Ciência teme pelo futuro da floresta

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Notícia - 13 - jul - 2010
As duas associações que representam a comunidade científica brasileira falam como proposta de mudança do Código Florestal é nociva para o país.

'Mar' de árvores derrubadas no Pará em 2001, imagem que maioria dos brasileiros gostaria de deixar no passado ©Greenpeace/Daniel Beltra

Os ruralistas adoram falar que têm a ciência do seu lado ao propor mudanças no Código Florestal – a saber, redução de áreas de preservação permanente (APPs), como mata nas margens de rios e topos de morro, e da reserva legal, quando não pregam seu fim. A verdade, contudo, está bem distante.

Os dois principais grupos representativos da classe científica no Brasil – a Sociedade Brasileira pelo Progresso da Ciência (SBPC) e a Academia Brasileira de Ciências (ABC) – divulgaram uma carta conjunta repudiando o relatório apresentado pelo deputado Aldo Rebelo (PCdo-B-SP), aprovado na semana passada pela comissão que tratou do tema na Câmara apesar da oposição de diversos setores da sociedade civil, inclusive as ONGs.

O presidente da SBPC, Marco Antonio Raupp, e da ABC, Jacob Palis, afirmam que a comunidade científica não foi de fato consultada no processo, ao contrário do que Aldo afirma, e que a proposta “foi pautada muito mais em interesses unilaterais de determinados setores econômicos”.

“Se os ruralistas de fato tivessem a preocupação em montar uma proposta séria de reforma do Código Florestal, deixariam de lado seus cientistas de aluguel e passariam a ouvir quem faz e entende mesmo de ciência no Brasil, representados por esses dois grupos, SBPC e ABC”, afirma Paulo Adario, diretor da campanha da Amazônia do Greenpeace.

Leia a seguir a íntegra da carta conjunta, também disponível no site da SBPC.

"Senhor Deputado,

O Brasil foi o primeiro país do mundo a buscar uma agricultura tropical altamente produtiva, fruto principalmente de investimentos contínuos em ciência e tecnologia. Com o aumento da produtividade das principais culturas agrícolas, a agricultura brasileira ganhou destaque mundial e passou a contribuir, decisivamente, para o desenvolvimento econômico e social do país, produzindo alimentos, fibras e bioenergia para o consumo interno e para exportação.

O Brasil já é uma potência agrícola, mas deve ser observado que o paradigma predominante em outras potências agrícolas do mundo desenvolvido é o do aumento da produtividade e não da expansão das fronteiras agrícolas. A competitividade se dá no terreno de maior inserção de ciência e tecnologia na produção e maior agregação de valor nas cadeias produtivas agrícolas e pecuárias.

Paralelamente, o Brasil ainda preserva grandes áreas intactas que abrigam uma extensa gama de formas de vida, caracterizando o país como detentor de uma megabiodiversidade. Portanto, o país tem a chance única na história de conciliar uma agricultura altamente desenvolvida com vastos ecossistemas naturais preservados e ou conservados que produzem uma gama de serviços ambientais dos quais a própria agricultura depende, dentre eles se destacam a manutenção da fertilidade dos solos e suas propriedades físicas e a produção e sustentabilidade dos regimes hídricos dos ecossistemas.

Editado em 1965, e substancialmente reformulado em 1989, o Código Florestal, constitui-se até hoje na peça fundamental de uma legislação ambiental reconhecida com uma das mais modernas do mundo. Ainda passível de aperfeiçoamentos como qualquer legislação, o Código Florestal é um arcabouço legal fundamental na manutenção de paisagens multi-funcionais que permitam seu aproveitamento tanto para a produção de alimentos, fibras e bioenergia; como também para preservação e manutenção dos ecossistemas, com amplos benefícios para toda a população.

Baseando-se na premissa errônea de que não há mais área disponível para expansão da agricultura brasileira, o Congresso brasileiro propôs, recentemente, uma reformulação do antigo Código Florestal.

Infelizmente, a reformulação desse Código não foi feita sobre a égide de uma sólida base científica, pelo contrário, a maioria da comunidade científica não foi sequer consultada e a reformulação foi pautada muito mais em interesses unilaterais de determinados setores econômicos.

