Indígenas desocuparam nesta quinta-feira o canteiro de obras de Belo Monte, mas mantêm sua luta em defesa dos direitos dos povos de todo o Brasil (©Ruy Sposati/Cimi).

“Paz sem voz não é paz, é medo”, diz a música “Minha alma”, da banda O Rappa. Ultimamente, esse tem sido o lema dos povos indígenas brasileiros. Os Munduruku, que habitam as margens do rio Tapajós, não são da guerra, nem tampouco são do medo. Na sua luta silenciada, é justamente a paz que eles buscam.

E foi em nome dela que, na noite desta quinta-feira (9), os cerca de 150 indígenas que ocupavam desde o dia 2 de maio o principal canteiro de obras de Belo Monte, no município de Vitória do Xingu (PA), desocuparam o local, atendendo à decisão judicial de reintegração de posse. Os indígenas saíram afirmando que, diferentemente do governo, eles cumprem as lei do Brasil.

“Decidimos desocupar o canteiro para mostrar que somos de paz, e que o governo não precisa colocar a força policial para nos fazer cumprir as decisões da Justiça. Saímos de lá, mas a nossa luta continua, vamos persistir na defesa de nossos direitos. O governo está desrespeitando muito a nossa Constituição. Enquanto eles não nos procurarem para nos ouvir, nós não vamos parar. Vamos lutar até o fim”, bradou Cândido Waro, presidente da Associação Pusuru, do povo Munduruku.

Após a saída do canteiro, os indígenas se dirigiram a Altamira, onde realizaram uma assembleia para avaliar os próximos passos. Ficou decidido que apenas parte do grupo voltará às aldeias, o restante continuará acampando nas dependências da Paróquia Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, no município.

Outras autoridades estiveram presentes no canteiro de obras para tentar conversar com os indígenas, como o deputado Padre Ton (PT-RO), que foi impedido de entrar por policiais da Força Nacional de Segurança. Os indígenas, por sua vez, se mantiveram firmes em sua posição e disseram que só irão dialogar com representantes do poder executivo.

“Nós respeitamos e agradecemos todo o apoio que estamos tendo, mas queremos a presença de quem realmente pode resolver os nossos problemas. Por que eles podem mandar os policiais, mas não podem enviar seus representantes para falar com a gente. Só conversamos oficialmente com representantes da Presidência”, afirmou Cândido Waro.

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Além de defender o direito por suas terras já demarcadas, os indígenas também demandam um diálogo com o governo sobre normas que afrontam várias etnias de todo o país, como a Portaria 303 da AGU (Advocacia Geral da União) e a regulamentação do processo de consulta aos povos indígenas previsto na Convenção 169 da OIT (Organização Internacional do Trabalho), da qual o Brasil é signatário.

Sonia Guajajara, representante da Coiab (Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira) e da Apib (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil), afirmou que a saída foi uma ação estratégica que eles acharam para tentar se fortalecer ainda mais. Ela foi uma das lideranças indígenas nacionais que também foi barrada de entrar no canteiro pela Força Nacional.

“O governo diz que não temos uma pauta de reivindicações para discussão, porque eles querem uma lista de bens materiais. Assim seria mais fácil. Eles chegariam com o dinheiro, comprariam o que nós pedíssemos e nos tirariam de lá. Mas nós reivindicamos nossos direitos. Para eles isso não é pauta, porque direito não se pode comprar no mercado”, concluiu.