Laisa dos Santos Sampaio, principal testemunha do assassinato do casal de extrativistas Zé Claudio e Maria do Espírito Santo, sofre ameaças constantes de morte (Foto: divulgação).

O dia 8 de março pode ser comemorativo para a maioria das mulheres das cidades brasileiras, mas, no campo, a data marca mais um dia de luta e dor. Isso porque muitas trabalhadoras rurais ainda vivem, em pleno século XXI, em constante ameaça por defenderem suas terras. Não bastasse investirem seu suor e seu esforço na lavoura para o sustento de suas famílias, elas ainda têm que se preocupar em defender suas casas e escapar das emboscadas de madeireiros, grileiros e fazendeiros escravistas.

Um dos casos mais emblemáticos é o de Laisa dos Santos Sampaio, irmã de Maria do Espírito Santo e cunhada de José Cláudio Ribeiro da Silva – o Zé Castanheira, mortos em maio de 2011, no município de Nova Ipixuna, no Pará. Desde então, ela que é uma das principais testemunhas do assassinato convive com o medo e a tensão pelas recorrentes ameaças de morte. Laisa é o próximo alvo dos pistoleiros porque mantém a luta da irmã e, mesmo depois das ameaças, ainda não recebeu a necessária e urgente proteção do Estado. Recentemente, ela foi à sede da ONU em Nova York receber um prêmio em homenagem ao casal de extrativistas.

Professora de 46 anos, Laisa não abandonou o Assentamento Agroextrativista Praialta-Piranheira. Por conta disso, teve recentemente seu cachorro, que fazia a vigilância da casa, morto a balas, e tem recebido avisos de pessoas para que se cale. Os mesmos sinais foram dados antes do assassinato de Maria e Zé Cláudio. A situação periclitante já foi denunciada à Secretaria de Segurança Pública do Estado, à Secretaria de Direitos Humanos da Presidência e à Casa Civil. Mesmo assim, sua inclusão no Programa de Proteção aos Defensores dos Direitos Humanos foi negada e sua vida continua à mercê da lei do mais forte.

Mais do que uma estimativa

Histórias como a de Laisa se repetem nos lugares mais inóspitos da Amazônia. Assim como a floresta, muitas mulheres também lutam para continuar em pé. Mãos calejadas pelo manuseio da enxada e corações apertados pela perda de familiares e companheiros, elas seguem batalhando pelo direito de trabalhar na terra. Vítimas do desmatamento e do descaso público, elas representam uma importante resistência ao avanço da devastação florestal e à concentração fundiária.

Segundo levantamento de 2011 da Comissão Pastoral da Terra (CPT), mais de 600 pessoas foram mortas em locais de conflito no campo nos últimos 27 anos, e pelo menos 347 continuam ameaçadas. Destas, 18% são mulheres.

Maria Joel Dias da Costa está no programa de proteção do governo desde 2004, mas continua sofrendo ameaças (©Greenpeace).

Maria Joel Dias da Costa, de 50 anos, faz parte dessa estimativa. Contemplada pelo programa de proteção do governo desde 2004, ela conta que passou mais de oito anos na lista de espera. Viúva e mãe de quatro filhos – três mulheres, ela é um exemplo para os membros do Sindicato dos Trabalhadores Rurais do município de Rondon do Pará.

Em 21 de novembro do ano 2000, José Dutra da Costa, o Désinho, com quem era casada, foi assassinado por um matador de aluguel com três tiros no peito, dentro de sua casa. À época, Joelma, como é conhecida, saía apenas para ir à igreja. Quando a dura realidade bateu à sua porta, ela engoliu a tristeza a seco e comprou a briga: foi presidente do sindicato por dois mandatos seguidos, depois convidada a fazer parte da diretoria da Fetagri-PA (Federação dos Trabalhadores e Trabalhadoras na Agricultura do Estado do Pará).

“Querem que acreditemos que nós somos fracas, mas não somos. Eu imaginava que dentro de casa nós estaríamos protegidos. Eu mesma já me livrei da morte mais de três vezes. Nós lutamos pela sobrevivência de nossas famílias. O que pedimos ao Estado é justiça para os que se foram, que os culpados cumpram com suas responsabilidades diante da lei, e proteção para quem ainda está sob ameaça. Se a Maria (do Espírito Santo) estivesse protegida, creio que ainda estaria viva”, disse a sindicalista.

Em homenagem a este 8 de março, o Greenpeace protocolou hoje, na Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, uma carta com um pedido de proteção oficial a Laisa dos Santos Sampaio, estendido também a outras mulheres que defendem suas vidas no campo. Que a luta dessas guerreiras sirva como exemplo de humanidade para todos nesse Dia Internacional da Mulher.

Veja aqui a íntegra da carta.

“A mancha de sangue está se espalhando pela Amazônia. O protetor da natureza é quem vive no meio dela. A vida das pessoas que vivem na Amazônia precisa ser salva. E a situação é urgente. A vida do castanheiro é a vida da castanheira. A floresta Amazônica é viva, é viva de gente. A Floresta e o povo da Floresta estão sendo mortos”, afirmou Laisa, em trecho da petição pública que pede a sua proteção ao governo federal.

Assine a petição.