Santuário ameaçado

Notícia - 12 - mar - 2012
A empresa franco-britânica Perenco deu início à exploração de petróleo na zona de maior biodiversidade do Atlântico Sul. Greenpeace manda seu recado do alto

O Greenpeace mandou uma mensagem contundente à Perenco, primeira empresa à perfurar poços de petróleo em Abrolhos (©Greenpeace/Marizilda Cruppe/EVE)

A petroleira Perenco foi surpreendida no início da noite desta segunda-feira com um contundente recado do Greenpeace: “Abrolhos sem petróleo. Fora Perenco”.

A mensagem projetada na fachada da Torre do Rio Sul, um dos mais antigos shoppings da capital fluminense, onde se localiza a sede brasileira da empresa anglo-francesa, era um protesto contra o início da exploração de óleo no maior santuário marinho do Atlântico Sul, localizado no litoral baiano.

Esta é a segunda vez que o Greenpeace protesta contra a empresa. Em agosto passado, os ativistas se fantasiaram de baleias e bateram na porta da Perenco cobrando uma resposta sobre o fim da exploração de óleo em Abrolhos. A empresa, porém, jamais se pronunciou.

Assine a petição contra a exploração de petróleo em Abrolhos

A Perenco recebeu em novembro passado autorização do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e os Recursos Naturais Renováveis) para iniciar a perfuração de oito poços em alto mar. A operação teve inicio pela perfuração de dois poços nos blocos BM-ES-37 e BM-ES-38, ambos localizados dentro da área de moratória exigida pelo Greenpeace em Abrolhos.

No primeiro poço, a perfuração atingiu 4.894 metros e no segundo 5.100 metros. A viabilidade econômica dos dois poços ainda está em avaliação.

O licenciamento ambiental foi aprovado sem um plano de ação específico para casos de acidente. O IEA (Estudo de Impacto Ambiental) apresentado pela Perenco ao Ibama para conseguir a licença de perfuração identifica um risco alto e moderado de vazamento de óleo em uma zona de movimentação de baleias jubarte e de quelônios.

O mesmo documento mostra que 19,4% da área de reprodução de baleias, dentro da área de moratória , poderá ser impactada por um eventual vazamento durante qualquer uma das etapas da exploração dos blocos.

“A aprovação para perfuração em Abrolhos é um grande erro e vai na contramão dos avanços que se espera do governo brasileiro para a proteção de Abrolhos, esta zona de extrema importância ecológica”, disse Leandra Gonçalves, da campanha de Clima e Energia do Greenpeace Brasil.

“A Perenco sempre ignorou nosso pedido de moratória da exploração de petróleo em Abrolhos. A mensagem de hoje, portanto, é um alerta à empresa de que continuamos atentos a suas movimentações neste santuário marinho. Também é uma maneira de mostrar à população os riscos que a indústria do petróleo e gás está levando para a zona de maior biodiversidade do mar brasileiro.”

Veja outras imagens do protesto:

Licenciamento precipitado

Todo o movimento de licenciamento para a Perenco aconteceu à revelia de discussões entre o MMA (Ministério do Meio Ambiente), o MME (Ministério de Minas e Energia), os governos Estaduais e com a Petrobras sobre maneiras de garantir uma maior proteção ao banco dos Abrolhos.

Em novembro passado, durante reunião entre o Greenpeace com o então diretor de exploração da Petrobras, Guilherme Estrella, a empresa garantiu que o entorno de Abrolhos, devido a sua formação geológica e sua importância em termos de biodiversidade, não era de interesse da empresa.

O mesmo entendimento parece ter a nova presidente da Petrobras, Graça Foster. Em entrevista à jornalista Miriam Leitão (Espaço Aberto, Globo News, 8/3/2012), Foster reitera a importância de Abrolhos e afirma que a empresa vai respeitar os limites de exclusão necessários para proteger sua biodiversidade.

“Existe uma discussão de que se faça um afastamento de 50 km no entorno de Abrolhos. Se 50 km é dispor de um distanciamento para a área de proteção ambiental, que seja. Se for 100 km, também. Se não puder [explorar em Abrolhos], também... [A exploração em Abrolhos] não perturba o resultado da indústria de petróleo. Não é isso que vai reduzir os resultados de nossos acionistas.”

O Banco dos Abrolhos

Criado em 1983, o Parque Nacional Marinho dos Abrolhos ocupa uma área aproximada de 266  milhas náuticas quadradas (91.300 ha). Ele é  composto  por  duas  áreas  distintas: a parte maior compreende o parcel dos Abrolhos e o arquipélago dos Abrolhos, excluída a ilha Santa Bárbara, sob controle da Marinha. A parte menor corresponde aos recifes de Timbebas.

Veja galeria de fotos da biodiversidade de Abrolhos:

Estudos recentes demonstraram que a extensão da biodiversidade do banco dos Abrolhos está muito além dos limites de proteção definidos pelo parque. O entorno da região, que abriga o maior banco de corais do Atlântico Sul, encontra-se completamente desprotegido. Além disso, a ANP (Agência Nacional do Petróleo) loteou a área, dando concessões a 10 empresas para explorarem óleo e gás em 13 blocos dentro da área para a qual se pede uma moratória. Atualmente, não há restrições legais para que novos blocos sejam ofertados em futuros leilões.

A área de moratória, de aproximadamente 93 mil quilômetros quadrados, foi estabelecida pelo Greenpeace a partir do estudo chamado Megadiversidade, realizado pela ONG Conservação Internacional e por pesquisadores independentes. A metodologia utilizada foi a dispersão de gotas de óleo em diversas regiões, levando em consideração o sistema de ventos e correntes marinhas. Daí se definiu a extensão que um eventual vazamento pode atingir.

Sobre a Perenco

Com operações onshore e offshore em todo o mundo, a Perenco produz cerca de 250 mil barris de petróleo por dia. A empresa está presente em 16 países: Austrália, Belize, Brasil, Congo, Camarões, Congo, Equador, Egito, Gabão, Guatemala, Iraque, Peru, Tunísia, Turquia, Reino Unido e  Venezuela.

Sócia do empresário Eike Batista, a Perenco é ainda uma desconhecida no Brasil. Seu ingresso no país se deu somente após a 9a rodada de concessão da ANP, de 2008. Nela a empresa adquiriu cinco concessões, todas de exploração em águas profundas e duas delas na área de moratória de Abrolhos.