O Brasil tem um papel fundamental nas discussões sobre mudanças
climáticas por ser o quarto maior emissor de gases do efeito estufa
do mundo. Em função disso, e por conta de um discurso que no ano
passado incluiu o anúncio de um Plano Nacional de Mudanças
Climáticas, o país tem assumido papel de destaque nas discussões
globais. Traduzir o belo discurso internacional em ações domésticas
concretas que ajudem a salvar o clima do planeta é o grande
desafio.
Zerar o desmatamento da Amazônia é uma grande contribuição que o
Brasil poderia dar para combater as mudanças climáticas, já que a
maior parte das emissões brasileiras de gases do efeito estufa é
proveniente da destruição da floresta. Ao invés de trabalhar nesse
sentido, no entanto, o BNDES, banco vinculado ao governo federal,
oferece crédito para criadores gado na Amazônia. O Senado, por sua
vez, aprovou, em plena semana do Meio Ambiente, uma medida
provisória que entrega uma área de floresta equivalente aos estados
de São Paulo, Ceará e Rio Grande do Sul juntos para produtores
rurais que ocuparam e desmataram ilegalmente essas terras.
O governo brasileiro tem ignorado outra forma de combate ao
aquecimento global: a introdução de energia novas renováveis
produzidas a partir de vento, biomassa, sol e das ondas na matriz
brasileira. Contrariando a tendência mundial, o governo brasileiro
anunciou o Plano Decenal de Expansão de Energia (PDE) para o
período de 2008 a 2017 que aumenta a participação de usinas a
carvão e óleo combustível na geração de energia elétrica. Ou seja,
o Brasil vem optando pelas fontes sujas, que agravam ainda mais o
problema do aquecimento global.
Os oceanos também não estão recebendo a devida atenção do
governo. Quase ninguém se lembra, mas eles são fundamentais para
manter o clima do planeta. A criação de áreas marinhas protegidas é
uma ferramenta importante para mantê-los limpos e saudáveis para
desempenhar a função de regulador climático adequadamente. No
Brasil, apenas 0,4% dos mares são protegidos atualmente.
Enquanto o governo fecha os olhos para a lição de casa que
precisa fazer para ajudar a resolver a crise climática global, os
efeitos das mudanças do clima já começam a ser sentidos pela
população brasileira.
Este ano, enquanto no Norte e Nordeste cidades inteiras estavam
em baixo d´água, por conta das piores enchentes da história da
região, no sul a seca castigava a população do Rio Grande do Sul e
Santa Catarina. Segundo dados da Organização Mundial de Saúde
(OMS), a incidência de eventos climáticos extremos no Brasil,
aumentou entre 1970 e 2008, causando a morte de mais de seis mil
pessoas e prejuízos da ordem de US$ 10 bilhões.
Em novembro de 2008, chuvas torrenciais provocaram em Santa
Catarina a morte de mais de 130 pessoas e milhões de reais em
prejuízos materiais.
Eventos climáticos como esses podem se tornar rotina para
milhões de brasileiros se o governo continuar fazendo escolhas
erradas e incoerentes na hora de combater o aquecimento global.
Independentemente de seu histórico como emissor de gases do efeito
estufa, o Brasil não pode se eximir de sua responsabilidade. O
desenvolvimento econômico do país não precisa ser feito às custas
do clima da Terra.