Os 100 dias de Dilma Rousseff

8 comentários
Notícia - 10 - abr - 2011
O Greenpeace fez uma avaliação de como as questões ambientais foram tratadas no período e só uma conclusão sai: cadê o verde que deveria estar aqui?

Dilma como presidente: onde foi parar o verde? ©Fabio Rodrigues Pozzebom/ABr

Aos novos governantes têm sido concedidos cem dias para construção de uma identidade, uma tradição inspirada na última jornada de Napoleão Bonaparte em 1815 e iniciada no governo do presidente norte-americano Franklin Roosevelt em 1930.

Na prática, a teoria é outra

Passados três meses, a presidente Dilma não mostrou ao que veio. Apesar de um artigo seu publicado na "Folha de S.Paulo” indicar preocupação com o tema ambiental, ela ainda não se posicionou na disputa entre ambientalistas e ruralistas pelo Código Florestal, ainda não deu início à construção de um marco legal para impulsionar as energias renováveis no país, não respondeu de maneira firme aos desmandos e à soberba da burocracia nuclear brasileira e ainda não foi capaz de explicar como ficam as emissões brasileiras, como previsto no Plano Nacional de Mudanças Climáticas, com o advento da exploração do pré-sal.

É certo que a fragmentação partidária não ajuda muito a presidente na missão de transformar o Brasil em um gigante da economia verde. São nada menos que dez partidos de peso político na base governista na Câmara dos Deputados, disputando cada um seu espaço: PT (88), PMDB (79), PP (41), PR (41), PSB (34), PDT (28), PTB (21), PSC (17), PCdoB (15) e PRB (8).

Muitos deles, como PMDB e PP, estão recheados de ruralistas com interesses contrários aos da agenda verde. Muitos deles trabalham para enfraquecer a proteção ambiental por meio da desfiguração do Código Florestal e do Sistema Nacional de Unidades de Conservação, e ainda trabalhando pela manutenção (e até crescimento) de fontes poluidoras na matriz energética brasileira. Além, é claro, do forte lobby nuclear que há décadas habita os corredores do Congresso e aprisiona o país em uma perigosa aventura atômica.

Dormindo com o inimigo

Durante a campanha eleitoral, a presidente Dilma respondeu a um questionário do movimento ambientalista. Nele, afirmou que vetaria mudanças no Código Florestal que levasse a anistia a desmatadores e diminuísse reserva legal e áreas de proteção permanente (APPs).

Ela sempre tão ciosa da sua autoridade e do entrosamento das diferentes áreas do seu governo, precisa esclarecer quem apita nessa discussão.

Atualmente, o líder do governo na Câmara dos Deputados, Candido Vacarezza, e o ministro da Agricultura, Wagner Rossi, estimulam a votação do projeto do deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP), que pretende enfraquecer a proteção das florestas brasileiras, anistiando quem desmatou ilegalmente e ampliando os limites do que pode ser cortado nas áreas de preservação permanente, situadas nas margens dos rios.

A ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, disse que “o MMA vem debatendo a questão em cima de três eixos: manutenção das APPs e da reserva legal sem desmatamento; resolução da questão dos passivos ambientais, oferecendo saída para cada uma delas; e as oportunidades que o código venha a oferecer permitindo compensações dentro do mesmo bioma e da mesma bacia hidrográfica, estimulando a silvicultura com, por exemplo, o Pagamento por Serviços Ambientais”. Do outro lado o ministro da Agricultura, Wagner Rossi, afirmou por diversas vezes que o relatório do deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP) sobre o novo Código Florestal merece "nota dez": "Não é preciso discutir melhor. Quem discute melhor é o Congresso Nacional”, diz ele.

A presidente precisa entrar em cena e deixar claro qual é a proposta do governo para o Código Florestal.

Descaso em relação às renováveis

Apesar da mensagem com pinceladas verdes ao Congresso na abertura do ano legislativo, o governo ainda não trabalhou para impulsionar a votação do projeto de lei das energias renováveis, parado na Mesa Diretora da Câmara dos Deputados desde 2009.

