André Muggiati, da equipe do Greenpeace, está na Lousiana, acompanhando a limpeza do óleo que vazou no Golfo do México no desastre da plataforma Deepwater Horizon.

Leia abaixo o relato da expedição do dia 10 de maio:

"O dia começou cedo. Compramos as cartas náuticas que precisávamos em uma loja de artigos para navegação para melhor localizarmos, na costa, o óleo que atingiu as praias. O cara que nos atendeu na loja, Mark, pareceu curioso a respeito do que estávamos fazendo ali. Dissemos que éramos do Greenpeace e, pelas cartas que pedimos, ele logo adivinhou que estávamos atrás do vazamento da BP, o que nos levou à seguinte conversa: “Nós lucramos às custas do petróleo nos últimos vinte anos. Mas qual o custo disso?” A preocupação com as consequências da tragédia era visível em seu rosto. Quando eu perguntei o seu sobrenome e cargo na loja, ele me pediu para não mencionar. “É ruim para o negócio”. Sinal de que pretendem continuar lucrando com petróleo.

Partimos então do porto, em Venice, Lousiana, pela foz do rio Mississipi, com um cinegrafista da Reuters e uma repórter da National Public Radio, dos EUA, no nosso barco inflável Billy Green. Alguns quilômetros depois, percebemos que a ‘coisa’ subia o rio. Assustador. As barreiras de retenção de óleo se estendem por toda a margem. Um pouco depois, encontramos homens trabalhando para a BP, na limpeza de uma praia, retirando areia suja de óleo. Não pudemos atravessar a barreira de retenção, a cerca de 25 metros da praia. Rick Steiner, o especialista que trabalhou no vazamento do Exxon Valdez há 20 anos e está nos ajudando, aponta grandes manchas pretas na margem.

Conforme nos aproximamos da barreira, escutamos uma buzina. Um minuto depois, um barco sem identificação se aproxima. Os homens do barco dizem. “Vocês não podem ficar aqui”. O cinegrafista da Reuters responde, indignado: “Eles não têm autoridade pra isso!” Fotografamos a operação de limpeza e decidimos prosseguir, quando chega a guarda costeira, provavelmente chamada pela BP. Depois de muito blá blá blá e “vocês não podem ficar aqui, estão atrapalhando a limpeza”, obedecemos, ainda que estivéssemos muito longe.

Saindo dali, paramos para tirar dúvidas com o pessoal do primeiro barco. Perguntamos se estavam trabalhando para a BP – hesitantes, disseram que sim, e se eram encarregados da limpeza da praia. A resposta foi: “Vocês têm que voltar para a cidade e perguntar para o pessoal autorizado”. Transparência, definitivamente, não é a palavra por aqui.

Você pode fugir, mas não se esconder

Paramos em uma praia próxima ainda sem contenção onde havia sido encontrado óleo. Embora soubesse que fui para ver isso, o encontro me deixou chocado. As pequenas manchas de óleo estão em toda parte na areia, visíveis imediatamente quando descemos do barco. Mas ficou ainda pior quando notamos que o óleo ficou grudado nas gramíneas do bayou (vegetação típica do delta do Mississipi) quando a maré baixou. Eu pergunto para Rick Steiner: “Isso é apenas a ponta do iceberg, não?” Ele reponde: “Sim, este é provavelmente o óleo que vazou logo depois do acidente, há 20 dias, e está chegando nessas praias agora. Mesmo se a BP contivesse o vazamento hoje, ainda há pelo menos 20 milhões de litros de óleo lá embaixo, prestes a emergir em qualquer lugar, como aqui”. É terrível imaginar isso. “O que é pior é que a temporada de furacões está prestes a começar e deve trazer à tona o óleo que está lá embaixo, espalhando por todo o delta”. Um verdadeiro filme de horror.

A batalha legal

Quando cheguei ao hotel à noite, foi nojento ver a propaganda, na TV, de um advogado oferecendo seus serviços às vítimas do óleo. Depois de oferecer um número telefônico gratuito, o advogado anuncia: “Se você se sente prejudicado ou está perdendo dinheiro, ligue agora!” A propaganda é dirigida a donos de restaurantes, pescadores e outros comerciantes. Enquanto isso, a BP oferece US$ 5 mil a cada pescador, claramente com o objetivo de evitar as ações na justiça. A empresa chegou a circular um documento para ser assinado pelos pescadores abrindo mão de processos judiciais, mas interrompeu a solicitação depois que o caso se tornou público.

Uma outra batalha judicial deve se iniciar com um pedido para o governo americano interrompa a BP de lançar dispersantes sobre o óleo. “No final de semana podíamos sentir o cheiro dos dispersantes do cais”, me contou um comerciante. De acordo com Rick Steiner, os dispersantes são tão tóxicos quanto o óleo e têm o objetivo de fazê-lo afundar, sumindo da superfície. Melhor para os pássaros, pior para os peixes.

Excelente para a imagem da BP. Péssimo para o meio ambiente."