Em decorrência, a comunidade científica brasileira se encontra extremamente preocupada frente às mudanças propostas, pois esta comunidade antevê a possibilidade de um aumento considerável na substituição de áreas naturais por áreas agrícolas em locais extremamente sensíveis como são as áreas alagadas, a zona ripária ao longo de rios e riachos, os topos de morros e as áreas com alta declividade.

As mudanças do Código Florestal igualmente poderão acelerar a ocupação de áreas de risco em inúmeras cidades brasileiras, estimular a impunidade devido a ampla anistia proposta àqueles que cometeram crimes ambientais até passado recente e a oportunidade de Estados brasileiros utilizarem a prerrogativa de legislar sobre temas ambientais para atrair futuros investimentos associados a mais degradação ambiental no meio rural. 

Esta substituição levará, invariavelmente, a um decréscimo acentuado da biodiversidade, a um aumento das emissões de carbono para a atmosfera, no aumento das perdas de solo por erosão com consequente assoreamento de corpos hídricos, que conjuntamente levarão a perdas irreparáveis em serviços ambientais das quais a própria agricultura depende sobremaneira, e também poderão contribuir para aumentar desastres naturais ligados a deslizamentos em encostas, inundações e enchentes nas cidades e áreas rurais.

Assim sendo, a comunidade científica reconhece claramente a importância da agricultura na economia brasileira e mundial, como também reconhece a importância de aperfeiçoar o Código Florestal visando atender a nova realidade rural brasileira.

Entretanto, entendemos que qualquer aperfeiçoamento deva ser conduzido à luz da ciência, com a definição de parâmetros que atendam a multi-funcionalidade das paisagens brasileiras, compatibilizando produção e conservação como sustentáculos de um novo modelo econômico que priorize a sustentabilidade.

Desta forma podemos chegar a decisões consensuais, entre produtores rurais, legisladores, e a sociedade civil organizada, pautadas por recomendações com base científica, referendadas pela academia e não a decisões pautadas por grupos de interesses setoriais, que comprometam de forma irreversível nossos ecossistemas naturais e os serviços ambientais que desempenham."

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sonambullo

sonambullo says:

Não há mais como defender um relatório tosco e completamente sem fundamento científico com esse. A cada dia aparece uma crítica ferrenha de pesquisadores, cientistas, estudiosos, membros do Ministério Público entre outros. O Aldo rebello conseguiu em um pedaço de papel "dar forma" à estupidez e a boçalidade. Mais estúpida ainda é que sua carreira política foi para o ralo...

Enviado 15 - jul - 2010 às 21:53 Denunciar abuso

João Carlos

João Carlos says:

A equivocada política desenvolvimentista brasileira

Historicamente, o Brasil tem feito escolhas erradas que nos conduziram, nesses quinhentos anos, à situação de dependência econômica e cultural do mundo desenvolvido. Prova disso é o crescimento fantástico dos países asiáticos do pós-guerra, criando potências emergentes como o Japão, a Coréia, a China e a Índia. Enquanto isso, o Brasil, com um território privilegiado e rico, cresce a passos lentos, mantendo desequilíbrios sociais inaceitáveis e concentrando a riqueza nas mãos de poucos.

Desde os primórdios da colonização, Portugal decidiu que nossa vocação como sistema produtivo seria a lavoura e a pecuária, assim como a mineração. Ou seja, setores primários, de baixo valor agregado, e que determinaram nossa condição de país subdesenvolvido por mais de quatro séculos. Em todo esse período histórico, a exploração de mão-de-obra escrava e semi-escrava permitiu que uma minoria se enriquecesse em detrimento do resto da população, cada vez mais numerosa. Hoje somos quase 200 milhões de habitantes, dos quais 50% vivem em condições precárias ou miseráveis.

O processo econômico se deu em ciclos mais ou menos longos, cujos resultados finais sempre foram nefastos. O primeiro ciclo, extrativista, de exploração do pau brasil, quase acabou com a vegetação costeira do país, a Mata Atlântica, cujos remanescentes hoje representam cerca de 7% da floresta encontrada pelos portugueses. O ciclo extrativista nunca cessou; do pau brasil passou para o ouro, o diamante, a borracha, o petróleo e todo tipo de minérios, e a madeira, que até hoje causa o desmatamento da Amazônia em escala gigantesca e irreversível.