O projeto é vital para o florescimento de um mercado para as energias limpas, renováveis e seguras no país, como eólica e solar. Em março de 2010, o Greenpeace, esteve com a presidente Dilma, então chefe da Casa Civil, pedindo o empenho pela aprovação da lei e ouviu que o tema seria tratado pelo governo.

Enquanto prosseguimos sem um marco legal para renováveis, o governo desperdiça R$ 12 bilhões com a construção de Angra 3, abandona em nossos canaviais um potencial de geração de 28 mil megawatts, o equivalente a duas usinas hidrelétricas de Itaipu, e não consegue construir as linhas de transmissão para os 20 parques eólicos do Rio Grande do Norte, onde serão investidos R$ 8,3 bilhões até 2013.

Limpando a barra

A equipe de Dilma previa sua ida à inauguração da usina térmica de Candiota 3 (RS), no início desse ano, mas a presidente mudou de ideia em cima da hora. O projeto faz parte de um acordo internacional firmado entre China e Brasil e está localizado no município de mesmo nome, que ficou 150 dias sem chuva no último verão.

O investimento em térmicas é totalmente contrário às iniciativas tomadas para reduzir a emissão de gases-estufa, que levam ao aquecimento global. A recusa de Dilma em ir ao evento demonstra que ela pelo menos sabe que ligar sua imagem a uma fonte altamente poluente é negativo. Mas nem por isso repensou o projeto, nem o crescimento da geração térmica na matriz energética brasileira, em detrimento ao investimento em fontes renováveis.

Abrolhos com petróleo

Logo no início de seu mandato, Dilma foi informada de que a sentença judicial que impedia a exploração de petróleo e gás no entorno do principal parque nacional marinho brasileiro, Abrolhos, tinha sido derrubada.

O ato deixou o local de reprodução de baleias jubarte, maior área de recife de coral do Atlântico Sul, vulnerável a acidentes semelhantes ao ocorrido no Golfo do México no ano passado. Já se passaram três meses e nenhuma providência foi tomada para tornar a região dos Abrolhos uma zona livre de exploração de petróleo.

Soberba atômica

Como desdobramento da recente tragédia no Japão, governos do mundo inteiro, a exemplo da Alemanha, anunciaram a suspensão da construção de novas usinas nucleares e a desativação das antigas, tranquilizando seus cidadãos.

No Brasil, entretanto, o desastre foi classificado de mero “incidente” pelo ministro de Ciência e Tecnologia, Aloizio Mercadante, que também afirmou que as usinas de Angra 1 e 2 são seguras e não representam riscos para o país.

Isso não é verdade. Angra 2 funciona sem licença ambiental permanente, um laboratório com material radioativo foi soterrado por um deslizamento de terra onde as usinas estão instaladas e o plano de evacuação em caso de acidente é pífio, pois sequer existem rotas seguras para garantir a retirada da população que mora em Angra dos Reis (RJ). Se um acidente nuclear, como o que ocorreu no Japão, acontecesse no Brasil, a evacuação deveria englobar até 1,5 milhão de pessoas, em 27 municípios do Rio de Janeiro e São Paulo.

Como não consegue comprovar que tem um plano de segurança para suas atividades nucleares, o governo recebeu recentemente do Ministério da Economia da Alemanha o aviso da suspensão do financiamento de € 1,3 bilhão para a construção de Angra 3.

Reação ruim às catástrofes

Seguindo a infame tradição brasileira de correr atrás do prejuízo, após a tragédia no Rio de Janeiro no início deste ano, o governo anunciou o estabelecimento de um sistema nacional de prevenção e alerta de desastres naturais, que deve ser concluído em quatro anos – ou seja, há o risco de não ser um marco deste governo.

Parece inacreditável, mas ainda carecemos no país de um levantamento das áreas de risco. Números iniciais – e aparentemente subestimados – apontam aproximadamente 500 áreas de risco, com cerca de 5 milhões de pessoas.

Além disso, qualquer ação para minimizar os danos de eventos extremos, que tendem a se intensificar com o aquecimento global, só será bem sucedida se houver uma ampla reformulação da Defesa Civil brasileira. Hoje ela é completamente sucateada, desaparelhada e despreparada, e o desembolso de recursos para municípios atingidos por catástrofes é freado por burocracias intermináveis. A ex-secretaria nacional de Defesa Civil, Ivone Valente, reconheceu publicamente que os auxílios destinados a comunidades afetadas por catástrofes acabam não se convertendo em melhorias ou prevenção a novos eventos.

