O ativista e os candidatos

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Notícia - 12 - mar - 2010
Kumi Naidoo, diretor-executivo do Greenpeace Internacional, se encontra com Marina, Dilma e Serra. Pelo que falaram, os dois últimos ficaram mais verdes

SÃO PAULO (SP) - A campanha ainda nem bem começou e é possível que até outubro, caso o assunto não realize seu potencial para angariar votos, talvez seja até esquecido. Mas – seguro morreu de velho – por enquanto a questão ambiental está bem na ponta da língua dos candidatos. Um deles, Marina Silva (PV), tem intimidade com ela há muito tempo. Construiu sua carreira política pregando a conciliação entre conservação e atividade econômica. Dilma Roussef (PT) e José Serra (PSDB) são neófitos no tema. Mas andaram fazendo a lição de casa. Se o ambiente virar bandeira de campanha, o debate entre os três promete ser acirrado.

O sul-africano Kumi Naidoo, diretor-executivo do Greenpeace Internacional, ouviu um pouco do que tem tudo para se tornar uma ótima discussão da campanha eleitoral esta semana, em encontros que teve com os três candidatos. Naidoo, vindo de uma viagem de seis dias à Amazônia onde, segundo ele, viu “o bom, o bonito, o ruim e o feio da região”, encontrou-se com Serra na segunda-feira. Na terça ele voou para Brasília, onde reuniu-se por mais de uma hora com Dilma à tarde. Ao cair da noite, viu Marina em seu gabinete no Senado.

Com todos, claro, conversou sobre ambiente e sobre o novo papel do Brasil na arquitetura política global, especialmente na realidade pós-Conferência do Clima – afinal, com o poder vêm a responsabilidade, inclusive para avançar as negociações sobre um acordo que permita o controle do aquecimento global. Kumi pediu esforços no sentido de impedir que a bancada ruralista esgane o Código Florestal e ajuda para passar a lei de energias renováveis, que está sendo levada a plenário. No fim, apelou para que fizessem todos os esforços para dar proteção a irmã Lorena, freira gaúcha que hoje é obrigada a viver quase semi-clandestina no Mato Grosso para não dar chance às inúmeras ameaças que recebeu de morte.

Sobre o Código Florestal, os três têm uma visão parecida da situação política. O contexto no Congresso está radicalizado. “Numa situação dessas, o potencial para fazer besteira é imenso”, resumiu o governador de São Paulo. Dilma, do mesmo modo, lamentou a radicalização. “O melhor a fazer agora é parar com essas tentativas de mexer no código em ano eleitoral e nesse clima de confronto”, insistiu. A candidata do PT também lamentou a súbita aliança do deputado federal Aldo Rebelo (PC do B-SP), relator da Comissão Especial que examina mudanças no Código Florestal, com a bancada da motosserra.

“O Aldo é um bom homem”, disse. “A gente precisa resgatá-lo da influência dos ruralistas.” Marina seguiu o mesmo caminho. Melhor não tocar no código em ano eleitoral. Mas ela não deixou de dar uma estocada no que chamou de repentino interesse dos seus adversários de preservar a lei dos ruralistas. “Eles têm motivação eleitoral. Se deixarem mexer no Código Florestal, eu ganho uma bandeira para minha campanha”, ironizou.

Dilma e Serra expressaram uma preocupação a Naidoo com o futuro da discussão sobre mudanças climáticas. “Lendo a imprensa internacional, eu tenho a impressão de que há uma tentativa de se reduzir a importância do aquecimento global”, lamentou o governador paulista, numa conversa ao cair da tarde no Palácio dos Bandeirantes. Naidoo lembrou a Serra que os céticos do fenômeno se apegam a detalhes sem importância para atacar a credibilidade da ciência climática. Dilma também tem dúvidas quanto ao futuro das discussões sobre o clima. Elas vêm de sua experiência nas negociações da COP-15, em Copenhague.

