A noite do dia 17 de dezembro de 2009 foi de gala no Palácio de Christiansborg, na Dinamarca. A rainha Margarida 2ª, cercada pelos olhos da imprensa mundial, aguardava a chegada dos convidados para o maior jantar oficial da história do país. Mais de cem chefes de Estado irrompiam em suas limusines, vigiadas por um forte esquema de segurança aérea e terrestre. A cena transcorria em aparente normalidade e ninguém pareceu notar que o carro de placa 007 carregava um adesivo peculiar, em que se lia “Delegação Planetária Greenpeace”.
Juantxo, Joris, Nora, e Christian queriam chamar a atenção dos chefes de Estado reunidos em Copenhague sobre a necessidade de se chegar a um acordo para salvar o clima. © Scanpix / Jens Norgaard Larsen
Dentro do carro, a norueguesa Nora Christiansen, 35, mãe de dois filhos, tremia de nervoso. Ela evitou olhar para fora durante todo o percurso pelos cinco pontos de checagem policial antes da entrada do palácio e só recuperou o fôlego ao sinal emitido pelo celular do carro da frente. Estavam dentro. Em pouco tempo, Nora e outros três ativistas, Juan de Uralde, Christian Schmutz e Joris Thijssen, realizavam a tarefa que os levara até ali: protestar contra a inação dos políticos presentes na 15ª Conferência do Clima (COP15), em Copenhague, em chegar a um acordo global sobre mudanças climáticas.
Vinte e um dias depois, os quatro ativistas, que ficariam conhecidos como Red Carpet Four em alusão ao tapete vermelho da rainha, saíam da prisão, onde passaram o Natal e o Ano Novo por terem pacificamente aberto um cartaz com os dizeres “Líderes falam, políticos agem”. Agora, eles aguardam em liberdade o desenrolar do processo judicial que pode colocá-los de volta na cadeia e fazem apelos mundiais por justiça. Assine a petição on-line e peça justiça para nossos quatro ativistas. (link)
A foto de Nora Christiansen, com um vestido vermelho comprado na loja de fantasias e o cartaz que, por sorte, ela teve tempo de recolocar na posição correta na hora do protesto, foi uma das mais mostradas em jornais da Dinamarca. A pedido do Museu Nacional da Dinamarca, que organiza uma exposição permanente sobre a COP15, Nora doou o vestido, já considerado a cereja do bolo da coleção. Para muitos, esse protesto sintetizou com perfeição a razão do grande fracasso da COP15, um lugar repleto de representantes de muita fala e nenhuma ação.
Nora Christiansen. © Bas Beentjes / Greenpeace
Em recente visita ao Brasil, Nora Christiansen contou os detalhes dessa história.
Como você se envolveu nesse protesto?
A COP15 estava repleta de políticos, empresas, jornalistas e ONGs. O Greenpeace estava sempre atrás de diferentes oportunidades de fazer atividades. Recebi a convocação da equipe de logística para participar de algo magnífico, mas que teria implicações legais severas. Quando me contaram que a ideia era entrar no jantar para os chefes de Estado com um cartaz, eu achei que era impossível. No dia seguinte, encontrei com o meu marido [Mads Christensen, diretor-executivo do Greenpeace Nórdico] por dois minutos e contei a ele que pretendia participar de uma atividade. Falei da possibilidade de passar até 40 dias presa e ele me respondeu: “Imagina, a polícia nunca vai prendê-la por mais do que 36 horas”.
Como foi a preparação?
Parei em uma loja daquelas bem baratas de fantasias e comprei um vestido de festa vermelho. Quando cheguei ao ponto de encontro e vi os três ativistas impecavelmente vestidos de smoking, pensei pela primeira vez que aquilo seria possível. Descobrimos em um site para aficionados por carros quais eram os veículos usados pela segurança e pela polícia secreta da Dinamarca. Alugamos um Peugeot, uma Land Rover e a limusine, que era o carro usado pelos chefes de Estado. Uma noite antes, um voluntário tirou fotos dos carros de segurança usados nas comitivas, e percebemos que todos levavam um adesivo com o nome do país correspondente, então bolamos o nosso com “Delegação Planetária Greenpeace”. A luz azul que piscava em cima dos carros, nós compramos em uma loja de brinquedos. Precisávamos por fim de um número para a placa da limusine. Alguém sugeriu que só havia uma pessoa que chegava tão impecável quanto nós às missões: o 007.