O Fundo Nacional de Mudanças Climáticas destinou R$ 10 milhões para o desenvolvimento do sistema nacional de alerta. O fundo, entretanto, nem começou a sair do papel.

Dito e meio feito

Na sua mensagem ao Congresso Nacional, a presidente se comprometeu a implementar a Política Nacional de Mudanças Climáticas. Foi aprovada a proposta de aplicação de recursos para 2011: R$ 200 milhões em financiamento e R$ 29 milhões em doação de recursos.

Ao mesmo tempo, descobriu-se que o Programa de Agricultura de Baixo Carbono (ABC), que poderia dar um grande incentivo ao controle das emissões de gases-estufa produzidos por atividades agrícolas, até hoje não gastou um só centavo dos R$ 2 bilhões destinados. Lançado em junho de 2010, ele visa a recuperar 15 milhões de hectares de pastagens degradadas, entre outras atividades, o que ajudaria o país a cumprir seu compromisso internacional de redução em 36,8% a 38,9% de suas emissões até 2020.

Corte no orçamento

Dilma ordenou um corte de R$ 50 bilhões no orçamento de 2011. O Ministério do Meio Ambiente, que já tem o menor orçamento entre todos os ministérios, recebeu uma tesourada de 40%: foi de R$ 1.078.490 para R$ 680.335, um dos cinco enxugamentos mais drásticos entre seus pares.

Esse corte vai dificultar as operações de combate ao desmatamento e medidas positivas como o programa Mais Ambiente. Isso também vai dificultar o cumprimento das metas brasileiras de redução de emissões de CO² - metas essas que foram reafirmadas por Dilma na sua mensagem ao Congresso na abertura dos trabalhos legislativos em 1º de fevereiro.

Licenças 'fantasmas'

Para tentar adiantar a obra da usina de Belo Monte, foi emitida uma licença de instalação de canteiro de obra para o consórcio vencedor do leilão. Esse tipo de licença não existe no Sistema de Licenciamento Federal.

Expedientes estranhos como esse provocaram um grande constrangimento internacional ao Brasil, com o pedido da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), da Organização dos Estados Americanos (OEA), pela suspensão imediata da obra.

8 Comentários Adicionar comentário
ruanmatoliv

ruanmatoliv says:

Dilma é muito discurso e pouca ação. É claro que ela, como ex-ministra chefe da Casa Civil, apresenta interesses totalmente divergentes dos ideais de preservação ambiental.
Não acredito que nesses meses de governo, ela não possa ter dado um grande passo rumo à defesa dos biomas do nosso país.
Dilma não está preparada pra dar apoio à causas ambientais. Seus ministros muito menos. A estrutura do governo petista não segue e não acredito que seguirá uma direção verde. A onda é verde, não vermelha.

Enviado 28 - mai - 2011 às 4:11 Denunciar abuso

diegocamilo

diegocamilo says:

Realmente é preocupante ver estas notícias.Concordo plenamente com a citação da nossa amiga Natália =P. O pessoal do Greenpeace está de parabéns, conheci hoje esse organização mais a fundo, e vi que estão engajados em uma causa nobre e de extrema importância. O Brasil vive hoje um capitalismo descontrolado, o poder esta concentrado na mão de errados(mesmo vivendo hoje numa democracia onde podemos eleger quem nos representará).Quando nas eleições a Marina saiu com propostas de meio ambiente, todos disseram que ela era sensacionalista em relação a natureza e que durante seu governo iria só se preocupar com a natureza deixando de lado a questão social e economica do país.Mais no meu ponto de vista se a Marina tivesse sido eleita esses 100 dias seriam marcados por iniciativas muitas na questão ambiente e ela ja estaria com seu perfil definido, e ainda acredito que ela seria uma otima representante na questão social, porque veio de familia humilde e sabe as dificuldades do povo brasileiro.Além do mais, a questão ambiente esta interligada com a questao economica e social do pais, tudo depende do meio ambiente, funcionando em harmonia, homem e natureza, qualquer país se torna prospero além de ajudar o planeta e consecutivamente as gerações futuras.Tomara que a Dilma cumpra com seus deveres, ainda estou dando a ela um voto de confianca pois acredito que em 100 dias, é muito pouco pra definir um carater de uma mulher que esta inaugurando esta atuação feminina na presidencia de um país.

