Toras de madeira sendo transportadas em balsas na Indonésia. A concessão florestal é da empresa April, segunda maior produtora de papel e celulose no país asiático (© Kemal Jufri / Greenpeace).

 

Reconhecida produtora de papel e celulose da Indonésia, a empresa April tem uma história conturbada com o Conselho de Manejo Florestal (ou FSC, na sigla em inglês). Na última semana, porém, essa relação finalmente chegou ao fim – e da forma mais inesperada possível.

Na última sexta-feira chegaram notícias de que, antes mesmo que o processo de denúncia de uma ONG já iniciada no FSC tivesse sequer a oportunidade de dar início às investigações sobre as práticas de desmatamento da April, a compania deliberadamente se retirou do regime de certificação do conselho. Aparentemente, a empresa não quis se arriscar nas minuciosas averiguações da Política de Associação do FSC.

Esse passo marca o fim do que vinha sendo um relacionamento atribulado entre uma conhecida destruidora de florestas e o FSC, mas também sinaliza o início de uma campanha de marketing que a April está empreendendo para tentar administrar essa sua má reputação.

Após a sua saída do FSC antes mesmo de ter sido expulsa, a empresa agora parece estar torcendo para evitar uma aparição pública que, de fato, relacione suas práticas à destruição das florestas.

Histórico duvidoso

A história teve início em 2008, quando a April convenceu um certificador do FSC de que eles levavam a questão da proteção florestal a sério. A empresa, então, foi autorizada a comercializar alguns de seus produtos com o logo do FSC, desde que eles não fossem feitos com fibra proveniente de fontes 'não controladas' - tais como o desmatamento.

Mas depois de apenas dois anos, o certificador do FSC decidiu cortar os laços com as fábricas da April na Indonésia, tendo como principal fator o fracasso da empresa em cumprir um prazo "para parar toda a conversão de floresta natural". No entanto, sendo um ator global na indústria do papel, a April tinha uma série de fábricas-irmãs na China, que ainda tinham o direito de usar o logo do FSC em alguns produtos.

O Greenpeace, junto com a WWF e Rainforest Action Network (RAN), pensou que era apenas uma questão de tempo para que a April fosse obrigada a deixar de usar o logo do FSC para pintar a sua imagem de verde, em qualquer lugar do mundo. Em maio, as três organizações apresentaram uma queixa formal ao conselho, pedindo que desassociasse a marca de todas as empresas ligadas à April, incluindo aquelas que ainda detêm certificados FSC.

As notícias mais recentes mostram que a April não queria se envolver em uma confusão criada por ela mesma. A empresa ter solicitado que todos os seus certificados FSC fossem retirados coloca em pauta uma outra questão: por que os certificados foram concedidos num primeiro momento?

Se o FSC existe para evitar o uso de seu logo por empresas não comprometidas com os princípios fundamentais básicos do manejo florestal responsável, precisa reforçar os seus devidos procedimentos de diligência como parte de sua política para a Associação.

Claramente, o fiasco da April mostra como algumas empresas vão tentar evitar os holofotes quando estes lhes acharem – e irão evitar também a responsabilização por crimes florestais documentados em denúncias de outras ONGs para o FSC.

A April não pode simplesmente "administrar" a sua má reputação e tentar escapar do exame minucioso do conselho. Junto com nossos colaboradores, nós do Greenpeace continuaremos investigando e expondo a destruição das florestas ao redor do mundo.

Junte-se a nós para saber mais.

* Bustar Maitar é coordenador da Campanha de Florestas da Indonésia e parte do Greenpeace do Sudeste Asiático