O governo britânico pretende construir até 10 novas usinas nucleares nos próximos anos, deixando um legado perigoso de lixo atômico às próximas gerações.
O secretário de estado britânico, John Hutton, deu carta branca
nesta quinta-feira para a indústria construir novos reatores
nucleares no Reino Unido. Estima-se que o governo britânico planeje
construir até 10 novas usinas, deixando para a iniciativa privada a
decisão sobre quando e onde construi-las. Uma nova lei de energia
deverá ser editada em breve no país.
"Os políticos optam por energia nuclear para dar a impressão de
que estão tomando decisões difíceis para solucionar problemas
complicados, quando, na verdade, novos reatores nucleares
simplesmente não irão resolver nossos problemas de energia e de
combate às mudanças climáticas", afirma o diretor-executivo do
Greenpeace UK, John Sauven.
No Reino Unido, a energia nuclear pode contribuir para diminuir
as emissões de carbono em apenas 4% e somente a partir de 2025.
"É uma contribuição pequena que virá muito tarde. Deixaremos às
gerações futuras apenas o caro legado de ter de limpar o lixo
nuclear."
Cerca de 90% do consumo de petróleo e de gás do Reino Unido
destina-se a outros fins que não a geração de eletricidade, já que
a maior parte do uso energético está ligada ao aquecimento de casas
e da água, além do alto consumo pelas indústrias. E a energia
nuclear não pode ser usada para substituir essa demanda e muito
menos para ser utilizada como combustível de veículos.
"As verdadeiras soluções são eficiência energética e o uso de
energias renováveis (como mostramos em nosso
relatório [R]evolução Energética), além das centrais
energéticas descentralizadas, como aconteceu na Escandinávia. Essas
tecnologias têm potencial para entregar energia de fontes
confiáveis e mais baratas em um prazo menor, e são soluções seguras
e aplicáveis em escala global", afirma Sauven, lembrando no entanto
que essas fontes energéticas nunca alcançarão a escala necessária
se forças políticas e investimentos financeiros forem desviados
para desenvolver a indústria nuclear.
Nos últimos anos, a indústria nuclear vem se aproveitando do
marketing associado ao combate ao aquecimento global para
justificar o uso de uma energia ineficiente, cara, altamente suja e
perigosa.
"Trata-se de uma sucessão de mentiras propagadas por um setor
que vê, a cada usina construída, bilhões e bilhões de dólares
vertendo para seus bolsos, e que encontrou na crescente preocupação
mundial com as mudanças climáticas a desculpa perfeita para retomar
seus negócios, que há muito andavam distantes da aprovação
popular", diz Beatriz Carvalho, coordenadora da campanha
anti-nuclear do Greenpeace Brasil.
Para detalhar como a indústria nuclear construiu essa fachada, o
Greenpeace publicou recentemente no Brasil o
relatório Cortina de Fumaça - Emissões de CO2 e outros impactos da
energia nuclear. O estudo demonstra que as emissões de gases de
efeito estufa geradas durante todo o ciclo de exploração nuclear -
que vai desde a exploração do urânio, passando por seu transporte,
construção da usina, manejo dos materiais radioativos e
descomissionamento do aparato nuclear ao final de sua vida útil -
são significativamente maiores do que as geradas por usinas eólicas
e solares, por exemplo.
"Revelamos em números a contribuição da energia nuclear para o
aquecimento global, reforçando a necessidade de alimentarmos nossa
matriz energética com fontes realmente limpas e renováveis", afirma
Beatriz.
Saiba mais:
Leia
o documento do Greenpeace sobre a retomada do programa nuclear
britânico (arquivo em PDF para baixar).