“É um absurdo jurídico”

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Artigo - 12 - jul - 2010
Com quase uma década de atraso, Cargill tenta regularizar seu terminal de grãos no Porto de Santarém. Ministério Público cobra mitigação de impactos.

Há sete anos, milhares de toneladas de soja saem do Porto de Santarém, no Pará. Na visão do Ministério Público federal, tudo irregular. É ali que opera o terminal de grãos da Cargill, multinacional gigante da agroindústria. Construído sem o Estudo de Impacto Ambiental (EIA), pré-requisito legal para que qualquer projeto desse porte saia do papel, o empreendimento continua enroscado na Justiça. Por determinação judicial, a Cargill apresenta o estudo nesta quarta-feira, em audiência pública, com quase uma década de atraso. 

Apesar do passo dado, os problemas estão longe do fim: o Ministério Público do Pará já sinalizou que o documento não atende à demanda. “O EIA não aborda as verdadeiras soluções para os problemas criados com a chegada da Cargill”, diz o procurador Felício Pontes Jr., que acompanha o caso desde o início. Com a falta de governança e medidas de mitigação vagas, a região ainda tenta se recuperar do baque, que causou mais desmatamento, concentrou terras, envenenou igarapés e enfraqueceu a agricultura familiar. Abaixo, uma entrevista com o Felício Pontes Júnior, Procurador Da República do Ministério Público do Pará. 

Felício Pontes Júnior, Procurador Da República - Ministério Público do Pará. © Antonio Cruz/ABR

Em termos legais, o terminal da Cargill poderia estar funcionando?

Não. É um absurdo jurídico. Nós ganhamos, mas não levamos. Explico: vencemos a ação que declarou que o porto só poderia ser construído após o Estudo de Impactos Ambientais (EIA), mas como ele já estava construído, será a primeira vez no Brasil que um EIA é produzido depois da obra pronta. Tudo foi desvirtuado por conta das suspensões de decisões que a Cargill conseguiu em Brasília. A coisa funcionava assim: vencíamos em Santarém e a decisão era suspensa pelo Tribunal em Brasília. Quando o colegiado se reunia, dava ao Ministério Público federal ganho de causa. Essa foi a tônica.

Mesmo afogado em irregularidades, o terminal não parou. A Cargill sofreu
alguma punição de lá para cá?

Nenhuma punição. Espero que a SEMA possa analisar com cuidado se concede ou não a licença para a Cargill funcionar legalmente. Da parte do MP, estaremos vigilantes a cada etapa desse processo. Se houver qualquer problema, é evidente que continuaremos com luta judicial até que a legislação brasileira seja respeitada por essa multinacional, e aí inclui pedido de indenização. 

Que impactos o terminal trouxe para a região? 

Os estudos oficiais da Cargill e os paralelos que estamos produzindo mostram vários impactos, desde o ponto de vista arquitetônico – fechar a frente da cidade e suprimir a Praia de Vera Paz – até rural, com o desaparecimento de várias comunidades de agricultores familiares e contaminação de igarapés. 

A empresa tomou iniciativas de mitigação?

Até onde sei, nenhuma medida foi tomada. Espero que isso possa ser esclarecido na audiência pública. 

O EIA saiu sete anos depois de quando deveria ter sido entregue. Qual a função dele nesse caso?

Espero que ele possa ser analisado de forma a medir todos os impactos que a chegada da Cargill em Santarém causou. Aí poderá se ter a verdadeira conta de quanto foi o prejuízo, pelo menos, e cobrar esse prejuízo da empresa. Se isso acarreta um custo muito alto para a empresa, o problema é dela. Como o Tribunal Federal de Brasília decretou: a Cargill sabia dos riscos de construir um terminal sobre uma decisão judicial precária.

O MP já analisou o documento. Ele atende às demandas? 

Não. O EIA produzido pela Cargill não aborda as verdadeiras soluções para os problemas e, principalmente, não aborda com profundidade as mitigações que têm a função de diminuir os impactos do projeto. 

Quais as expectativas para a audiência pública? 

É nessa audiência que os impactos medidos pela Cargill serão anunciados. É nela também que os vários segmentos sociais vão se manifestar para indicar se esses impactos e suas mitigações estão corretos. Os trabalhadores rurais sofreram e ainda poderão sofrer um impacto muito grande com a chegada de novos sojicultores à região. Eles vão ter a possibilidade de se manifestar sobre o assunto, sobre como devem ser mitigados e reparados os impactos sobre a categoria que hoje é responsável por colocar comida na mesa dos amazônidas. E isso só eles podem dizer.

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