Dom Tomás, exemplo de luta em defesa da reforma agrária e das causas indígenas e de comunidades tradicionais (Foto: divulgação CPT).

A última sexta-feira (2) foi um dia triste para a igreja católica e também para os defensores dos direitos humanos. Foi a data em que a CPT (Comissão Pastoral da Terra) comunicou o falecimento, aos 91 anos, de Dom Tomás Balduino, bispo emérito da cidade de Goiás (GO) e fundador da organização.

Ao longo de seus anos à frente da pastoral, Dom Tomás lutou por justiça social e pela defesa dos direitos indígenas e de demais comunidades tradicionais, a quem chamava de “o povo da terra”. Nem mesmo com a saúde debilitada e internado no hospital, ele deixava de se preocupar com as questões relacionadas à terra e à reforma agrária.

Em 1950, o bispo lecionou filosofia em Uberaba e, no ano seguinte, se tornou vice-reitor da então Escola Apostólica Dominicana, na Faculdade de Filosofia da cidade de Juiz de Fora. Seis anos depois, em 1957, foi nomeado superior da missão dos dominicanos da Prelazia de Conceição do Araguaia, estado do Pará, onde viveu de perto a realidade indígena e sertaneja.

Na época, a Pastoral da Prelazia acompanhava sete povos indígenas. Para desenvolver um trabalho mais eficaz junto aos índios, Dom Tomás cursou mestrado em Antropologia e Linguística na UNB, que concluiu em 1965. Estudou e aprendeu a língua dos índios Xicrin, Bacajá e Kayapó.

Para melhor atender à enorme região da Prelazia, que abrangia todo o Vale do Araguaia paraense e parte do baixo Araguaia mato-grossense, fez o curso de piloto de aviação. Foi presenteado por amigos da Itália com um avião monomotor “teco-teco”, com o qual prestou fundamental apoio de articulação aos povos indígenas. O bispo também ajudou a salvar pessoas perseguidas pela Ditadura Militar.

Em 1965, ano em que terminou o Concílio Ecumênico Vaticano II, foi nomeado Prelado de Conceição do Araguaia. Lá viveu de maneira determinante e combativa os primeiros conflitos com as grandes empresas agropecuárias que se estabeleciam na região com os incentivos fiscais da então SUDAM (Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia), e que invadiam áreas indígenas, expulsavam famílias sertanejas, posseiros, e traziam trabalhadores braçais de outros Estados, sobretudo do nordeste, que eram submetidos, muitas vezes, a regimes análogos ao trabalho escravo.

Alguns movimentos sociais de âmbito nacional, como o Movimento do Custo de Vida e a Campanha Nacional pela Reforma Agrária, encontraram apoio e guarida de Dom Tomás e nasceram na Diocese de Goiás, onde ele voltou a atuar depois de 1999.

Além da CPT, em 1975, Dom Tomás também foi personagem fundamental no processo de criação do CIMI (Conselho Indigenista Missionário), em 1972.  Nas duas instituições Dom Tomás sempre teve atuação destacada, tendo sido presidente do CIMI, de 1980 a 1984, e presidente da CPT, de 1999 a 2005. A Assembleia Geral da CPT, em 2005, o nomeou Conselheiro Permanente.

Dom Tomás faleceu em decorrência de uma tromboembolia pulmonar, às 23h30 do dia 02 de maio de 2014, em Goiânia, onde estava internado desde o dia 14 de abril. Neste domingo, dia em que o corpo foi velado, Dom Erwin Kräutler, bispo do Xingu e presidente do Cimi, publicou uma nota em sua homenagem.