Imagem geral da Terra Indígena Alto Turiaçu, no estado do Maranhão (© Greenpeace)

50 mandatos judiciais, 21 prisões preventivas, calhamaços de documentos levados para análise, equipamentos apreendidos e madeira que não acaba mais. Os resultados da operação deflagrada pelo Ibama em parceria com a Polícia Federal na semana passada escancararam fragilidades preocupantes no sistema de controle para o setor.

Segundo o órgão ambiental, apenas em 2013 quase 500 mil metros cúbicos de madeira nobre serrada entraram nos estados do Maranhão e Pará por meio de certidões ‘esquentadas’. Para se ter uma ideia, o volume representa cerca de 14 mil caminhões abarrotados de toras.

Os fraudadores encontraram uma brecha no sistema do Ibama que os permitia simular compra e venda de madeira com o cadastro de empresas autorizadas para tais transações. Com a negociação fictícia, eles transferiam os créditos de licença para empresas fantasmas que, por sua vez, roubavam madeira de reservas, terras indígenas e unidades de conservação, já que tinham em mãos os documentos necessários para ‘legalizar’ a mercadoria.

Gurupi e Alto Turiaçu

A operação teve como foco a exploração predatória na Reserva Biológica do Gurupi e em terras indígenas situadas entre os estados do Maranhão e Pará, como Awá, Caru, Alto Turiaçu e Alto Rio Guamá. Coincidência ou não, regiões em que o Greenpeace esteve presente recentemente.

“Visitei a Terra Indígena Alto Turiaçu e o que presenciei foi uma situação desoladora. Um deles tinha sido espancado recentemente por madeireiros invasores, e nem sequer conseguiu registrar queixa, já que as autoridades criavam dificuldades, também com temor de represálias. Ameaças são constantes, ouvi relatos até mesmo de expulsão de uma tribo inteira de sua terra natal, rica em madeira de alto valor comercial”, relata Rômulo Batista, da campanha Amazônia do Greenpeace.

Em visita posterior à região, um repórter da revista Carta Capital detalhou em três páginas o drama dos índios na região. Agressões e ameaças por parte de madeireiros, invasões para retirada de madeira nobre, cooptação de lideranças e várias outras mazelas.

Ações de fiscalização são de suma importância em regiões críticas como as áreas contempladas na ação batizada de “nuvem negra”. Mas devem ser regulares, continuadas e ter efeito prático a médio e longo prazo. Caso contrário, em questão de meses o ciclo da violência e ilegalidade acaba reestabelecido pelos criminosos da floresta e seus aliados, espalhados por órgãos públicos, ocupando cadeiras no senado, congresso e tantas prefeituras e postos de liderança política pelos rincões amazônicos do Brasil.

“Precisamos de consistência nas ações de fiscalização. Afinal, apreensões e multas pontuais, além de servirem como soluções paliativas, acabam deixando os índios ainda mais vulneráveis a agressões e vingança por parte dos criminosos”, explica Batista.