A corrida pelo “ouro verde” da Amazônia começou cedo, já pela década de 1970. Até o século virar, foram pelo menos 5,7 milhões de metros cúbicos retirados da floresta brasileira, movimentando cerca de US$ 3,9 bilhões. Carregando o título de madeira de maior valor comercial, o mogno sofreu. E a busca desenfreada por sua exploração acarretou enormes passivos ambientais e sociais à região.
Desde 1992, o Greenpeace acompanha de perto essa história. E só dez anos depois, em novembro de 2002, veio a grande conquista. Nessa data, a espécie foi, enfim, incluída no Anexo II da Cites (Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies Ameaçadas). A partir daí, o comércio e a exportação da árvore – que vinha acontecendo sem freios – só ocorreria com o carimbo de uma autoridade científica atestando que a exploração é sustentável. Tanto os países produtores quanto os consumidores passavam a ser responsáveis por garantir que a norma seria seguida à risca.
O caminho até que o mogno entrasse na Cites não foi fácil. Sua cadeia de exploração estava recheada de corrupção, conflitos de terra, falsificação de documentos e até mortes. Espalhados por 80 milhões de hectares da Amazônia brasileira, indo do sul do Pará ao Acre, os exemplares da Swietenia macrophylla já eram esparsos na década de 1990. Mas os madeireiros não mediam esforços para alcançá-los.
Inúmeras estradas foram abertas ilegalmente no meio das matas, às vezes para o corte de apenas uma árvore. O crime recompensava: cada metro cúbico rendia até US$ 1,6 mil no mercado internacional. Uma investigação feita pela Greenpeace mostrou que alguns madeireiros chegavam a embolsar US$ 1 milhão por dia em certas épocas.
Não à toa, o mapa de ocorrência do mogno estava no mesmo traçado da área que ficou conhecida como Arco do Desmatamento, faixa que corre do sudeste do Pará até Rondônia, onde as derrubadas não tinham fim. Foi para lá que o Greenpeace decolou. Após reunir uma série de dados que retratavam os riscos à espécie, a organização foi a campo para documentar e denunciar o problema.
Enfrentando ameaças, a equipe chegou a áreas em que o mogno padecia. Eram principalmente terras indígenas, onde os madeireiros adentravam e devastavam sem pedir licença: os que se opunham eram calados à força. Mesmo assim, o Greenpeace conseguiu reunir material suficiente – como fotos, vídeos e entrevistas – para provar quão suja estava aquela cadeia exploratória.
Tudo foi enviado aos órgãos públicos e levado à imprensa, acompanhado do pedido de providências imediatas. As medidas vieram tímidas, mas cresceram aos poucos. Em 1996, o governo assinava decreto iniciando a "moratória do mogno" que duraria seis meses. Com a pressão do Greenpeace e de organizações parceiras, ela vigorou até 2002.
Aos poucos, os países que importavam a madeira daqui também começaram a questionar a origem do produto. O cerco foi se fechando, voluntários foram para as ruas protestar e uma coalização com outras organizações deu origem ao SOS Mogno. O "ouro verde" virou pauta frequente nos debates sobre ambiente, e acabou entrando para o Anexo II da Cites. Foi o passo para, se não represar o problema de vez, coibi-lo significativamente.