A exploração e exportação de produtos primários foi e continua sendo a grande responsável pela miséria, pelos desequilíbrios sociais, pelos genocídios perpetrados pelos brasileiros a seus povos originários e escravos africanos, e pela nossa constante dependência tecnológica com relação aos países desenvolvidos. Exportamos minérios, madeira, soja, carne bovina, álcool, açúcar, petróleo e importamos produtos eletrônicos, de alta tecnologia. Isso sem falar nos fármacos roubados de nossas florestas, que retornam ao Brasil como produtos químicos e farmacêuticos, de altíssimo valor agregado, patenteados com nossas ervas pelos grandes laboratórios multinacionais.

A cana de açúcar gerou fortunas aos senhores de engenho e miséria e desolação às populações indígenas e escravos africanos. Nossa população de indígenas foi quase totalmente dizimada pela violência dos colonizadores e pelas doenças transmitidas pelos brancos em seus primeiros contatos com esses povos nativos. Dos estimados três milhões de indígenas originais, pertencentes a centenas de etnias, restam hoje menos de 700 mil, grande parte desses já descaracterizados de suas culturas, línguas e tradições.

O cultivo do café aliou-se à cana de açúcar nesse processo de ruptura sócio-cultural, explorando índios e escravos em nome de uma minoria de barões que se enriqueceram às suas custas. O café substituiu a Mata Atlântica na região sudeste, e promoveu a construção das estradas de ferro, cujo traçado obedecia aos interesses desses fazendeiros e não a um planejamento estratégico nacional. A conseqüência disso foi que, com o tempo, essas ferrovias foram substituídas por rodovias e, sucateadas, hoje estão quase extintas .

Ao contrário do que dizem os latifundiários da bancada ruralista, o brasileiro não come soja, não bebe álcool e mal come carne. A maior parte da produção agrícola brasileira, dos grandes empresários do setor, é destinada à exportação. Quem abastece a mesa dos brasileiros é o pequeno produtor, o produtor artesanal, as lavouras familiares, o pescador artesanal; e esses representam 90% dos produtores agrícolas.

Esse modelo exportador torna o país altamente suscetível às crises internacionais por não ter um mercado consumidor interno desenvolvido para assegurar a produção agrícola e industrial, como ocorre com a China. Graças a isso, enquanto crescemos a taxas médias de 3 a 5% ao ano, a China cresceu nas últimas décadas a taxas superiores a 15% ao ano, devendo se tornar a maior potência mundial em muito poucos anos, superando o Japão e os Estados Unidos. Enquanto isso, continuamos sendo o país do futuro!

Se o agronegócio fosse tão bom, com tamanho incentivo fiscal e monetário concedido pelo governo, já seríamos a maior potência mundial. Nossas fronteiras agrícolas quase que duplicaram em duas décadas; o crédito bancário oferece dinheiro a juros inferiores a 12% ao ano para esses latifundiários, enquanto a quase totalidade dos brasileiros paga 6% ao mês para conseguir parcos recursos para sua sobrevivência. Não bastasse essa desigualdade de tratamentos, muitas vezes o governo "perdoa" as dívidas fiscais desses poderosos, enquanto pune rigorosamente o cidadão comum que não consegue pagar seus impostos.

Os usineiros de açúcar e do álcool já tiveram suas dívidas parceladas, sem juros, por décadas, e muitas vezes, mesmo assim, não as pagam, esperando por uma "anistia fiscal" que sempre chega. Com isso, nosso potencial empreendedor fica nas mãos dos poderosos, enquanto os pequenos continuam atrelados a empregos mal remunerados, pouco estimulantes, com baixa exigência de novos conhecimentos e instáveis.

Esse é o retrato de nosso país depois de quatro mandatos (16 anos) de políticas "sociais" do PSDB e do PT. Fernando Henrique disse, ao assumir o poder, que esquecêssemos tudo o que ele disse enquanto intelectual e acadêmico. E assim, penalizou mais uma vez a classe trabalhadora em favor do empresariado. Lula se esqueceu, sem admitir, seus compromissos com os movimentos sociais, e fez acordos espúrios com o agronegócio, privilegiando os latifundiários em detrimento dos trabalhadores rurais, com ou sem terras.

A perspectiva agora é Dilma Roussef, defensora ardorosa e mentora intelectual das políticas do governo Lula; ou José Serra, defensor do empresariado e porta-voz do neo-liberalismo globalizante de FHC; ou então Marina Silva, ambientalista, com uma proposta renovadora de um desenvolvimento sustentável (por mais que eu rejeite essa expressão falaciosa). Cabe aos brasileiros escolher o seu futuro.

