Em sua coluna de ontem, na Folha de São Paulo, o ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues lembrou, em tom otimista, que negociações diretas com a União Européia podem sorrir mais ao Brasil do que a Rodada Doha (negociações internacionais para tornar as regras de comércio mais livres para os países em desenvolvimento).

Ele lembrou que a UE já compra um terço de tudo o que exportamos do nosso agronegócio. E esta posição dá ao bloco o poder de fazer exigências rigorosas sobre nossos produtos.

De fato, esse "cliente" internacional é capaz de mudar muito o comportamento das nossas práticas agrícolas, já que muitas exigências que não são feitas pelos clientes brasileiros são cobradas pelos europeus.

O próprio Sisbov é um exemplo. Trata-se de um sistema de rastreabilidade que leva informações (basicamente sanitárias) do rebanho para o comprador final. Apesar de voluntário, o Sisbov se torna obrigatório para quem quer exportar para o bloco europeu.

Outro bom exemplo de influência do bloco está no arroz brasileiro. De 2003 a 2008, produtores do sul do País conseguiram dar um salto de produtividade, de 2 mil kg/ha em média para 7 mil kg/ha. Com o aumento da produção, os arrozeiros precisam agora achar novos compradores, e que paguem o preço que cubra o investimento. Pensando na Europa, se posicionaram contrários ao arroz transgênico, que não é liberado por lá.

O produto mais promissor nos próximos anos é o biocombustível. Segundo Weber Amaral, da EsalQ, entrevistado pelo Estado de S. Paulo (domingo, 13/set), com a introdução de motores flex na Europa, e a necessidade de diminuir emissões dos gases do aquecimento global, a demanda por biocombustíveis (hoje 3% do consumo global de combustíveis, segundo ele) vai crescer muito (representando até 20% deste consumo nos próximos 15 anos).

A consequência imediata disso é o aumento da área plantada de cana de açúcar no Brasil, que deve saltar de 8 milhões de hectares, hoje, para 21, em 15 anos (a mesma extensão ocupada hoje pela soja - que invadiu a Amazônia e o Cerrado, e que também pode expandir com a demanda por biodiesel...).

Enfim, o comportamento do mercado europeu é uma tendência global. Podemos nos antecipar, evitar os vícios do passado, e garantir mercados no futuro. Vai depender da queda do conceito da "produção a qualquer custo", inclusive o ambiental.