto carinho, fez esse dia realmente inesquecível.

Obrigada tripulação do Esperanza. Obrigada Greenpeace.

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Juliana Costta está a bordo do navio Esperanza e é social media do Greenpeace Brasil