Mas não é somente a escolha do mandatário máximo do país que determina esse futuro. Cada parlamentar, em todas as esferas do poder, tem partidcipação ativa nesse processo, e o partido majoritário do Brasil continua sendo o PMDB, um partido sem ideologia, que navega conforme as águas, permanecendo sempre no poder. Existem ainda as forças reacionárias representadas pelos evangélicos e pelos ruralistas latifundiários, que sempre conseguem eleger um número expressivo de parlamentares e dominar as principais comissões da Câmara e do Senado, inviabilizando qualquer mudança progressista e popular.

Infelizmente, nossas políticas desenvolvimentistas, sejam quais forem as forças vencedoras dessas eleições, continuarão equivocadas e na contra-mão da história e do cenário mundial, onde seguiremos desempenhando nosso papel de coadjuvantes, enquanto a China e a Índia assumem a liderança e se tornam os protagonistas dessa comédia humana.

Enviado 15 - jul - 2010 às 18:44 Denunciar abuso

João Carlos

João Carlos says:

Até quando a sociedade brasileira vai tolerar a arrogância e a ambição sem limites dos ruralistas? Até quando seremos subjugados por uma minoria facista que não tolera nem mesmo o direito à sobrevivência dos pobres desta Nação? Até quando a burguesia acomodada nos grandes centros vai se fingir de morta e se omitir de protestar contra a destruição de nossas riquezas naturais? Até quando a motoserra será utilizada como arma letal por latifundiários, pecuaristas, grileiros e posseiros, a quem tudo é permitido, devastando desgraçadamente nossas matas, florestas e veredas, sem que ninguém faça absolutamente nada para impedir?

Nosso Congresso é refém dos ruralistas!

Sim, somos reféns de uma minoria desonesta que impõe seus interesses à maioria dos lavradores, vítimas de suas atrocidades, escravos da vontade do poder que esmaga a classe trabalhadora em nome de um "desenvolvimento" que só beneficia aos magnatas, aos ricos fazendeiros que querem que toda e qualquer "mancha verde" que reste no Brasil sejam os pastos de seu gado nelore, de suas plantações de soja, dos imensos canaviais que se debruçam cada vez mais sobre as encostas dos morros!

Não é possível permanecer calados enquanto um bando se propõe a destruir nossa Nação! Eles não são os representantes desse país! É bom que isso fique bem claro: nosso povo é caboclo, é quilombola, é indígena, é mestiço! "Arianos nazistas" não são parte de nosso povo! Se eles, os ruralistas, essa minoria nojenta que assalta o poder e afronta a democracia quer se impor pela força, pela violência, precisamos reagir com a mesma violência, mostrando que somos milhões, dezenas de milhões, e eles são apenas as migalhas "nobres" de uma sociedade decadente, fadada ao esquecimento e ao desprezo de todos nós!

Meus caros amigos leitores, saiam de seu conforto e inércia e protestem; digam claramente o que pensam; divulguem manifestos; assinem listas de denúncias ao avanço das "plantations" do século XXI sobre os Campos, Matas, Florestas, Cavernas, Cerrados, Veredas, Caatingas do Brasil!

Chega de IMPUNIDADE! Que eles, os privilegiados, também paguem pelo direito de usufruir daquilo que lhes foi concedido por empréstimo! A Natureza não é dos milionários! Ela é de todos e de ninguém, pois deveremos entregá-la a nossos filhos, intacta, preservada, eterna, assim como a recebemos daqueles que nos antecederam! Sim, é possível viver bem e partilhar das belezas, das riquezas naturais sem destruí-las!

"Vem, vamos embora, que esperar não é saber!
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer!"

Enviado 15 - jul - 2010 às 18:41 Denunciar abuso

Adelino

Adelino says:



Poucas pessoas no Brasil são tão qualificadas como Aldo Rebelo para exercer uma tarefa tão espinhosa como a que lhe foi atribuída de relatar sobre o Código Florestal. Fosse Aldo um agrônomo ou engenheiro florestal possivelmente puxaria mais para o lado da produção agrícola. Fosse um biólogo ou engenheiro ambiental, talvez enveredasse para a tese do desmatamento zero.

