Por: *Nilo D’Ávilla

Estivesse em qualquer ramo da economia não estatal, o presidente da Eletronuclear, ex-almirante Othon Luiz Pinheiro da Silva, teria sido demitido após sua passagem pelo Congresso no dia de ontem, 23 de março.

O dia do ex-almirante começou com um não-diálogo na Frente Parlamentar Ambientalista. Lá falou sobre tudo, menos segurança nas usinas nucleares de Angra. Rápido como um átomo envolto em vapor d´água, o ex-almirante seguiu para o Senado. Lá teve a vida dificultada por questões mais profundas do que a qualidade do teto das casas no Japão: resíduos nucleares.

Caso o leitor não saiba, informo que todo, eu disse todo o resíduo radioativo gerado pelo programa nuclear brasileiro em seus 30 anos está em lugar provisório e inadequado. Este fato assombroso foi confirmado ontem: não temos local seguro e definitivo para depositar os resíduos das usinas nucleares de angra I e II.

Ontem, o ex-almirante avisou aos senadores que a estatal prepara um “modelo” – uma espécie de maquete de caixa para armazenamento de resíduos. Depois de pronto, o modelo vai ser oferecido às prefeituras como forma de convencimento para que recebam os resíduos. Quem topar, em troca leva uma graninha no fim do mês.

Perceberam? A Eletronuclear, sem nenhum estudo preliminar de segurança, pretende depositar os resíduos nucleares brasileiros na base de quem aceitar receber, em troca, alguns royalties. Em nenhum momento a expressão “local seguro” saiu da boca do ex-almirante. Ele sabe bem que segurança plena e energia nuclear não rimam.

Em outro momento, Othon da Silva falou sobre planos de evacuação. Afirmou que com a futura construção de heliportos e atracadouros na região que “Angra dos Reis estará preparada para evacuação em caso de acidente”.  Peraí, já não deveriam estar? As usinas não estão em pleno funcionamento?

Em suma, caro leitor, o governo começa a licitar em 15 dias a terceira usina na região sem ter destinação para os resíduos, sem ter licença de funcionamento de Angra II e sem termos um plano de evacuação. Já passou da hora da presidente Dilma  demonstrar que preza pela segurança da população e rever os planos nucleares e a matriz energética do país.

*Nilo D’Ávilla é coordenador de políticas públicas do Greenpeace em Brasília

Greenpeace protesta em frente ao Palácio do Planalto pelo fim do programa nuclear brasileiro. Greenpeace/©Felipe Barra


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