Qual era a proporção dessa aventura?
Foi a maior operação de segurança da história do país. Eles importaram policiais até da Alemanha. O Palácio de Christiansborg, que fica em uma ilha, estava cercado de helicópteros e atiradores de elite. Tínhamos a Hillary Clinton na frente e, atrás, o presidente da Comissão Europeia, José Barroso. Eu tremia de nervoso enquanto passávamos pelos cinco pontos de checagem policial, não conseguia olhar para os lados. Quando finalmente entramos no jardim, começamos a subir a escadaria de tapete vermelho que nos levaria direto ao cumprimento da rainha. Sabíamos que, quanto mais perto dela, maiores seriam as implicações legais, então assim que vimos a imprensa nós abrimos o cartaz.
Como você escondeu o cartaz?
Eu vesti uma echarpe branca por cima do vestido vermelho e escondi o cartaz embaixo do braço. Planejei tudo de forma a ter os dedos prontos para puxar o texto na posição correta. Mas começamos a apertar a mão de várias pessoas na entrada e eu perdi a posição. Quando finalmente consegui abrir o cartaz, ele estava ao contrário. Durante muito tempo na cadeia, só o que eu pensava era: “Cheguei até lá e abri o texto de cabeça para baixo”.
O que aconteceu depois?
Fomos imediatamente presos e levados para o que chamávamos de “Guantánamo do clima”, uma área especial para prender ativistas. Um dos policiais até nos congratulou pelo que tínhamos feito. O normal teria sido ficarmos 24 horas detidos e depois irmos a julgamento. Foi chocante ficar 21 dias presos, em cárcere individual, sem comunicação com o mundo externo.
Durante o tempo que vocês passaram na prisão, ativistas de todo o mundo manifestaram em favor da causa. Vocês sabiam?
Não sabíamos muito o que estava acontecendo no mundo. Recebi minha primeira correspondência no dia 30 de dezembro. Eram mensagens de Natal que vinham de todos os lugares do mundo de colaboradores, ciberativistas, voluntários, equipe, simpatizantes. Comecei a chorar quando li. Muitas pessoas escreveram que essa ação lhes deu esperança. Às vezes os guardas contavam: “Li no jornal que pessoas na Argentina protestaram por vocês”. Ficar na cadeia é duro, você fica triste o tempo todo. Isso nos animava.
Qual o segredo para esse tipo de protesto dar certo?
Todos os jornalistas me perguntavam depois que eu saí da prisão se eu sempre fora uma mulher muito corajosa, e eu dizia que não, eu sou é otimista. Essa é a chave do trabalho que fazemos, acreditamos que podemos ir aos lugares mais policiados e de fato nós vamos. Você nunca sabe o que vai fazer um líder mundial mudar de opinião, pode ser até mesmo um cartaz. Todos conseguem perceber essa motivação. Eu sabia das implicações legais, mas no fundo eu não acreditei que pudesse acontecer. É puro otimismo.
O espanhol Juan Lopez de Uralde, 46, começou no Greenpeace como voluntário, em 1990. Hoje é diretor-executivo do escritório da Espanha e pai de dois filhos.
Christian Schmutz, 37, suíço, é coordenador de logística e treinador de escalada. Ele começou como voluntário em 2003 e tem um filho de 2 anos.
Joris Thijssen, 35, é coordenador da campanha de clima no Greenpeace Internacional.
Nora Christiansen, 35, tem dois filhos, é norueguesa, mas vive na Dinamarca. É gerente de desenvolvimento do Greenpeace.