"... morreu na contramão atrapalhando o tráfego..." (Construção, Chico Buarque)
No final da tarde de ontem, cerca de 10 horas depois do nosso protesto na Ponte Rio-Niterói para enviar mensagem aos lideres do G20 que as negociações entre eles, hoje em Londres, deveriam incluir não só a crise financeira e econômica, mas também e fundamentalmente o clima e as pessoas aftadas pelas mudanças climáticas, o lugar ficou novamente engarrafado, com carros, ônibus e vans cruzando vagarosamente a distância entre as duas cidades. Desta vez foi a chuva que provocou o transtorno, mas ao contrário do que aconteceu de manhã, a imprensa não se indignou ou fez cálculos de quanto a mais de CO2 foi emitido. Em vez do protesto ambientalista ou da chuva, poderia ser um carro quebrado ou mesmo acidente entre vários veículos a provocar a lentidão no tráfego. Ou mesmo o atropelamento de uma pessoa. A indignação seria a mesma? O trânsito de veículos está acima de tudo e de todos?

A atividade do Greenpeace na Ponte Rio-Niterói escancarou um dos principais problemas de todo grande centro urbano do país, que é a falta de um transporte público de qualidade. Cidadãos são praticamente incentivados a ter veículos particulares para poderem circular por aí, entupindo as ruas e avenidas, provocando acidentes, engarrafamentos e poluição do ar. O problema atinge a todos, democraticamente. É o “direito de ir e vir” baseado no transporte individual, consumista e poluente.

O episódio também revela que os brasileiros ainda não acordaram para a crise climática que vivemos. Não perceberam que estamos ficando sem tempo nem escolha para conseguirmos evitar os piores impactos das mudanças climáticas, que provocarão situações infinitamente mais drásticas e problemáticas do que um engarrafamento numa manhã de quarta-feira.

O protesto do Greenpeace na ponte não foi o primeiro nem o último inconveniente sofrido pela população do Rio e de Niterói que é obrigada a sofrer no trânsito, mas foi atacado como inadmissível, como um ultraje. Poucos pareceram dispostos a entender que o protesto - e seus efeitos colaterais - teve um alvo urgente, a reunião do G20 hoje em Londres e foi feito a partir do Rio de Janeiro como um recado altamente simbólico: no Rio nasceu a Conferência do Clima em 1992 e, 17 anos depois, muito pouco foi feito para evitar a marcha do mundo em direção à catástrofe climática.

Não temos tempo nem escolha: a crise climática é emergencial e exige medidas drásticas e radicais para abrir os olhos dos líderes mundiais, das empresas, dos cidadãos. Não podemos ficar sentados com a boca escancarada , cheia de dentes, esperando que alguma solução mágica aconteça do nada. Se a mesma indignação fosse direcionada à falta de ação contra as mudanças climáticas ou mesmo às autoridades públicas que pouco ou nada fazem para resolver o problema do trânsito, talvez já teriamos encontrado a solução para essas questões.

O Greenpeace não provocou transtornos ao trânsito da Ponte Rio-Niterói deliberadamente, mas estava consciente de que isso poderia acontecer e que valia à pena enfrentar as críticas que viriam porque a causa é justa e urgente. Preferimos enfrentar as críticas pelas ações que tomamos do que pela omissão.

O futuro dependerá daquilo que fazemos no presente, disse uma vez o líder indiano Mahatma Gandhi. Estamos lutando por isso.