“A terra virou mercadoria caríssima”

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Artigo - 12 - jul - 2010
Presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Santarém fala dos impactos da soja na região. Com governança frouxa, o avanço pode ser irreparável.

Como toda obra de grande porte, o terminal graneleiro da Cargill chegou ao Porto de Santarém, em 2003, prometendo emprego e desenvolvimento. Segundo Raimundo de Lima Mesquita, não veio nem uma coisa nem outra. Presidente do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais do município paraense, Peba, como é conhecido, ainda lamenta os impactos da chegada da multinacional. 

Com capacidade de armazenar 60 mil toneladas de grãos, o terminal trouxe para a região uma corrida por terras sem precedentes. A soja tomou largas áreas, derrubou floresta, contaminou igarapés e empurrou os pequenos agricultores para a periferia da cidade. Esta semana, a Cargill apresenta em audiência pública o Estudo de Impacto Ambiental (EIA) do terminal, documento que deveria ser feito antes de sua construção. Com irregularidades a olho nu, o empreendimento é prova viva de que, sem governança, o avanço da soja na Amazônia pode ser traumático: “Foi assustador para os trabalhadores rurais”.

Santarém mudou com a chegada da Cargill?

A Cargill chegou aqui de forma desordenada, arbitrária, como se aqui fosse terra de ninguém. Os conflitos fundiários vieram juntos com a Cargill. Grilagem, intimidações, ameaças de morte a companheiros, redução da população nas comunidades e até a extinção de algumas delas. Foi muito assustador para os trabalhadores rurais. 

Como ficou a produção da agricultura familiar?

Muitas áreas ocupadas por mandioca, milho, feijão passaram a ser ocupadas por soja. A agricultura familiar ficou inviável em algumas regiões. A harmonia aqui era bem maior. Produzíamos bem. Onde colhíamos 50 sacos de arroz, por exemplo, agora colhemos oito, cinco. Não dá para competir com quem trabalha com tecnologia. 

Entre 2007 e 2008, os trabalhadores rurais fizeram um mapeamento para medir os impactos da soja na região. O que vocês encontraram?

Houve desequilíbrio na fauna e na flora, os igarapés foram envenenados ou assoreados e a terra virou uma mercadoria caríssima. Os sojicultores chegavam, ofereciam dinheiro e compravam nossas terras. Para um trabalhador rural, R$ 20 mil, R$ 25 mil é muita coisa. Mas quando você chega à cidade com esse dinheiro, não consegue nada. O sindicato começou a campanha “Não abra mão da sua terra”, pois ela é nossa fonte de vida. Mesmo assim, muita gente deixou o campo e teve muita concentração de terra pelos fazendeiros.

O que o terminal trouxe de bom para a população local?

A Cargill chegou aqui com a promessa de muitos empregos e desenvolvimento para a região. Mas não trouxe nada disso. A monocultura da soja é o pior ciclo econômico da região. Ela devasta, envenena, polui e não há diálogo com o agricultor familiar.

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