James Bond versão nuclear

Notícia - 10 - nov - 2011
Em ato antidemocrático, estatal elétrica francesa é condenada por espionar ações do Greenpeace contra o avanço de energia suja

Greenpeace pede fim da energia nuclear no Reino Unido. Países europeus já anunciaram fechamento de suas usinas.

 

Em tempos de Wikileaks e de organizações transparentes que prestam contas de suas ações, ainda há quem contrate espiões. Mas esse ato não fica impune. A estatal francesa de energia elétrica, Electricité de France SA (EDF), foi condenada hoje por um tribunal francês sob a acusação de espionar o Greenpeace. A empresa foi multada em 1,5 milhão de Euros e ainda terá de pagar 500 mil Euros à organização por danos não-materiais.

Maior produtora européia de eletricidade, a EDF foi acusada de cumplicidade na ocultação de documentos roubados e interferência em uma rede de computadores. Em 2006, a EDF contratou um hacker e um investigador particular disfarçado, num esforço particular de espionar as operações do Greenpeace França. 

A operação de espionagem monitorou a organização enquanto esta desafiava os planos do governo do Reino Unido de trabalhar com a EDF para expandir suas operações nucleares. O hacker conseguiu roubar mais de 1.400 documentos do computador do diretor do programa do Greenpeace França.

"A multa contra a EDF e os danos atribuídos ao Greenpeace têm potencial de enviar um sinal forte para a indústria nuclear de que ninguém está acima da lei", disse Colin Adélaïde, diretor de comunicações do Greenpeace França. 

"Em meio à corrida para a campanha presidencial das próximas eleições, este veredicto mostra que a indústria nuclear não é compatível com a democracia francesa. Os eleitores devem manter esse escândalo em mente e tentar garantir que a questão energética na França não seja feita refém pela indústria nuclear e os políticos", afirmou Adélaïde.

O desastre nuclear de Fukushima expôs os perigos inerentes da energia nuclear e a falta de segurança na indústria. Mesmo assim, mais de três quartos da eletricidade produzida na França provém de usinas nucleares. Por esse motivo, o Greenpeace passou vários anos em campanha contra as operações nucleares da EDF. 

Na Europa, países como Alemanha, Itália, Suíça e Bélgica anunciaram que estão extinguindo a energia nuclear de sua matriz. Na próxima eleição na França, os eleitores terão a oportunidade de enviar aos políticos uma mensagem contra o poder nuclear.

Além das acusações de espionagem, dois funcionários de segurança nuclear da EDF e dois funcionários da Kargus Consulting, empresa contratada pela EDF para espionar o Greenpeace, foram condenados por acusações relacionadas à espionagem. Todos os quatro foram presos, com parte de sua pena suspensa. Três deles também foram multados.

Atualmente, os quatro reatores nucleares franceses estão sendo construídos na Finlândia. A França e a China estão bastante atrasadas por conta de sérios problemas nas construções. No caso dos reatores da EDF na Finlândia e na França, os orçamentos ainda estão ultrapassados em bilhões.

"Este caso de espionagem da EDF deve enviar um sinal para qualquer país que considere construir reatores nucleares, de que a indústria nuclear não pode ser confiável", afirmou Colin. "Quem pode confiar em uma indústria espiã e que, no caso do acidente de Fukushima, não diz a verdade ao público sobre seu desastre nuclear? Em vez de trabalhar com a indústria nuclear, os países devem investir em fontes limpas e seguras de energia renovável", conclui o diretor.

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