*Por Sergio Leitão - Diretor de campanhas do Greenpeace Brasil

Chico Buarque lançou em 1975 o seu primeiro livro intitulado Fazenda Modelo, uma “novela pecuária”, best-seller do ano. À moda de Orwell, Chico criticava o autoritarismo da ditadura militar personificado no boi Juvenal, arquétipo dos generais que mandaram no país, que ocupava o cargo de conselheiro mor da Fazenda Modelo, que era o próprio Brasil.

Juvenal se justificava dizendo que o objetivo das suas medidas autoritárias era “aprimorar o nível qualitativo de nossos rebanhos”, cuidando, assim, das múltiplas facetas da questão, a começar pela “rentabilidade ínfima da produção agropecuária”.

De 1975 para cá, a agropecuária nacional continuou entregue aos cuidados de Juvenais, que se esforçavam para explicar ao mundo o que ocorre em nossos pastos. Recentemente, para dar conta dessa tarefa bovina, o Ministério da Agricultura (MAPA) jogou o seu laço sobre a fina flor da burocracia nacional, os Itamaratecas do Ministério das Relações Exteriores.

São os discípulos do Barão do Rio Branco que vão ajudar o Departamento de Promoção Internacional do Agronegócio, abrigado no MAPA e chefiado pelo economista Eduardo Sampaio Marques. Eduardo acaba de liderar uma sessão de capacitação do time que vai defender o agronegócio pátrio da inveja dos países que não querem ver o Brasil realizar o seu destino manifesto de ser uma grande nação.

Integrada, entre outros, pelos diplomatas Arthur Nogueira (servindo nos Emirados Árabes Unidos), Eduardo Teixeira (servindo no Japão) e Regina Bittercount (servindo na Inglaterra), essa valorosa tropa passou duas semanas entre os estados de Pernambuco, Bahia, Minas Gerais, Paraná e São Paulo, visitando fazendas e entidades de classe do setor, recolhendo insumos que permitam qualificar a sua atuação e demonstrar ao mundo que o Brasil é um país sério, onde vale a pena investir. Batizado com o nome de “Programa de Imersão no Agronegócio Brasileiro”, a iniciativa bem que poderia ser séria e servir para qualificar a atuação de um setor que é vital para a economia brasileira.

Infelizmente, assoberbados pela urgência de defender o interesse nacional, não foi possível aos nossos valorosos diplomatas se ocuparem de problemas menores, como o uso do trabalho escravo no campo, a destruição das florestas situadas nas margens dos rios, a invasão das terras públicas na Amazônia e a violência dos pistoleiros que a mando de grandes fazendeiros continuam a assassinar trabalhadores rurais, impunemente. Problemas esses que, gostemos ou não, se não forem resolvidos, continuarão a manchar a imagem do país no exterior.

Pelo visto, com essa agenda de ficção, é bem capaz da próxima etapa do programa de imersão dos diplomatas se realizar no reality show “A Fazenda”, da Rede Record, com direito a aulas de Dado Dolabella. Aliás, no país da piada pronta, como diria o José Simão, o chefe do Eduardo Marques no MAPA chama-se Célio BROVINO.