Pelo que contou ao diretor do Greenpeace Internacional numa sala do Centro Cultural do Banco do Brasil, na capital federal, ela viu na conversas fechadas durante a COP tentativas explícitas e veladas dos países desenvolvidos de detonar com qualquer proposta de acordo que incluísse metas. Tiveram de engolir um resultado não tão bom. Mas conseguiram botar água suficiente no chope para produzir o que Dilma qualificou de “um acordo ruim”. “Os países desenvolvidos querem mesmo acabar com o Protocolo de Kyoto. Eles terão imensas dificuldades para adaptar suas matrizes energéticas às necessidades de redução das emissões de CO2”, afirmou.

Fim de tarde com o tucano

Naidoo esteve com um José Serra diferente do que os brasileiros estão acostumados a ver. O governador entrou na sala da reunião todo simpático, sorridente e apenas com um leve traço das olheiras que viraram uma espécie de marca registrada do seu rosto. Serra lembrou que em 2001 o Greenpeace fez uma manifestação com o navio Rainbow Warrior no porto de Doha, onde acontecia a reunião da OMC, pela quebra de patentes em caso de calamidade nacional. “Aquela manifestação foi fundamental para aprovar a nossa moção para quebrar patentes de remédios em casos excepcionais”, recordou.

Serra contou que pretende fazer de São Paulo, que já tem uma lei sobre mudanças climáticas com metas de redução, uma espécie de laboratório para ajudar o Brasil a enfrentar o assunto. “Nós inclusive estamos para anunciar a criação de um fundo de R$ 800 milhões para financiar a adaptação de pequenas e médias empresas”, contou. O governador disse ainda que o desmatamento não é um problema tão espinhoso para ser resolvido, pelo menos não do seu ponto de vista de economista.

“O desmatamento não produz riqueza. Portanto, não há grandes interesses econômicos para sustentá-lo. É uma questão de vontade para enfrentá-lo e acabar com o problema”, afirmou. Ele despediu-se de Naidoo com uma brincadeira. Pediu o eventual apoio do Greenpeace a sua candidatura. Ouviu de volta que isso era impensável, pois o Greenpeace é uma organização apartidária. “Eu sei”, disse. “De qualquer maneira, gostaria de poder ouvi-los sobre o tema ambiental do meu programa.”

Longa conversa com a petista

Acompanhado do diretor-executivo do Greenpeace no Brasil, Marcelo Furtado, e do diretor de campanhas Sérgio Leitão, Naidoo encontrou uma Dilma também diferente. Ela, como Serra, adquiriu fama de mal-humorada, mas estava sorridente e mansa. A conversa com a comitiva do Greenpeace teve a presença do embaixador Luiz Figueiredo Machado, principal negociador brasileiro para a discussão das mudanças climáticas na Organização das Nações Unidas (ONU). Interrompida durante a reunião por dois assessores, a ministra da Casa Civil deixou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva esperando. “Diga ao presidente que eu estou fazendo o que ele me pediu, recebendo o Kumi.”

Dilma, que em determinado momento da conversa chamou o pré-sal de “a maior riqueza do país”, pareceu surpresa quando Naidoo informou que a lei de energias renováveis, prestes a ser aprovada em Comissão Especial na Câmara e seguir para o Senado, foi empurrada para votação em plenário. Checou com assessores e suspirou. “Temos de tirar isso de plenário. Se deixarmos lá, a lei será desfigurada.” Não disse exatamente como fará para que isso aconteça, mas prometeu se esforçar para não deixar que o texto seja transformado num Frankenstein.

Sobre sua experiência na COP, a ministra foi mais explícita. “Com o esforço americano para não se obrigar com metas de redução, a Europa recuou e os desenvolvidos tentaram impor um absurdo aos emergentes como nós”, disse. “Eles insistiram que deveríamos (os países em desenvolvimento) ter metas iguais aos dos países desenvolvidos, sem levar em conta o princípio das responsabilidades diferenciadas”, afirmou. “Eles queriam mesmo era acabar com o Protocolo de Kyoto.” Ela contou que viu de perto a pressão americana sobre países mais pobres para não insistirem sobre metas para os desenvolvidos. Os diplomatas de Bangladesh, por exemplo, tiveram de se calar diante da ameaça explícita dos americanos que qualquer insistência seria punida com a redução do auxílio que o país recebe dos Estados Unidos.

