Centrais nucleares da Areva.
Às vésperas do 22º aniversário do acidente ocorrido na usina nuclear de Chernobyl (em 1986 na
Ucrânia) e que matou mais de 200 mil pessoas, a indústria nuclear
continua patinando em termos de segurança, além de enfrentar também
graves problemas de atrasos em obras e orçamentos estourados nas
usinas em construção em diversos países do mundo.
Ao lembrar as vítimas de Chernobyl, o Greenpeace alerta que a
indústria nuclear não superou sua cultura de insegurança e aponta o
caso do vazamento radioativo ocorrido em novembro passado na
Espanha como emblemático.
Em novembro de 2007, durante uma troca de combustível da usina
nuclear Ascó I, houve um vazamento de material radioativo pelo
sistema de ventilação, que acabou contaminando um contêiner que
estava próximo. Na época do vazamento, a empresa nada comunicou a
população. Até que no início de abril um caminhão deixou o material
que destinava-se a reciclagem fora do sítio nuclear, o que acabou
provocando contaminação em áreas públicas.
No entanto, a empresa responsável pela usina manteve essa grave
quebra de segurança em segredo durante meses. Mesmo após o
Greenpeace ter publicado detalhes do acidente, a Conselho Nuclear
de Segurança (CNS), da Espanha, continuou a subestimar a gravidade
do fato por muitos dias. Pressionado pelas evidências, eles foram
forçados a admitir que o vazamento foi pelo menos cem vezes maior
do que o anunciado inicialmente. Partículas radioativas quentes
foram espalhadas por muitos quilômetros fora da usina e centenas de
pessoas precisaram ser examinadas em busca de uma possível
contaminação.
"Passadas duas décadas, o caso da Espanha mostra que as lições
de Chernobyl ainda não foram aprendidas e que os problemas
inerentes à energia nuclear não foram solucionados. Persiste o
risco de que os reatores nucleares de hoje se tornem a Chernobyl de
amanhã", disse Rebeca Lerer, da campanha de energia do Greenpeace
no Brasil. "A única novidade da indústria nuclear é sua milionária
campanha de marketing para aceitar mudar uma imagem marcada por
desconfiança e insegurança", completa.
Já na França, a maior potência nuclear do mundo, os problemas
envolvem atrasos e orçamentos estourados. O projeto do Reator
Pressurizado Europeu (EPR, na sigla em inglês), da usina nuclear em
construção Flamanville 3, por exemplo, enfrenta entraves técnicos
após apenas três meses de obra. Recentemente, veio à tona uma série
de cartas escritas por inspetores da agência de segurança nuclear
oficial da França, (ASN, na sigla em francs) demonstrando problemas
de qualidade e segurança na execução do projeto.
As cartas da ASN endereçadas ao Diretor de Desenvolvimento de
Flamanville 3 detalham os problemas como o uso de concreto de
qualidade inadequada, trama de ferro mal disposta na base e soldas
produzidas por fornecedor sem qualificação para a base do reator.
Ainda de acordo com as cartas, os planos de implementação são
diferentes daqueles aprovados nos projeto, o controle de qualidade
é ineficiente ou inexistente, e o construtor falhou em reparar os
erros a tempo e melhorar os processos. A dona do projeto, estatal
francesa Areva alega que o EPR é mais barato, seguro e confiável e
o modelo é um dos ícones do renascimento nuclear.
Conheça aqui mais detalhes sobre os atrasos nas
obras e o estouro nos orçamentos das usinas européias.
"Nós vemos uma situação na Espanha e na França onde o controle é
frágil e os interesses políticos e econômicos estão se sobrepondo
às questões de segurança e qualidade. Infelizmente, pouca coisa
mudou desde 1986. A energia nuclear continua sendo um experimento
falido do século 20 que não tem lugar na matriz energética no
futuro ou minimiza as catástrofes das mudanças climáticas", disse
Jan Beránek, coordenador da campanha anti-nuclear do Greenpeace
Internacional.
O outro EPR da Areva em construção é o Olkiluoto 3, na
Finlândia. Após dois anos e meio de construção, a obra já apresenta
problemas: está dois anos atrasada e acumula mais de US$ 1,5
bilhões de prejuízo e questões de segurança.
Na Eslováquia, a construção de dois reatores nucleares
soviéticos ultrapassados sofreu um grande golpe financeiro, com a
desistência de um consórcio de bancos em financiar o projeto. A
empresa eslovaca responsável pela usina, Elektrane/ENEL, esperava
começar a construção no ano passado, mas não conseguiu iniciar as
obras até agora.
O governo eslovaco foi acusado pelo Greenpeace de dar subsídios
ilegais ao projeto. Confira aqui.
E no Brasil, o projeto federal de construir Angra 3 também
enfrenta problemas financeiros e de segurança. Até hoje, os números
apresentados pelo Greenpeace no relatório Elefante Branco: os verdadeiros custos
da energia nuclear não foram oficialmente explicados. A
questão do lixo radioativo permanece sem solução.
"Nosso país não deve conviver com o risco de um acidente nuclear
como o de Chernobyl. Temos alternativas como a economia de energia
e as fontes renováveis para garantir a segurança energética, social
e ambiental necessária ao desenvolvimento do país. O Brasil não
precisa de Angra 3", completa Rebeca.
Leia também:
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