Anna Marcondes Faria, presidente do Centro Comunitário Lídia dos Santos, em Vila Isabel, no Rio de Janeiro (©Otávio Almeida/Greenpeace)

 

Tem quem acredite no trabalho de formiga, que de pouco em pouco consegue grandes transformações. Seguindo esta filosofia, Anna Marcondes Faria, de 76 anos, desenvolveu projetos sociais ao longo de anos para melhorar a qualidade de vida dos moradores da comunidade de Vila Isabel, no Morro dos Macacos, Rio de Janeiro.

A história de Anna com a comunidade começou em 1958, ano em que se instalou em Vila Isabel com sua família. Ao perceber a situação precária do local, como a falta de luz e água, básicos para a vida, Anna se mobilizou integralmente em prol da comunidade e, a partir de um trabalho da Assossiação de Moradores do bairro, ela planejou e instalou o Centro Comunitário Lídia dos Santos

Com o propósito de dar apoio à deficiência educacional aos jovens da comunidade, o Centro Comunitário começou acolhendo as crianças que saíam das creches. Posteriormente, outros jovens e adolescentes se integraram às atividades do local.

Diversos projetos são responsáveis pela popularização do Centro Comunitário, como um programa que oferece às crianças de 4 a 10 anos educação, música, biblioteca, brinquedoteca e oficinas de arte. São 200 crianças em dois turnos. Outro sucesso foi o projeto de apoio a usuários de droga, que conseguiu recuperar muitos jovens dependentes. Segundo Anna, alguns já estão na faculdade ou até formados.

Os jovens da comunidade tanto se interessam pelos projetos sociais promovidos pela organização que estima-se que pelo menos 16 mil jovens já passaram pelo Centro Comunitário. “O Centro se mantém, primeiro, com um grande esforço da diretoria, que tenta captar recursos de instituições que apoiem nossos projetos. Temos também nossas ações em parceria com a prefeitura, montamos bazar, comitês e eventos que ajudem a manter o nosso centro vivo”. O que Anna vende no bazar, realizado por ela todos os sábados, vai diretamente ao caixa do Centro Comunitário.

As excursões também atraem os jovens e ajudam em sua formação: Anna organiza visitas à um sítio de Petrópolis de um colaborador, onde as crianças fazem atividades, se alimentam e dormem. “Lá é um sítio muito bonito. Tem café da manhã, tem as xícaras, eles ficam encantados de tomar café nas xícaras e almoçar na mesa, porque às vezes as casas são pequenas, não tem mesa pra fazer as refeições”. Segundo ela, eles investem muito em passeios para que as crianças saiam da comunidade e conheçam novos lugares, que talvez inspirem mudanças em suas vidas. Anna completa: “acredito que eles devem ter acesso ao lazer como todas as outras pessoas”.

Com a pacificação, a comunidade está vivendo uma nova experiência em relação à luz, que passará a ser cobrada pela prefeitura. Como a maior parte da fiação funciona de maneira ilegal, os famosos “gatos”, muitos dos moradores não têm gastos com luz, o que permite o uso desenfreado de energia. “Quando não se paga, gasta a vontade. […] Este é um momento para as pessoas terem atenção no gasto excessivo e seu impacto no meio ambiente”, defende Anna. Com essa nova proposta da prefeitura, que tem como objetivo instalar medidores individuais em Vila Isabel para gerar contas de luz, o Centro Comunitário investe na conscientização do uso da energia elétrica.

Portanto, para Anna, o projeto Juventude Solar chegou na hora certa, justamente no momento no qual é necessário economizar energia. Formar esses jovens, que por sua vez passarão conhecimento aos seus amigos e familiares, é uma maneira eficiente de conscientizar a comunidade dessas mudanças referentes ao uso de energia. “Apareceu esse projeto do Greenpeace que traz educação, que é o que mais a gente precisa aqui: educação. E o projeto mostra que na prática também podemos ser responsáveis com nosso planeta”.

O Centro comemora trinta anos de trabalho e assistencialismo. Como diz Anna, “nem tudo são flores”, mas é inegável o sucesso alcançado pelo Centro Comunitário, que deixa como exemplo à todos os grandes resultados que um trabalho de formiga pode trazer. “Ontem foi a lanterninha, hoje a chaleira e a panela. Isso numa comunidade onde muitos cozinham à lenha por não terem um fogão ou dinheiro para o gás. Além da conscientização para o uso correto da energia. E isso, eu acho que vai ser uma revolução aqui na comunidade”.