O concerto que nos levou aos mares

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Página - 12 - abr - 2010
Bombas nucleares, uma ilha isolada, ativistas com sonhos de navegação e rock: o Greenpeace tem início com o show Amchtika e a música de grandes artistas.

Dia 16 de outubro de 1970, cidade de Vancouver, Canadá. Nessa noite, os cantores Joni Mitchell, James Taylor e Phil Ochs e a plateia de 10 mil espectadores do concerto Amchitka ajudaram a criar o Greenpeace.

O evento foi batizado com o mesmo nome da Ilha de Amchitka, no arquipélago das Ilhas Aleutas, península do Alasca. Era neste local, um dos pontos de maior instabilidade tectônica do mundo, que os Estados Unidos conduziam uma série de testes nucleares subterrâneos no início de 1970, ignorando apelos da comunidade científica para os riscos de formação de terremotos e tsunamis.

A verba arrecadada naquela noite de casa cheia financiou a ida de um navio de protesto a Amchtika, navegado por membros de um movimento contrário aos testes. Ao microfone, organizadores do concerto anunciavam aos presentes: “Vocês estão tornando possível uma viagem pela vida e pela paz. O primeiro projeto do navio Greenpeace: parar o teste com as bombas em Amchitka, ou qualquer outro lugar”.

Essa história começa em meados da década de 1960. Pelo mundo, vozes se erguiam contra erros políticos, demandavam direitos civis, de gênero, o repúdio à Guerra do Vietnã e a extinção de armas nucleares. O idealismo “paz e amor” inspirava o ativismo. Em meio a esse cenário, notícias de lontras achadas mortas nas praias de Amchitka, com os tímpanos arrebentados pelos estrondos dos testes, foram o estopim para o grito coletivo de “parem as bombas”.  

Estamos no Canadá no ano de 1969. Protestos e abaixo-assinados pipocavam e, apesar do movimento contrário, um cogumelo de 1,2 megaton explodiu em Amchitka. A Comissão Americana de Energia Atômica classificou a operação como um sucesso e programou o próximo estrondo, dessa vez de 5 megatons, ou 400 vezes mais do que o poder da bomba de Hiroshima, para o fim de 1971, dali a dois anos.

Tempo suficiente para que o recém-criado movimento “Não faça onda”, formado inicialmente por quakers, grupo americano de tradição protestante e pacifista, organizasse as bases de um protesto contra a sanha nuclear americana.

Fonte de inspiração de princípios da organização, os quakers utilizavam o método de testemunho ocular dos crimes como forma de protesto. Naquele momento, isso criava um problema logístico. Como testemunhar testes nucleares em uma ilha isolada entre o Alasca e a Rússia? A solução surgiu pouco tempo depois, de forma quase casual: navegar até lá. 

A empolgante ideia atingiu a imprensa e no dia seguinte um jornal já tratava da viagem como se ela fosse um fato consumado. Animação geral. Na sala onde o grupo se reunia ecoavam símbolos de vitória e a palavra paz. Alguém então complementou: “Que seja uma paz verde”. Surgia aí o nome do barco e, no futuro, da organização Greenpeace (do inglês, paz verde). Porém, eles não tinham barco, nem dinheiro ou sequer alguém que já tivesse navegado na vida. 

O plano de um concerto de rock para a arrecadação de fundos surgiu algum tempo depois e recebeu pouca adesão inicial. Um grupo de hippies cujas principais preocupações era impedir testes nucleares e proteger o ambiente teria pouco apelo no cenário musical. As respostas, no entanto, foram positivas. O cantor de cunho político Phil Ochs foi o primeiro a confirmar. Joni Mitchell, premiada na categoria melhor desempenho feminino de 1970, veio em seguida. Pouco tempo depois, um telefone interrompe o jantar vegetariano dos membros do futuro Greenpeace. Joni Mitchell convidara James Taylor, outro grande hit do momento, perto de alcançar o disco de platina. O sucesso de Amchitka estava garantido.

Os US$ 18 mil angariados no concerto da noite de outubro de 1970 patrocinaram a primeira viagem do navio apelidado de Greenpeace. A incursão pelos mares foi interrompida 15 dias após a partida, pela polícia. Integrantes do movimento foram presos e a organização acreditou que o trabalho estava perdido.

Porém, o sucesso da iniciativa foi tanto que novas doações surgiram e um segundo navio, o Edgewater Fortune, partiu em direção a Amchitka. Longe ainda de alcançar sua costa, a tripulação recebeu a notícia de que o teste já havia acontecido. Três meses depois da última tentativa, no começa de 1972, a recompensa pela audácia: o anúncio oficial de que os Estados Unidos abandonariam os testes por motivações políticas. A primeira, de muitas batalhas, acabou por ser vencida. Um belo começo, regado a acordes de um concerto memorável.

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whemilliann says:

Que história incrível, valeu à pena.

Enviado 24 - abr - 2010 às 0:52 Denunciar abuso Reply

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