Mas como um nacionalista e democrata formado nas mais diversas trincheiras de lutas, amparando-se e ouvindo todos os lados em jogo, soube bem colocar os interesses nacionais em primeiro plano.

Na própria academia não há consenso entre os pesquisadores sobre os diversos temas que abordam o Código Florestal. Como a natureza é dinâmica (e dialética), tudo se relaciona e às vezes uma comprovação científica desconectada de suas inúmeras variáveis cai por terra.

O que falar, por exemplo, sobre o papel do gás carbônico na natureza? Com o aumento da concentração do CO2 na atmosfera, atribuído à atividade humana, tem-se a aceleração do chamado aquecimento global e suas nefastas conseqüências ambientais implicadas ao homem. Por outro lado, como aprendemos no ensino fundamental, é justamente esse CO2 um dos substratos básicos para a fotossíntese que, juntamente com a água e a energia luminosa, irão permitir que as plantas sintetizem os carboidratos e liberem o oxigênio.

Para as matas e florestas (principalmente as espécies de metabolismo fotossintético C4) o incremento de CO2 pode ser benéfico para seu desenvolvimento. Não se quer dizer com isso, tampouco, que as emissões desse e outros gases diversos não devam ser monitorados, mas precaver os mais afoitos de que há muita complexidade em um debate que não deve ficar apenas à luz do terrorismo ambiental.

O que dizer sobre as famigeradas queimadas que destroem nossa mãe-natureza? Pode-se dizer, sem medo de errar, que não fossem esses incêndios naturais o cerrado brasileiro não teria se desenvolvido tal como nós o conhecemos. Ou seja, esse bioma riquíssimo seria outro, completamente diferente. O fogo também faz parte desse complexo jogo da vida ambiental e é componente intrínseco dela. É o aquecimento das sementes mais recalcitrantes o mecanismo vital capaz de tirá-las da dormência e promover a nova vida que surgirá robustecida. Também a rebrota de novos pastos nativos e a ciclagem de alguns nutrientes pode ser atribuída ao fogo.

Na evolução das espécies, a vegetação tortuosa do cerrado com suas cascas de cortiça que funcionam como isolante térmico desenvolveu-se sempre ao lado do fogo. Posto isto, defende-se a prática das queimadas como um manejo agrícola? O empresário agrícola, tão criticado por alguns ambientalistas, é o primeiro a repudiar essa prática, pois sabe muito bem que em sua propriedade poderá utilizar de outros métodos mais vantajosos financeiramente.

A exceção vai para a abertura de novas áreas destinadas à agricultura e pecuária e até para pequenos produtores carentes de assistência técnica. Portanto, muita prudência ao generalizar os fenômenos da natureza no jogo maniqueísta de algumas ONGs que se advogam como representantes do bem e acusam agricultores de serem a encarnação do mal, sem ao menos conhecer as especificidades de nossos ecossistemas.

O que pensar, também, sobre um ciclo de avanços tecnológicos na agricultura ocorridos anos atrás, batizados de Revolução Verde? Sementes híbridas, fertilizantes químicos, inseticidas, mecanização e uso extensivo de tecnologia usados no plantio, na irrigação e na colheita não trouxeram apenas malefícios.

Capitaneada por fundações como a de Rockefeller e subsidiadas por países ricos em detrimento a países pobres, a agricultura mundial viu acentuar a degradação ambiental e até cultural dos agricultores tradicionais que antes plantavam suas sementes crioulas e adubavam com esterco animal. Mas por outro lado, esse conjunto de inovações tecnológicas na agricultura permitiu à humanidade multiplicar a produção de alimentos várias vezes nessas últimas décadas, embora o problema da renda ainda persista. Não se pode jogar fora a água da banheira com a criança dentro.

Não seria mais vantajoso promover a apropriação destas tecnologias – dentro de um programa racional de manejo integrado – pelos povos e nações periféricas? Nem a agricultura orgânica vai ser capaz de suprir às necessidades calóricas de mais de seis bilhões de pessoas, nem a agricultura convencional – baseada em altos aportes de insumos químicos – é sustentável em longo prazo. O ponto de equilíbrio é o manejo integrado de várias práticas: às vezes químicas outras biológicas e até ambas. Não há receita pronta e muito menos discurso concluso.

