Para este Dia Mundial da Água, 22/3, realizamos uma “tomografia” no maior sistema de abastecimento de água do País e descobrimos que, apesar da recuperação dos reservatórios em função das chuvas, ele continua vulnerável em sua função de fornecer água limpa

 

Assim como a tomografia utiliza imagens em alta definição para visualizar as estruturas e órgãos internos do corpo humano, usamos imagens de satélite para avaliar o Sistema Cantareira para além do nível d’água. No estudo encomendado pelo Greenpeace foi observado o uso e a cobertura do solo, que vai muito além do entorno do reservatório – compreende mais de 288 mil hectares e 12 municípios - clique na imagem acima para baixar o infográfico.

O que esse exame revelou foi uma enorme “pressão alta” no sistema: 70% de toda a paisagem já foi alterada pelas atividades humanas, sobretudo pastagens e plantios de eucalipto. Da vegetação natural restam apenas 15%. Das APPs,  as Áreas de Proteção Permanente, que ficam nas margens de rios e topos de morros e não podem ser desmatadas, pois têm o dever de proteger os cursos d’água, 74% já estão ocupadas por atividades econômicas.

Vista panorâmica da represa Jacareí, parte do Sistema Cantareira, cercada por pastos e condomínios, em meio à crise hídrica de 2015. Foto: Zé Gabriel/Greenpeace.

 Como as células de defesa de um organismo, as matas ciliares servem de filtro natural para que poluentes e detritos não cheguem aos rios. Para o “paciente” Cantareira, cujo sistema imunológico anda baixo, os riscos imediatos desta pouca proteção são de erosão e assoreamento; eutrofização, causada pela contaminação por fertilizantes e agrotóxicos usados em plantações e pastagens; e poluição por esgoto doméstico. “Outro risco a longo prazo da eliminação da floresta é a redução ou perda da função ecossistêmica de regular o clima e o fluxo hidrogeológico, que pode se refletir em menor ocorrência e aproveitamento das chuvas”, explica o pesquisador Leandro Tavares Azevedo Vieira, doutor em Ecologia e professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, que conduziu o estudo com a pesquisadora Thais Nícia Azevedo Vieira, mestre em Ecologia da Paisagem.

A represa Jacareí, parte do Sistema Cantareira, durante a crise hídrica de 2015: cenas como essa se repetirão se as áreas desmatadas não forem recuperadas.

 

Sem floresta não tem água

O tratamento para esse tipo de problema é mais que conhecido: recuperar as matas nas APPs já é determinado por lei, mas isso precisa avançar para as pastagens degradadas. E por onde começar? No estudo, os pesquisadores classificaram todo o território em três níveis de prioridade de recuperação: média, alta e muito alta. Foi levado em conta quatro fatores relacionados ao maior aproveitamento hídrico em cada área:

1. Proteção dos recursos hídricos, a partir das áreas de proteção permanente. Em todo o Sistema Cantareira, 73% das APPs estão sendo ocupadas;

2. Recarga hídrica, pela capacidade de infiltração da água na rocha por meio de análise do tipo de aquífero da região e da composição e profundidade dos solos;

3. Relevo do terreno – os mais declivosos tendem a absorver menos água superficial da chuva;

4. Ocorrência de chuvas, que está diretamente ligada à quantidade de água que entra no Sistema.

Segundo esses critérios, o que se pode observar é que as áreas mais prioritárias (31% de todo o sistema) se concentram na região norte do Cantareira, onde há mais chuvas, maior recarga nos aquíferos e maior densidade de APPs. Outro ponto a ser observado é que a maioria das áreas destinadas à recuperação pelo programa Nascentes, do Governo do Estado de São Paulo, estão localizadas, em sua maioria, nas áreas de média prioridade.

Neste Dia Mundial da Água precisamos cobrar mais ação do poder público. Ainda que os reservatórios tenham se recuperado aos níveis anteriores à seca, não podemos continuar dependentes da generosidade de São Pedro. A crise hídrica foi como uma febre que passou sem que a infecção do paciente tenha sido curada.

“O Sistema Cantareira continua vulnerável e não são canos e dutos de interligação que evitarão uma nova falta d’água no futuro. O governo do estado de São Paulo precisa cadastrar adequadamente as propriedades rurais e incentivar a recuperação florestal nas áreas essenciais de proteção. Sem floresta não tem água”, diz Fabiana Alves, da Campanha de Água do Greenpeace.

Clique para baixar o estudo na íntegra: