Joaquim Belo, presidente do CNS (Reprodução / Acervo Pessoal Joaquim Belo)

Três décadas após a criação do Conselho Nacional dos Seringueiros (CNS) por Chico Mendes e vários de seus companheiros, a entidade, hoje chamada Conselho Nacional das Populações Extrativistas é gerida por um filho legítimo da maior conquista de Chico: o conceito das reservas, de desenvolvimento sustentável e extrativistas.

Morador do projeto de assentamento Foz do Rio Madeirão Velho, no Amapá,  Joaquim Belo só conheceu Chico Mendes com a repercussão de seu assassinato.

“Fui conhecer a figura brilhante do Chico na morte dele, enquanto eu me envolvia mais e mais  com o trabalho na reserva de Cajari”, conta. Mas logo percebeu que a luta iniciada por Chico, Wilson Pinheiro e tantos outros era a luta que ele mesmo sempre travara. “Percebi que o meu modo de vida se enquadrava justamente no modelo que eles defenderam na primeiras quatro reservas criadas”.

E a partir daí, se envolveu mais e mais no sindicalismo e nos movimentos locais em favor dos trabalhadores e comunidades amazônica. Ele resume a própria história como “a de um cidadão que mora na floresta, que tem uma relação e um modo de vida extremamente afetuoso com a floresta, e que trabalha com a floresta em pé”. Confira alguns trechos da entrevista:

Pode contar um pouco de sua trajetória até o CNS?

Cheguei no CNS na verdade através de um amigo chamado Pedro Ramos, que vem do início junto com Chico Mendes e viveu essa historia bonita de luta pela defesa dos extrativistas naquele momento. Eu sou técnico em agropecuária formado pelo instituto da família no Espirito Santo, que era apoiada pelo sindicato que o Pedro Ramos era presidente, e quando cheguei em 92 formado no ensino médio, e trabalhando voluntariamente no sindicato rural, no ano seguinte ele me convidou pra ajuda-lo no CNS, que estava iniciando o trabalho que ia fazer o cadastramento na reserva Cajari naquele momento, e eu fui convidado a ir pra lá.

Fiquei uns dois anos trabalhando com ele nessa pauta do cadastramento da reserva de Cajari. Em 98, eu fui convidado pra fazer parte da organização, do encontro estadual, e acabei indo. Na volta, fui eleito coordenador regional do estado do Amapá e fui me envolvendo mais e mais no trabalho. No levantamento da reserva, o que ela representava enquanto espaço territorial naquele momento, já que Cajari estava entre as quatro primeiras reservas extrativistas criadas, ainda no final do governo Sarney, junto com a Chico Mendes, Ouro Preto e Juruá.

Então eu fui estudando, começando a entender os documentos, os processos. Eu não fiz parte do início do processo, mas fui compreendendo que o que eu fazia no meu dia a dia, no meu modo de vida foi aquilo que o Chico, junto com outros grupos que começam com Wilson Pinheiro e tantos outros, que trabalharam muito pra que esse modelo fosse criado juridicamente, quer dizer, eu percebi que o meu modo de vida se enquadrava justamente no modelo que eles defenderam na primeiras quatro reservas criadas.

E meu envolvimento aí só aumenta. Fui coordenador regional no Amapá, no ano seguinte fui eleito para o conselho deliberativo nacional e fui galgando até a presidência. A minha história de vida é a de um cidadão que mora na floresta, que tem uma relação e um modo de vida extremamente afetuoso com a floresta, que trabalha com a floresta em pé. Eu fui entendendo que dentro dos diversos ecossistemas cada sistema desses tem um tipo de produção que atende muito bem o público que está lá, que é a castanha, o açaí, a borracha, o babaçu, enfim, é um conjunto de produtos que tem na natureza e que se relaciona com o povo de acordo com o ambiente que ele está habitando.

Como foi seu primeiro contato com Chico Mendes, em que momento da sua vida esse contato aconteceu?

Na verdade eu ouvi falar do Chico na morte dele. Meu pai era sindicalista, conviveu com ele. Pedro Ramos também conviveu com ele, mas eu só fui ouvir falar do Chico por ocasião da morte dele, que foi aquela comoção. No interior a gente não tinha televisão mas tinha rádio.  E a gente ouvia falar da morte do ambientalista Chico Mendes, aquela questão toda que ficou na mídia por tanto tempo. Era radinho de pilha né, a gente escutava muito a voz do Brasil, tinha a rádio nacional de Brasília, então eu ouvi muito, fui conhecer a figura brilhante do Chico na morte dele, enquanto eu me envolvia mais e mais  com o trabalho na reserva.

Ouvia muito sobre os companheiros de Chico, também? Você se inspirou muito nessas pessoas?

Os primeiros, que começaram mesmo junto com ele foram o Julio Barbosa, Maria Alegretti, Atanagildo Matos, seu Raimundão lá do Acre, pessoas que foram grandes inspiradores, ficaram com esse legado do Chico e passando para outras gerações assim como eu e que me serviu muito, foi de uma riqueza fantástica para que eu pudesse ter a consciência e pudesse ter o papel que tenho hoje, de representar essa instituição e estar multiplicando esse ideal do Chico que não é uma causa, é a vida das pessoas, é a vida do nosso povo da Amazônia que teve seu modo de vida desenhado pela convivência de milhares de anos com a floresta, e esse público é um público muito grande hoje na Amazônia, é um público gigantesco.

E em termos de conquistas? Qual a principal na sua opinião?

Nossa conquista hoje tá em torno de quase 40 milhões de hectares traduzidas nesse modelo de reforma diferenciada que a gente chama, que é nossas reservas extrativistas, nossos assentamentos extrativistas, reserva de desenvolvimento sustentável, então esses territórios de uso coletivo que são nossos lugares de moradia e produção acima de tudo, essa conquista é muito grande. Quando eu comecei a conhecer essa história, das quatro reservas criadas,  e a aprender com essas pessoas, isso pra mim, faz com que eu faça o que faço hoje com uma consciência aguçada do meu papel na defesa desse modo de vida, na conservação, no desenvolvimento sustentável, na manutenção do equilíbrio e da harmonia nos biomas brasileiros, e no mundo também.

Qual a situação da sua comunidade e da reserva de Cajari hoje, vocês convivem com a violência que assola tantas outras reservas? Vocês lidam com roubo de madeira, ameaças e outros tipos de violência?

Pois é. Primeiro, é impressionante como essa situação quase pouca coisa mudou, da violência, dos saques de recursos naturais das comunidades, ainda agora duas semanas atrás teve a maior apreensão de madeira da história, na região de Marabá. E quando você olha a região de Marabá, é uma região que tem tido o acesso muito facilitado, então dá pra gente analisar que essa questão da extração ilegal de madeira, a corrupção no setor continua muito forte, que as pessoas e esses grupos ainda se sentem muito a vontade para fazer o que fazem e há uma dificuldade muito grande do estado em dar uma resposta em cima dessa situação toda. E aí pega essa situação de Marabá , por exemplo, e imagine essas comunidades que estão mais distantes, isoladas  da presença do estado, como é o caso de Melgaço e tantas outras.

Então isso demonstra que os saques, a ilegalidade, essas coisas continuam com uma voracidade gigantesca em cima desses territórios, por isso que a gente briga muito pelas reservas extrativistas, que no governo Dilma tivemos a infelicidade de não criar nenhuma, e a única esperança que a gente tem é a criação do território, e a hoje a dificuldade tem sido muito grande em novas criações porque a frente do agronegócio quer impedir a criação de reservas, desses nossos territórios a qualquer custo, mas é o mínimo que a gente pode ter, a garantia ao território.

A garantia ao território traz consigo as demais?

É o primeiro passo, com ela você tem o mínimo, que é a garantia da preservação da vida. Porque, pela nossa história de luta, nós nunca ouvimos falar que mataram uma liderança dentro de uma reserva criada, geralmente morre num assentamento extrativista, porque com todo o respeito e importância que tem os assentamentos extrativistas, uma vez que se tornou uma coisa muito banal, o respeito também passou a ser mínimo. Já contra a reserva, é muito mais difícil atentar, fica um defunto mais caro pro crime.

