Cerca de 200 indígenas de oito povos da Amazônia, junto com ribeirinhos e pescadores, ocuparam o canteiro de obras de Belo Monte contra hidrelétricas (©Ruy Sposati/Cimi).

 

O plano do governo é barrar os rios amazônicos com hidrelétricas que vão afetar seus cursos e aqueles que deles sobrevivem. Mas as populações tradicionais mais impactadas por essas obras não estão deixando barato. Nesta quinta-feira, cerca de 200 indígenas ocuparam o principal canteiro de obras da Usina Hidrelétrica Belo Monte, no município de Vitória do Xingu, no Pará. Eles reivindicam a regulamentação da consulta prévia e a suspensão imediata de todas as obras e estudos relacionados às barragens nos rios Xingu, Tapajós e Teles Pires.

Além de pescadores e ribeirinhos, oito povos indígenas de diferentes regiões da Amazônia estão presentes na ocupação: Munduruku, Juruna, Kayapó, Xipaya, Kuruaya, Asurini, Parakanã e Arara. Segundo os indígenas, a ocupação se manterá até que o governo federal atenda às suas demandas. Como principal delas, eles querem o diálogo. Mas o governo tem se mostrado covarde e omisso. Ao invés de consultar as populações afetadas pelos empreendimentos, como manda a Constituição federal, o governo optou pelo caminho mais tortuoso.

Através de um decreto presidencial, a Força Nacional, quando acionada, agora tem a liberdade para adentrar territórios indígenas com objetivo de “prestar auxílio à realização de levantamentos e laudos técnicos sobre impactos ambientais negativos”. Antes mesmo de ter início a Operação Tapajós, que trouxe os policiais à Terra Munduruku, um indígena já tinha sido morto em Teles Pires e outros foram feridos durante a Operação Eldorado. E foi com a mesma truculência que a tropa de choque da Polícia Militar esperava pelos indígenas em Vitória do Xingu nesta quinta-feira.

O povo Munduruku e comunidades tradicionais do baixo, médio e alto Tapajós estão mobilizadas contra o Complexo Hidrelétrico que está planejado para o rio e envolve sete usinas hidrelétricas. Durante o mês de abril, cerca de 250 soldados da Força Nacional e da Marinha foram deslocados para os municípios onde incidem as áreas afetadas pelos empreendimentos, além do território tradicional dos Munduruku. 

A ocupação de hoje foi uma mostra de que, se o governo não conseguiu barrar a fúria dos indígenas que lutam para defender suas terras e suas famílias, não conseguirá tão facilmente barrar os rios que os banham e alimentam.

 

Carta da ocupação de Belo Monte

Nós somos a gente que vive nos rios em que vocês querem construir barragens. Nós somos Munduruku, Juruna, Kayapó, Xipaya, Kuruaya, Asurini, Parakanã, Arara, pescadores e ribeirinhos. Nós somos da Amazônia e queremos ela em pé. Nós somos brasileiros. O rio é nosso supermercado. Nossos antepassados são mais antigos que Jesus Cristo.

Vocês estão apontando armas na nossa cabeça. Vocês sitiam nossos territórios com soldados e caminhões de guerra. Vocês fazem o peixe desaparecer. Vocês roubam os ossos dos antigos que estão enterrados na nossa terra.

Vocês fazem isso porque tem medo de nos ouvir. De ouvir que não queremos barragem. De entender porque não queremos barragem.

Vocês inventam que nós somos violentos e que nós queremos guerra. Quem mata nossos parentes? Quantos brancos morreram e quantos indígenas morreram? Quem nos mata são vocês, rápido ou aos poucos. Nós estamos morrendo e cada barragem mata mais. E quando tentamos falar vocês trazem tanques, helicópteros, soldados, metralhadoras e armas de choque.

O que nós queremos é simples: vocês precisam regulamentar a lei que regula a consulta prévia aos povos indígenas. Enquanto isso vocês precisam parar todas as obras e estudos e as operações policiais nos rios Xingu, Tapajós e Teles Pires. E então vocês precisam nos consultar.

Nós queremos dialogar, mas vocês não estão deixando a gente falar. Por isso nós ocupamos o seu canteiro de obras. Vocês precisam parar tudo e simplesmente nos ouvir.