Moradores afetados pela cheia no bairro Triângulo, em Porto Velho (© Greenpeace/Lunaé Parracho)

Enquanto o nível do rio Madeira não para de subir em Rondônia - na tarde dessa sexta-feira atingiu 18,6 metros - e milhares de famílias estão desabrigadas, representantes das usinas hidrelétricas de Jirau e Santo Antônio estão trocando acusações a respeito das consequências da cheia histórica que atinge a região, cada uma culpando a outra por parte dos estragos provocados.

Segundo reportagem do jornal O Estado de S. Paulo, a concessionária de Jirau, Energia Sustentável do Brasil (ESBR), atribuiu parte dos estragos na região à operação da Santo Antônio Energia (SAE), devido a elevação da cota do reservatório de Santo Antônio. Já a usina de Santo Antônio declarou que algumas estruturas provisórias de Jirau, como as ensecadeiras, não foram dimensionadas para uma cheia como a atual.

As declarações dos representantes das usinas demonstram que elas foram construídas sem pensar  como enfrentar os eventos extremos e evidenciam a influência da construção das usinas no agravamento da cheia do rio Madeira. Como já vêm afirmando os moradores atingidos, a troca de acusações indicam que as usinas têm potencializado os danos da enchente provocada pelas chuvas nas cabeceiras dos rios que formam o Madeira.

“As empresas e o governo brasileiro devem agir imediatamente para salvaguardar a população local que, historicamente, é a única que paga pelas decisões de Brasília. Estamos perseguindo um modelo energético que insiste em construir hidrelétricas na Amazônia, ignorando as fragilidades da região e os direitos das pessoas. Há opções sustentáveis e de implantação mais rápida como eólicas e parques solares”, disse Ricardo Baitelo, coordenador da Campanha de Clima e Energia do Greenpeace.

Segundo a reportagem do Estadão, o diretor-presidente da concessionária de Jirau disse também que  o aumento da cota do reservatório de Santo Antônio representa aumento na área inundada. Na prática, isso mostra a fragilidade do processo de licenciamento das usinas, cujo projeto original foi alterado no meio do percurso. Além disso, tais projetos jamais poderiam ser aprovados sem pensar em  planos de contingência e mitigação  que considerem eventos extremos como as cheias que acontecem agora.

“O rio está revoltado e as consequências nós estamos sentindo agora. E o pior é que ainda há uma insanidade de projetos como esse sendo defendidos por políticos. A gente vê Belo Monte, Tapajós, Teles Pires e tantas outras sendo pensadas como se a vida da população da Amazônia não valesse nada”, disse Iremar Antonio Ferreira, coordenador do Instituto Madeira Vivo.

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