Então a gente lamenta muito por não terem sido criadas novas reservas na nossa Amazônia, mas estamos firmes, fizemos um pacto para que até julho de 2014 a gente crie novas cinco reservas. No chamado das florestas fizemos esse pacto com o governo federal, com a ministra do meio ambiente e secretaria geral da presidência para a semana do meio ambiente.

A violência continua, nas nossas terras por aqui não é diferente. Particularmente, não digo que sou ameaçado de morte porque tomo muito cuidado com isso. Até porque hoje, são poucos os lugares em que o crime organizado ainda ameaça. Eles estão atuando de uma outra forma, já estão executando ao invés de ameaçar, porque quando ameaça tem a questão da visibilidade e tal, e quando matam diretamente fica mais fácil até de se livrarem.

Então essa questão da violência aqui no Amapá, que até viveu em harmonia nesse aspecto mas neste momento já temos conflitos gigantescos, companheiros que correm risco de morte e a gente tenta trabalhar de forma que não nos deixe tão expostos nesse aspecto e não sermos vitimados por esse segmento.

Vocês usam ou chegaram a usar alguma técnica de enfrentamento aos moldes dos empates?

Não, dessa forma não. Ajudei logo no início, com a Irmã Dorothy, a fechar estrada, fechar ponte, por semanas e tal, isso a gente chegou a fazer na região da Transamazônica, mas nesse nosso ambiente aqui, não. Mas no caso do Pará chegamos a fazer não embate pela floresta, mas em rodovias, em pontes, chamando a atenção justamente para a necessidade de criação de novos territórios.

Do ponto de vista daquelas lutas maravilhosas que o Chico fez, não chegamos a realizar esse tipo de ação, de embate na floresta para impedir desmatamento, mas com certeza tiramos inspiração delas para fazer as nossas próprias ações.

Como você enxerga o modelo de desenvolvimento para Amazônia que temos hoje? Mega obras, ameaças constantes da bancada ruralista nas esferas políticas...

Primeiro que o modelo que está sendo implementado para Amazônia é caótico, crítico. Crítico porque é um modelo extremamente degradador, e nesse sentido o governo está refém desse processo, desse poder hegemônico que está consolidado nesse país de uma forma bem estruturada, e aí eu confesso que não vejo um caminho claro no sentido de reversão para esse processo. 

O que temos feito nesse aspecto, é fazer com que o governo também atenda nossas reinvindicações, porque o que está acontecendo na Amazônia neste momento é um sistema que está colocando um grau de perigo muito grande, porque essa infraestrutura toda que o governo está investindo para Amazônia é uma infraestrutura que está trazendo consigo a migração de diversos segmentos, inclusive segmentos endinheirados pra Amazônia, e junto com isso vem muita gente tentando arrumar trabalho, e isso vai estabelecer um conflito muito grande e que não vai demorar na região, se o governo também não atender as nossas reinvindicações.

E aí o ataque não passou a ser contra uma classe, contra um setor, mas contra o sistema ambiental desse país. E eu fico muito triste  quando vejo alguns técnicos ligados a área da conservação que ao invés de ver o extrativista como um bom aliado acham que somente parques conservam, e nem consideram o nosso segmento como possível aliado na mesma luta.

Mas também já existe muita gente com mentalidade diferente, que pensa na lógica do ou se junta todo mundo, ou todo mundo vai sucumbir nesse modelo que o governo federal está implantando para a Amazônia. Estamos passando por um momento crítico, e esse momento vai carecer do nosso papel como entidades mobilizadoras e de enfrentamento pra que o governo dê atenção as nossas pautas.

Nós temos claro que  governo não vai frear nesse modelo hegemônico que está sendo implantado, então o que nos cabe é mobilizar. E aí são todos os segmentos, ambientalistas, ativistas, trabalhadores, índios, extrativistas. Ou nos juntamos ou vamos sucumbir todos.

O sistema, unidades de conservação, terras indígenas, comunidades quilombolas, todos estão ameaçados, então não tem ninguém melhor do que ninguém neste momento, e isso precisa ser compreendido por todos os segmentos, que precisamos estar juntos para enfrentar esse projeto de grandes obras e investimentos na Amazônia que vai trazer o caos para todos nós.