O Plantio Direto na palha, manejo agrícola exemplar do ponto de vista conservacionista, adotado por grandes e pequenos produtores, foi desenvolvido em nosso país, baseado na realidade de nossos solos e fez com que os outrora pobres latossolos brasileiros não devessem nada aos ricos podzóis europeus.

Há vários outros pontos polêmicos que poderiam ser discorridos neste texto, com o objetivo único de pontuar a complexidade dos temas. Mas de uma coisa não resta dúvida: a coerência do deputado comunista Aldo Rebelo e sua disposição em defender os interesses do povo brasileiro.
Por isso mesmo é justa sua preocupação com os milhões de agricultores que plantam em morros ou várzeas. Os incas já produziam nos íngremes Andes de forma sustentável há milhares de anos e os chineses e indianos cultivam seus arrozais nas várzeas, também há milênios.

A diferença é se o produtor vai arar morro abaixo (favorecendo a erosão) ou se vai cultivar plantas perenes em curva de nível utilizando terraços (como é o caso do café e frutíferas). Se vai drenar as várzeas e utilizar espécies estranhas ou se vai respeitar sua dinâmica e aproveitar as culturas adaptadas ao encharcamento, como é o caso do arroz.

Aí está também outro tema sensível e controverso que setores da direita – e mesmo da esquerda – tentaram achincalhar com a reputação de Aldo Rebelo: o que é nativo e o que é estrangeiro (exótico) em nossa agricultura? Rebelo, com seu estilo literário erudito e ao mesmo tempo popular, buliu com o fato de ser necessário naturalizar a jaqueira. Corretíssimo. E mais, seria o caso de se naturalizar não só a jaqueira, como também o arroz, o milho, a laranja, a cana, a braquiária, o cavalo, a vaca, e tantas outras culturas e animais que ao chegarem ao nosso continente tantos impactos ambientas impuseram. E nem por isso deixaram de contribuir imensamente com a nossa cultura, dieta alimentar e trabalho.

Vide o exemplo do eucalipto. Talvez nenhuma cultura seja tão vilanizada como o eucalipto. Acusam-no de promover os “desertos verdes” e de consumir níveis estratosféricos de água. Certamente, igual a todas as culturas extensivas (nativas ou exóticas), quando cultivadas, promovem impactos ambientais que vão desequilibrar o ecossistema em que se inserem.

Mas não se pode deixar de mencionar que, com a chegada desta espécie ao solo nacional vinda da longínqua Oceania, há pouco mais de um século, essa árvore conseguiu ajudar a frear o desmatamento de espécies nativas, principalmente do cerrado, que antes alimentavam os fornos das siderúrgicas ávidos por lenha e carvão. Com o eucalipto conseguimos manter nossa pujante siderurgia nacional e parte de nossas florestas em pé.

O novo Código Florestal que se propõe é, portanto, matéria polêmica que deve ser guiado à luz da razão e dos interesses nacionais. Em defesa das florestas, mas também da agricultura e da soberania da Nação. Proteger a natureza e os seres humanos, como bem destaca um dos subtítulos do documento inicial.

A partir daí, deve-se ampliar cada vez mais o debate. O novo código não é eterno e imutável. De tempos em tempos deverá ser submetido a discussões e abrir-se à incorporação de medidas capazes de atualizá-lo de acordo com os novos consensos ou exigências que forem surgindo. Um Código Florestal que seja ao mesmo tempo firme e flexível a agregar novas concepções e idéias ambientalmente corretas e interessantes à Nação.

Por isso mesmo é importante repudiar como o “relatório Aldo” foi tratado. Da forma como foi abordado por parte de seus opositores fez lembrar até outro relatório histórico que levou o nome de seu mentor, Nikita Krushov, diante de tanto terrorismo que o abarcou. Ou daqueles relatórios típicos de Robert Conquest de satanização da URSS e do comunismo. Essa foi a tônica de boa parte da mídia, da direita conservadora e de incautos setores dos movimentos sociais ligados à temática ambiental.

O debate rasteiro e sensacionalista não interessa aos progressistas e democratas brasileiros. Muito menos a tentativa de desqualificar a figura revolucionária de Aldo é conveniente a todos os que reivindicamos uma revolução verde (de novo tipo) e amarela, com centralidade nos interesses da maioria do povo brasileiro.

Por que o Greenpeace não aborda o derramamento de petróleo no EUA ?

Enviado 14 - jul - 2010 às 19:11 Denunciar abuso

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