Enviado 28 - abr - 2011 às 0:49 Denunciar abuso

Natália

Natália says:

Não estou indignada com a posição do PT, era de se esperar essas atitudes.
Disse a presidente que continuaria o governo de lula, mas pensem, ela está dando continuidade. O que não sabíamos ou acabamos omitindo, era que este governo não tratava de assuntos ambientais e sim assuntos ligados ao desenvolvimento de forma "errada" podemos dizer.
O governo está investindo em bolsa família, construindo escolas (LEMBRANDO: sem segurança alguma*), investindo em energia nuclear, pré-sal entre outros "malefícios" que para a população brasileira é benefício FATO#
Isso tudo chama-se falta de conhecimento ou melhor ignorância. E ainda pedem um mundo melhor, como querem um mundo melhor se não partem para o lado de preservação ambiental, como querem acabar com o efeito estufa se utilizam carros ao invés de bicicletas que aliás é mais saudável, se tem animas ilegais em casa e querem acabar com o contrabando de animas e o desmatamento das floresta. Parar e pensar um pouco não causará danos à mente de ninguém, pelo contrário só irá fazer com que mais e mais pessoas se juntem à nós pela preservação das florestas, à não utilização de energia nuclear.

Enviado 26 - abr - 2011 às 21:50 Denunciar abuso

leaozinho

leaozinho says:

Creio eu que a política deste país não esta da melhor, a Dilma não está dando conta do que era por direito da Marina.

Enviado 22 - abr - 2011 às 14:48 Denunciar abuso

Redney

Redney says:

Realmente esperava algo mais da presidenta, não só dela como desses governates, são só promessas, um bando de capitalistas, precisam pensar mais na natureza, de onde todos nós dependemos para sobreviver.

Enviado 18 - abr - 2011 às 16:28 Denunciar abuso

vando

vando says:

Realmente é vergonhosa essa situação. Tinha muita esperança nos governos do PT, mais cheguei a conclusão que é a maior FARSA desse país. O país é privilegiado para a produção de energia limpa, mais infelizmente dependemos dos governates, aí volto a realidade e me bate uma grande decepção e tristeza.

Enviado 14 - abr - 2011 às 8:57 Denunciar abuso

Pedro16

Pedro16 says:

Mais também quem nao ficaria indignado com uma coisa dessa, presidenta promessa é dívida. Estou absmado com essas notícias pois nao sabia de nada disso, e achando que á mesma já tinha feito muita coisa.! Obrigado ao Greenpeace por estar atrás destas notícias para informar sempre cada vez mais e mais ao seu leitor. E gostaria de saber passo a passo como estão estes projetos citados acima, Presidenta acho melhor correr, pois com o tempo não se brinca, já já se passam seus 4 anos e nada é feito.!
Mais com o que mais fiquei indignado foi com o corte do ministério do meio ambiente, tem tantos ministérios por ai, fazendo coisa ao contrário da promessa feita pela mesma, ao invés de reduzir gastos estão estrapolando como nunca os orçamentos. Ai o governo resolve cortar os gastos do Meio Ambiente preocupação número 1 no Brasil e no Mundo.
Agradecido pela Atenção.

Enviado 10 - abr - 2011 às 16:41 Denunciar abuso

simoesp_

simoesp_ says:

Fico indignada como não fazem algo pelo meio ambiente, ainda mais a 'nossa' presidente, que devia combater o desmatamento da nossa Amazônia, o pulmão do mundo. Esta aí a continuação do governo Lula, que falaram que ia ser bom.

Enviado 10 - abr - 2011 às 11:41 Denunciar abuso

1 - 8 de 8 resultados.

Postar um comentário 

Para postar um comentário, você precisa estar logado.

Entrar