“O Brasil está numa situação diferente. Temos metas claras de redução de 36% a 39% e nós assumiríamos essa meta de qualquer forma, com ou sem conferência”, disse. Dilma revelou também que ao contrário do que circulou depois de Copenhague, foi com o Brasil, e não com a China, que a discussão sobre o mecanismo de MRV – para monitorar e auditar a redução de emissões – emperrou. “O MRV à primeira vista parecia uma boa forma de monitorar se as metas estavam sendo cumpridas. O problema é que o Obama contou ao Lula que o monitoramento seria feito em moldes semelhantes ao que o FMI faz em países com dificuldades econômicas.”

Bastou Lula ouvir as três letras para amarrar a cara. “Ele disse ao Obama que isso seria muito intrusivo e portanto inaceitável”, revelou ela. Para o presidente o nível de intrusão na política agrícola e energética do Brasil era inadmissível. Esse monitoramento deixaria questões estratégicas para o país muito expostas ao olhar estrangeiro. Dilma reconheceu que boa parte das resistências dos desenvolvidos a chegar a um acordo com metas de redução em Copenhague tem a ver com suas dificuldades em mudar a matriz energética.

“O grande problema dos países desenvolvidos é a matriz energética movida a carvão e petróleo. Eles têm enorme dificuldade de migrar de matriz. Tem quem defenda que a adoção de tecnologia de carvão limpo resolveria em parte os problemas deles. Não acredito nessa tecnologia. Energia eólica e solar também não é suficiente e eles sabem disso”, afirmou. Os países emergentes têm uma situação completamente diferente. Mudar suas matrizes de energia não chega a ser um problema, porque eles estão bem menos comprometidos do ponto de vista econômico com matrizes fósseis.

Sobre o desmatamento, Dilma iniciou a conversa fazendo uma distinção entre a agricultura e a pecuária. A primeira, ela qualificou de avançada. Disse que faz investimentos em produtividade e não contribui para o desmatamento. Sua fronteira está controlada. “O problema é a pecuária, que é retrógrada e extensiva. Ela é quem desmata“, afirmou. Dilma diz não ter a menor dúvida de que é fácil reduzir o desmatamento em 80% não só na Amazônia, mas também no cerrado. “Para alcançar essa redução precisamos combinar a repressão ao desmatamento e fornecer alternativas econômicas para a população local”, afirmou.

Ao cair da noite, Marina

Naidoo saiu do encontro com Dilma e rumou para o Senado para avistar-se com Marina Silva. O encontro acabou sendo rápido porque o ativista era chamado para conversar com os poucos – seis no total – deputados federais que consistentemente votam em favor de legislação ambiental. Doce no trato, a senadora, no encontro com Naidoo, ao contrário de Dilma e Serra, não contou nenhuma novidade. Na verdade, pregou para quem já estava convertido.

Começou agradecendo o trabalho que o Greenpeace desenvolve em favor da Amazônia e depois fez uma espécie de auto-apresentação, historiando um pouco de sua carreira política e de sua candidatura à Presidência da República. Disse que a queda do desmatamento deveu-se a ações estruturantes – palavra que andava esquecida desde que ela deixou o governo – planejadas e implantadas ainda na época em que ela era ministra do Meio Ambiente do governo Lula.

Marina lamentou a situação da irmã Lorena, ameaçada de morte no Mato Grosso. “Infelizmente, essas coisas ainda se repetem com frequência na Amazônia”, disse. Tranquilizou-se ao ser informada por Naidoo que ele também havia tocado nesse assunto com Serra e Dilma e que a petista havia se comprometido a envolver a Polícia Federal na questão. “Tomara que tudo dê certo”, torceu.

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