Áreas protegidas ameaçadas por transgênicos

Notícia - 31 - out - 2006
Governo edita Medida Provisória que reduz distância mínima entre plantio de transgênicos e unidades de conservação

O Presidente Lula assinou ontem a Medida Provisória (MP) 327/06 para reduzir a distância mínima que separa as áreas de plantio de organismos geneticamente modificados (OGMs) das unidades de conservação (UCs), dentro da chamada zona de amortecimento . De acordo com a nova MP, a distância mínima dentro da zona de amortecimento das UCs passa a ser determinada caso-a-caso para cada uma das variedades transgênicas, por meio de decreto

presidencial.

Para o Greenpeace, essa decisão é uma afronta ao princípio da precaução e não poderia ter sido tomada sem uma consulta à sociedade. "A sociedade civil brasileira exige respeito à biossegurança e ao meio ambiente do país e repudia qualquer medida que possa colocar em risco a segurança ambiental brasileira", disse Gabriela Vuolo, da campanha de engenharia genética do Greenpeace Brasil.

O Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC), criado pela Lei 9.985 de 2000, define a zona de amortecimento como: o entorno de uma unidade de conservação, onde as atividades humanas estão sujeitas a normas e restrições específicas, com o propósito de minimizar os impactos negativos sobre a unidade. A Resolução 13 do Conama, de 1990, determina que a extensão da zona de amortecimento é de 10 km.

O artigo 11 da lei 10.814, aprovada em 2003, proibiu o plantio de soja transgênica em toda a zona de amortecimento das unidades de conservação. A MP revogou este artigo, estabelecendo que tanto no caso da soja transgênica como em relação aos demais OGMs, caberá ao Presidente da República definir, caso-a-caso, qual o limite a ser respeitado. O Decreto 5.950 de 2006, do Presidente Lula, publicado junto com a Medida Provisória, já estabelece os limites para as duas variedades de OGMs aprovadas no Brasil: a soja e o algodão. De acordo com as novas regras, fica estabelecido uma distância de 500 metros para a soja transgênica Resistente ao Roundup (RR), antes era 10 km, e 800 metros para o algodão transgênico inseticida (Bt). Quando houver parentes silvestres do algodão na unidade de conservação, a distância aumenta para 5 km.

O Greenpeace avalia que esta MP seja uma medida para agradar agricultores e multinacionais da área de biotecnologia, e que teria como conseqüência a possível expansão da área de cultivo transgênico no sul do país. No Paraná, por exemplo, a Syngenta foi recentemente multada por ter feito um cultivo experimental de soja transgênica na zona de amortecimento do Parque Nacional do Iguaçu, reconhecido pela UNESCO como Patrimônio da Humanidade. Até hoje a Syngenta não pagou a multa de R$1 milhão estabelecida pelo Ibama.

"Se antes dessa Medida, as zonas de amortecimento eram desrespeitadas, agora a situação só tende a piorar", alerta Gabriela. "Gostaríamos de acreditar que o governo vai proteger as unidades de conservação. Mas se o Ministério da Agricultura até hoje não tem dados precisos sobre a quantidade e a localização dos plantios transgênicos no país, como o governo pretende fiscalizar cada uma das zonas de amortecimento?", questionou Gabriela.

O Greenpeace publicou no dia 17/10 um protesto virtual e convidou os brasileiros a enviar mensagens de repúdio ao governo Lula; 5.057 pessoas participaram. Mesmo assim, o governo preferiu ignorar esses pedidos e atender aos interesses das indústrias de biotecnologia e de alguns poucos agricultores.

Leia a MP:

https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2004-2006/2006/Mpv/327.htm

Veja o decreto:

https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2004-2006/2006/Decreto/D5950.htm

Tópicos